Saldo positivo

“China não vai tirar Brasil do buraco, mas o acordo é ótimo”, diz especialista

Esse seria um enorme auxílio para melhorias em infraestrutura, que ajudaria o país a saltar do tímido investimento de menos de 2,2% do PIB para o setor em direção à média dos emergentes, hoje em 5%

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SÃO PAULO – Na última terça-feira (19), a presidente da República, Dilma Rousseff, e o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, assinaram um plano de cooperação até 2021, com 35 acordos, que devem movimentar US$ 53 bilhões em áreas que abrangem planejamento estratégico, infraestrutura, transporte, agricultura, energia, mineração, ciência e tecnologia, comércio, entre outras. O anúncio marca um estreitamento ainda maior nas relações do Brasil com seu maior parceiro econômico. Mas algumas dúvidas sobre a eficácia do programa, seus ônus e bônus e os interesses por trás dos substanciosos investimentos asiáticos ainda pairam no ar.

Para o professor de economia do Insper e especialista em mercado chinês Roberto Dumas, trata-se de uma boa oportunidade para ambos os países. “A China não vai tirar o Brasil do buraco, mas o acordo é ótimo para ambos”, afirmou. “É o melhor que poderia acontecer para nós, mas não vai ser a salvação”. Do lado tupiniquim, a injeção de recursos é muito bem-vinda em um momento de crise econômica e falta de verba para grandes investimentos, sobretudo na área de infraestrutura – sem contar com a incapacidade de empresas envolvidas nas investigações da operação Lava Jato em executar todos os projetos necessários na área.

Segundo o especialista, esse é um enorme auxílio para a otimização de estradas e ferrovias, que ajudaria o país a saltar do tímido investimento de menos da marca de 2,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em direção à média dos emergentes, hoje em 5%. A aplicação de US$ 53 bilhões chineses não vai levar o Brasil ao patamar dos US$ 240 bilhões apontados por Dumas como patamar recomendado. Porém, pode representar um bom auxílio em momentos de dinheiro mais caro e dificuldades no plano doméstico. “O chinês quer vir com tudo pronto, porque desconhece ou não confia nos atuais padrões de infraestrutura brasileiros. Eles querem escoar a produção feita aqui com segurança até lá”, observou o professor.

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Entre os projetos previstos no acordo, estão investimentos que devem beneficiar uma série de empresas brasileiras, dentre elas os gigantes Vale (VALE3; VALE5) e Petrobras (PETR3; PETR4). No caso da primeira, há um interesse na oferta de minério de ferro “premium”, ou seja, com mais elevado grau de pureza e que gera menos impactos ao meio ambiente. Apesar da maior abundância da commodity no mercado internacional, os asiáticos veem diferenciais no minério brasileiro, tido como alternativa para o plano de maior alinhamento com padrões sustentáveis chineses.

A mineradora também fechou acordo para vender quatro navios gigantes (VLOCs), conhecidos como Valemax, para a China Merchants Energy Shipping (CMES), em uma expansão do acordo que prevê a cooperação estratégica de longo prazo entre as duas empresas no transporte marítimo de minério de ferro. Também foi informada a conclusão da venda de quatro navios VLOCs, com capacidade de 400 mil toneladas, para a China Ocean Shipping Company (Cosco), o maior armador e transportador de granéis sólidos da China e um dos maiores operadores de granéis sólidos do mundo.

Já no caso da petrolífera, o interesse está em bons ativos da companhia e na exploração do pré-sal, cujos campos hoje produzem cerca de 800 barris por dia, mais de um terço da produção da estatal. O Planalto ainda anunciou acordo de US$ 7 bilhões para a Petrobras, sendo US$ 2 bilhões com a Cexim para financiamento de projetos e US$ 5 bilhões obtidos pelo Banco de Desenvolvimento da China. O presidente da Petrobras, Aldemir Bendine também assinou acordo com o presidente do Conselho do Banco de Desenvolvimento da China (CDB), Hu Huaibang, que prevê financiamento de projetos da petrolífera no valor de US$ 5 bilhões. Companhias dos setores de energia, telecomunicações e financeiro também participaram de acordos.

Um processo de longo prazo
Em uma análise macro, a atual postura chinesa seria uma continuidade do movimento que começou cerca de cinco anos antes, quando as exportações para os Estados Unidos caíram em um reflexo da crise econômica internacional e o gigante asiático precisou prospectar novos mercados. “De 2010 para cá, são ondas de investimentos chineses justapostas”, explicou o professor do Insper. Neste quadro, os interesses da China em investir no Brasil caminham no sentido de encontrar novos mercados consumidores, quando no plano doméstico da economia da potência asiática o governo também passou a repassar subsídios à população, estimulando o consumo. “Com isso, eles foram fazer compras para aproveitar melhor as oportunidades”, observou.

Também figuram na lista o próprio soft power, em uma estratégia da China em exercer sua influência entre os emergentes e países latino-americanos. Ampliar sua atuação no Brasil, Rússia, Venezuela e Paquistão, por exemplo, é uma forma de começar a fazer frente ao poder de influência estadunidense, aliado também aos aspectos de internacionalização e geopolíticos, conforme explica Dumas.

Passada a euforia dos acordos, o especialista alerta para a importância de se negociar os detalhes das operações sem que os interesses do País sejam deixados em segundo plano. “O problema é nosso de montar um contrato de concessão favorável. Agora, é sentar e acertar os detalhes”, afirmou. Como em todo contrato de concessão, é necessário pensar em favorecer a mão de obra nacional, exigir padrões de qualidade e transferência de tecnologia, estabelecer prazos e punições, além de prever perda da concessão dentre outros destaques.

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Em tempo, Dumas não enxerga grandes méritos do governo no processo, mas vislumbra boas oportunidades de se estabelecer novos acordos internacionais. “O paraíso zodiacal de Lula parece ter brilhado para Dilma [mas não deverá gerar o mesmo boom, mas efeitos de longo prazo]. Os chineses vieram com tudo pronto e estão fazendo tudo”, ressaltou. Segundo ele, está na hora de o Brasil “deixar um pouco de lado a paquera do Mercosul e de ser quase que exclusivamente conhecido por produção de carne e acordos envolvendo a Embraer (EMBR3)”.