China voltou a crescer, mas recuperação é de longo prazo?

Depois de um pouso suave, economia da China passará por uma etapa relativamente prolongada de suave recuperação; Vale deve se beneficiar desta expansão no 1° semestre

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SÃO PAULO – A economia chinesa finalmente voltou a crescer, após registrar seus piores resultados desde a crise global de 2008. O PIB (Produto Interno Bruto) do país expandiu em ritmo mais lento em 13 anos em 2012, mas acima das projeções. Os dados indicam uma recuperação modesta e vulnerável, e abrem a dúvida: esta expansão é sustentável?

Embora a China tenha consolidado entre os analistas a convicção de que as manobras para assegurar o pouso suave – situação quando o crescimento é o suficiente para evitar uma forte desaceleração ao mesmo tempo que evita uma disparada da inflação – à economia do país estão sendo bem sucedidas, o economista da XP Investimentos, Daniel Cunha, vê riscos para a manutenção, em um prazo mais longo, desse cenário de relativa estabilização no ritmo de crescimento. 

Acredita-se que a economia chinesa, depois desse pouso suave, passará por uma etapa relativamente prolongada de também suave recuperação. Os dados recentes geram um quadro positivo no curto prazo, mas para períodos mais longos, a China passa por um processo estrutural bastante significativo.

Nesse processo, há a necessidade de se corrigir um claro excesso de oferta que foi criado nos intensos investimentos públicos na última década, uma condição extremamente acomodatícia, que gerou distorções no setor imobiliário, e a dinâmica de uma economia altamente dependente da demanda externa. Esses fatores implicarão um crescimento mais moderado para os próximos anos e deixará a economia mais exposta a choques do que no passado, disse Cunha. 

Com isso, ele acredita que a desaceleração vista no ano de 2012, que terminou com crescimento de 7,8% – menor taxa desde 1999 – é o início deste processo de correção em busca de um PIB (Produto Interno Bruto) mais condizente com a necessidade de balanceamento do crescimento que a economia está exigindo. “Essas reversões que estamos vendo de retomada na virada do ano podem ser entendidas como cíclicas. Está sendo pilotada pelo governo que entende a necessidade de ajuste da economia, mas tentará administrar para que seja feita de maneira mais suave possível”, avalia.

A economia chinesa foi beneficiada, no ano passado, por um impulso da demanda externa, que permitiu estabilizar o volume de exportações. Internamente, estímulos ao investimento, principalmente em infraestrutura – com o pacote de estímulos do governo no valor de US$ 150 bilhões -, também tiveram impacto positivo. São esses elementos, por sinal, que devem continuar operando para manter o ritmo de crescimento em 2013. 

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Diante desse cenário, muitos economistas esperam que, com a estabilização, a China passe a crescer na casa dos 8% ao ano, mas bem abaixo das taxas de dois dígitos registradas na década passada.

Entranto, ainda é uma expansão bem robusta quando comparado com outros países emergentes, como o Brasil, que, segundo projeções do Banco Mundial, deve crescer 4,2% em 2013. 

Recuperação é suave, mas efeitos positivos devem ser sentidos no Brasil
“A recuperação pode ser suave na China, mas o crescimento ainda é muito alto e abre um cenário favorável para setores dependentes do gigante asiático. Nós temos outros riscos externos também, como o teto da dívida dos Estados Unidos, o que pode gerar um estresse no mercado nestes primeiros meses do ano, mas pelo menos em termos de zona do euro os riscos de ruptura ou quebra estão melhores”, poderam a equipe de análise do BB Investimentos – Nataniel Cezimbra, Victor Penna e André Ferreira.

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Visão similar aponta Cunha: “o momento corrente voltou a ser favorável para as mineradoras. O principal termômetro dessa relação é vista no preço do minério de ferro, que subiu cerca de 80% nos últimos meses e voltou a se situar em patamar bastante elevado”.

Quem mais se beneficiaria deste cenário é a Vale (VALE3; VALE5). A grande locomotiva da mineradora continua sendo a China, cujas receitas com exportação corresponderam a 35% do total registrado pela empresa no terceiro trimestre do ano passado. Com a economia chinesa mostrando aceleração, mesmo que lenta, isso traz uma boa perspectiva para a mineradora, indicam os analistas do BB.

Mas a luz amarela deve ser acesa no 2° semestre
Contudo, Cunha alerta que a luz amerela do mercado voltará a acender no segundo semestre quanto ao novo real ritmo de crescimento equilibrado da segunda maior economia do mundo. Um cenário que não deve sustentar o preço do minério de ferro em patamares tão altos – e cair por volta de US$ 128 a tonelada (projeção do Banco Espírito Santo para 2013) -, o que deve corresponder a uma geração de caixa menor das mineradoras.

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Ou seja, esse cenário favorável para a Vale não deve se sustentar no longo prazo, pondera Cunha. “Entendemos que, no longo prazo, quando os dados chineses começarem a indicar um risco de crescimento abaixo do projetado pelo mercado, cerca de 8%, o atual preços do minério de ferro não será sustentado e isso atuará contra o valuation das mineradoras, em particular a Vale”, disse.