“China tem sua própria bomba de dívida, como os EUA em 2008”

Antes que a bolha estoure, o país precisa reestruturar o seu modelo de crescimento, o que significaria aceitar taxas de crescimento mais baixas na próxima década, acredita Ruchir Sharma

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SÃO PAULO – A China é a principal parceira econômica do Brasil e um dos países que mais cresceram no mundo. De acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), o país teve alta média de 10,46% por ano no PIB (Produto Interno Bruto) durante a última década, contra crescimento de 3,66% do Brasil. 

A chave para o sucesso seria um modelo de forte investimento baseado em dívidas – que possivelmente criou uma bolha no país, acredita Ruchir Sharma, líder da equipe de análise para mercado acionário de países emergentes do Morgan Stanley. “China tem sua própria bomba de dívida, como os Estados Unidos em 2008”, afirma o indiano em artigo no Wall Street Journal.

Antes que a bolha estoure, o país precisa reestruturar o seu modelo de crescimento, o que significaria aceitar taxas mais baixas na próxima década – de cerca de 6% a 7% ao ano. “A alternativa seria continuar sustentando os níveis de crescimento irrealistas atuais, aumentando o tamanho de uma poderosa bomba de dívida no país”, destaca. 

Situação é reconhecida até no governo
Ele lembra que até o antigo primeiro-ministro Wen Jiabao já havia alertado, seis anos atrás, que o modelo de crescimento chinês era instável, desbalançado, descoordenado e insustentável – e em vez de algo ser feito para correção, apenas houve o fortalecimento do sistema desde a crise de 2008. Há anos, o país faz fortes investimentos em estradas, fábricas e outras infraestruturas, tornando a China em uma das grandes potências industriais.

Os investimentos, em relação ao PIB do país, pularam de 43% para 48%, após o pacote de estímulos de 2008 do tamanho de US$ 500 bilhões. Desde então, o crédito existente na economia quadruplicou, atingindo US$ 2,75 trilhões, sendo que boa parte da quantia veio de um sistema paralelo aos bancos com autorização para empréstimo. Sharma destaca que boa parte do crédito vai para os governos regionais, que usam os recursos para continuar financiando projetos ruins de infraestrutura. 

Alertas ignorados?
De 2008, o total de dívida na China cresceu para 200% do PIB, um nível nunca antes visto em um país emergente. “Mas o consenso ainda não vê riscos ao sistema financeiro ou crescimento econômico na China, ignorando uma série de estudos lançados desde 2008 para entender a origem das crises financeiras”, afirma. 

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Sharma destaca que o principal não é o nível de dívida, e sim a taxa de crescimento desta dívida – sobretudo no setor privado. “Nas mais importantes medidas, a China agora está na zona de perigo. O primeiro alerta vem do BCI (Banco de Compensações Internacionais), que descobriu que se a dívida privada atingir mais de 6% do PIB do que a média da década anterior, a aceleração é um sinal antecipado de graves problemas financeiros”, diz

No momento, a dívida privada representa 12% a mais no PIB chinês do que a média da década anterior. “Esse número está acima dos níveis vistos antes no Japão em 1989, Coreia do Sul em 1997, Estados Unidos em 2007 e Espanha em 2008”, avisa, chamando a atenção para as últimas grandes crises ocorridas no mundo. 

O segundo alerta vem do FMI, que destaca que se o crédito privado cresce mais que a economia por três a cinco anos, isso representa um grave sinal de problema para o país. Na China, isso acontece desde 2008, onde a porcentagem de crédito privado cresceu 50 pontos percentuais e atingiu 180% – porcentuais similares ao vistos por EUA e Japão. 

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Gravidade financeira não se aplica à China?
Sharma acredita que os otimistas com a China acreditam que as leis da “gravidade financeira” não se aplicam à China. “Eles dizem que uma crise bancária acontece quando os credores internacionais começam a demandar seu dinheiro, mas que a China deve muito pouco aos estrangeiros”, afirma. 

Contudo, o economista Alan Taylor, da Universidade de Virginia, destaca que os números das 79 crises financeiras que ocorreram nos últimos 140 anos não condizem com essa tese – e que esse tipo de problema é tão frequente para os países que devem para si mesmos do que para os países que devem aos outros. 

Um motivo que pode salvar a China da recessão é a quantia de reservas estrangeiras que o governo possui – mais de US$ 3 trilhões, além da alta taxa de poupança domésticas do chinês. “Mas se algumas economias asiáticas evitaram crises bancárias por conta disso, houve, ao menos, uma grande desaceleração econômica”, alerta. 

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Japão é exemplo de que a crise chega para todos
O Japão é um exemplo, já que depois de dois avanços consideráveis do crédito, no início da década de 1970 e no final dos anos 80, usou seus recursos financeiros excedentes para salvar quem estava com problemas de dívida. Assim, o crescimento da economia despencou, de uma média de 8% na década de 1970 para 4% na década seguinte e 1% entre 1990 e 2000.  

Para o chefe de divisão do Morgan, mesmo que a China escape da crise financeira, ela não deve escapar de uma desaceleração da economia. Desde 2007, para cada dólar de crescimento na China, um dólar teve de ser emprestado. “Isso é o que se vê nos últimos estágios de uma bolha de crédito, conforme cada vez mais dívida vai para investimentos menos produtivos”, alerta.

Mais semelhanças com os EUA podem ser encontradas: o novo dinheiro está indo, basicamente, para o mercado imobiliário, sendo que um terço de todos os empréstimos agora vão para novos imóveis ou são segurados por antigos – como ocorria nos EUA em 2007.

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Um novo modelo seria necessário, na opinião do indiano. “Para a China encontrar um modelo mais sustentável, a maioria dos especialistas acredita que o país precisa balancear os investimentos por prover maior consumo”, destaca.

Mas a implantação desse novo modelo também passa por problemas. “A pegadinha é que o consumo está crescendo a 8% por ano, mais rápido que o milagre japonês e o máximo possível sem criar inflação. Mas mesmo com esse crescimento, a porcentagem do PIB de consumo diminuiu, pelo fato de que os investimentos cresceram ainda mais rápidos”, finaliza.