China e regulação pressionam, mas Vale deve continuar crescendo em 2012

Analistas acreditam em arrefecimento da economia chinesa, que deve determinar expansão da mineradora

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SÃO PAULO – Um período de alta procura pelo minério de ferro vem garantindo em 2011 bons resultados para a Vale (VALE3, VALE5), que já se tornou, pelo segundo ano consecutivo, a maior exportadora do Brasil, desbancando a Petrobras (PETR3, PETR4). Entre janeiro e novembro, a mineradora vendeu US$ 31,69 bilhões ao exterior, o que representa 13,55% do total no País.

Com isso, nos nove primeiros meses, a receita líquida da empresa alcançou R$ 77,82 bilhões, representando 33,3% de crescimento frente ao mesmo período de 2010. Com custos maiores e gastos com dívida em moeda externa, o lucro líquido chegou a R$ 29,46 bilhões, avançando 46,8% na mesma comparação. Esse resultado veio, principalmente, porque o preço do minério de ferro bateu recordes históricos, apesar de já estar desacelerando nos últimos três meses.

A previsão da própria Vale é de que esse valor fique ligeiramente estável. Se os últimos contratos foram fechados a um preço próximo de US$ 151,26, a perspectiva de vários analistas é de que em 2012 esse patamar seja mais ou menos mantidos. A projeção oficial do mercado é de US$ 140 ao fim do próximo ano, considerando-se o cenário-base.

E se houver recessão?
Porém, há a possibilidade de que as grandes economias acabem entrando em recessão, o que cortaria em muito a demanda pelo principal produto da brasileira. A crise da dívida na Zona do Euro está longe de ser resolvida – nem os acordos firmados durante a última cúpula dos líderes animou os mercados – e os Estados Unidos caminham em uma recuperação lenta da economia. Mesmo assim, o problema está na demanda dos emergentes.

É fato que os asiáticos estão entre os maiores clientes da Vale, e Victor Penna, analista do BB Investimentos, alerta para o possível arrefecimento da atividade na China, grande compradora do insumo. “Vai cair, só precisamos saber o quanto”, crava. O PMI (Purchasing Managers’ Index), tanto do HSBC como o oficial, já mostram essa contração. O grande problema é que, mesmo que o crescimento mínimo estimado para os chineses, de 7%, ainda seja expressivo, o movimento nos últimos meses foi de estocagem da commodity.

O mercado acredita que o país vem comprando em larga escala o ferro para elevar seus estoques. “Com preço alto ou depois que caiu, os estoque lá aumentaram muito”, lembra Penna. Como a tendência de leve queda permanece, as siderúrgicas devem continuar com essas negociações, mas caso seja necessário se proteger de um cenário externo mais deteriorado, essa salvaguarda seria suficiente por um tempo.

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Pensando já nessa perspectiva, a meta da empresa para o próximo ano é de uma produção estável, de 310 milhões de toneladas. Além disso, o montante de investimentos previstos para 2012 foi reduzido em 11% na comparação anual, para US$ 21,4 bilhões. O HSBC, por exemplo, já espera uma demanda com aceleração bem menor, entre 4% e 5%, para os próximos dois anos. Isso é grandemente influenciado pela produção siderúrgica chinesa, que, segundo o banco, pode até cair 3% entre 2011 e 2012.

Marco regulatório
Como maior produtora de minério de ferro do mundo, e operando nesse segmento dentro do Brasil, o novo marco regulatório para a mineração deve afetar duramente a Vale. Os impostos sobre a exploração devem ser aumentados, enquanto o tempo de concessão dos direitos pode ser revisto. O problema é que ainda não há uma posição oficial do Governo quanto a essa questão.

Alexander Hacking, do Citigroup, espera uma resolução já no primeiro semestre. Ele afirma que essa taxação mais elevada é exatamente o esperado pelo mercado, mas, mesmo assim, inclui as ações da mineradora como um dos principais investimentos do setor em toda a América Latina. Na mesma linha, o Barclays escolheu a companhia como top pick global para o próximo ano.

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Para piorar a situação, o DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) está processando a Vale por dívidas em royalties de sua extração. A produtora foi condenada a pagar R$ 742 milhões pelos débitos, mas uma liminar afastou, por enquanto, a possibilidade de cobrança da empresa.

Frota de navios
Outro impasse que pode trazer problemas à empresa é o alto investimento aportado para conseguir ter sua própria frota de navios. O objetivo era aproveitar um momento de desaceleração em que os cargueiros estivessem escassos para garantir as exportações do seu principal insumo. Os gastos chegaram a R$ 2 bilhões, e cerca de 19 navios estão sendo construídos ou estão em controle da companhia agora.

O ponto negativo é que, além de problemas com o transporte – uma das embarcações que fez parte das compras de outras construtoras rachou em sua primeira viagem -, alguns portos chineses não comportam os navios, ou não querem aceitar embarcações dessa magnitude. “Agora deve ser traçada uma estratégia de arrendamento, ou até venda”, afirma Penna, do BB.

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A própria Vale já admitiu que, caso haja compradoras, ela está aberta a conversas. O problema, segundo especialistas, é que, do jeito que o cenário está traçado, não há rentabilidade no negócio para a mineradora. Jonathan Brandt, do HSBC, espera por cargueiros menores, que teriam muito menos dificuldade em conseguir a liberação dos chineses.