Choque de gestão?

<div class="select">Por Tomás Goulart</div>O chamado choque de gestão proposto pelo presidente não é nada mais que um desejo de aumentar o controle sobre a máquina pública

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A polêmica expressão do presidente Lula – “As pessoas passaram a idéia de que é possível fazer um choque de gestão diminuindo o número de pessoas que trabalham, quando, na verdade, o choque de gestão vai ocorrer quando contratarmos” – levanta uma questão relevante quando o assunto é política fiscal.

Afinal, o que é mais eficiente? Um Estado enxuto, no qual a soma das otimizações individuais irá maximizar o bem-estar social? Ou um Estado mais robusto, que se valerá de premissas políticas para otimizar o ganho da sociedade?

A média de despesa com pessoal no primeiro governo FHC era de cerca de R$ 4,4 bi por mês. No primeiro governo Lula a média foi de R$ 6,7 bi, já no atual governo, a expansão se mostrou de forma significativa e atinge hoje R$ 9,3 bi, acréscimo de 111% em relação ao primeiro governo FHC contra uma inflação de 86% no período.

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A literatura econômica trata bem desse assunto. Hall e Jones (1998) mostram que a produtividade da sociedade está inversamente relacionada ao consumo do governo. Em outras palavras, quanto menor o consumo do governo, maior a quantidade de recursos livres a serem alocados pelos indivíduos ao decidirem por suas cestas ótimas de consumo.

Isso leva a sociedade como um todo à sua eficiência máxima em função do sistema de preços. Um contraponto a esse argumento decorre da hipótese que estados maiores tendem a oferecer mais recursos para que os gestores públicos possam decidir sua alocação e, com isso, melhoram a qualidade do bem ofertado pelo ente estatal.

Apesar da discussão acerca da taxação ótima ser de extrema relevância, a grande questão parece ser outra. Qual a forma ótima do gasto público? Será que o investimento em escolas e hospitais é tão eficiente quanto o investimento em pessoal, a fim de preencher todas as vagas oferecidas pelos 34 ministérios?

“Apesar da discussão acerca da taxação ótima ser de extrema relevância, qual a forma ótima do gasto público?”

Novamente, a literatura econômica tenta dar a melhor resposta para esse caso. Em média, esse maior intervencionismo deve ser associado com menor eficiência, dado que maior poder regulatório e de taxação é um convite à corrupção e a problemas com burocracia.

Além do mais, gastos elevados em transferências e subsídios ou consumo do governo podem estar refletindo elevados níveis de impostos distorcidos. Portanto, por mais que tenhamos diversos países ricos com uma carga tributária maior que a existente no Brasil, se não qualificarmos os investimentos a serem feitos pelo setor público, o ganho ou a compensação pela desutilidade que uma maior tributação traria, é, na prática, perdido.

Como quase tudo nesse país, essa questão pode ser derivada do contexto histórico no qual a colonização foi dada. La Porta et al. (1998) mostram que a adoção de um sistema legal (“civil law”) de origem francesa (que foi adotado pelo Brasil) traz relevantes conseqüências no longo prazo.

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Primeiro, países que baseiam suas leis na “civil law” francesa têm proteção ao investidor mais fraca e os mercados de capitais tendem a ser menos desenvolvidos por conseqüência. Além do mais, tais nações tendem a ser mais intervencionistas, possuem governos menos eficientes e pagam mais a seus burocratas.

Tal encadeamento mostra que o interesse em aumentar o tamanho do estado nesses casos não é melhorar as políticas redistributivas, mas, sim, aumentar seus poderes sobre a sociedade.

Como contraponto, países com sistema legal originado a partir da “commom law” inglesa possuem maior eficiência nos gastos públicos, menor corrupção e mercado de capitais mais desenvolvido. Isso tudo decorre em grande parte de um incentivo que esse tipo de lei gera a favor do indivíduo ao invés do estado.

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Dessa maneira, cabe-nos mais uma pergunta: o choque de gestão proposto pelo presidente Lula tende a aumentar a eficiência da sociedade como um todo ou reflete um mero aumento dos poderes sobre a mesma?

Quando percebemos que os setores básicos aos quais são destinados recursos para melhoria da eficiência alocativa não estão sendo privilegiados, podemos concluir que o chamado choque de gestão proposto pelo presidente não é nada mais que um desejo de aumentar o controle sobre a máquina pública.

Estamos, portanto, perdendo uma grande oportunidade de realização de uma reforma que efetivamente melhore a eficiência do setor público (e conseqüentemente da sociedade brasileira como um todo) e o bem-estar social. A hipótese levantada pela afirmação do presidente Lula carrega um erro gravíssimo de embasamento teórico, mostrando qual o tipo de política proposta pelo governo.

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Tomás Goulart é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às quintas-feiras.
tomas.goulart@infomoney.com.br