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SÃO PAULO – A transformação da China em uma economia liderada pelo setor privado e integrada à economia global está entre os eventos mais importantes da última metade do século XX. O desempenho espetacular da economia chinesa, registrando uma taxa de expansão anual nas últimas décadas de aproximadamente 8% ao ano, elevou-a de uma condição agrária à posição de sexta maior potência econômica do mundo em apenas 40 anos.
Este fenômeno criou um novo motor para a economia mundial, antes dependente basicamente do humor das economias européia e norte-americana. Apenas durante o ciclo de desaquecimento da economia mundial entre 2001 e 2003, a China foi responsável por cerca de 24% de todo crescimento econômico mundial do período.
Além disto, a China já é atualmente o terceiro maior importador de países em desenvolvimento, novamente atrás apenas da União Européia e dos Estados Unidos. Seu mercado interno, em plena expansão, se tornou o destino número um das vendas de aço, além de ter destaque em quase todos mercados de matéria prima, incluindo os de minério de ferro e alumínio.
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Expansão das exportações
Um dos fatos mais notáveis do processo de crescimento econômico chinês está no acelerado incremento sofrido pelo comércio bilateral do país nas últimas décadas. Desde 1979, as exportações chinesas vêm crescendo em média cerca de 15% ao ano, mais do que o dobro da taxa mundial, de 7% ao ano, para igual período. Somente em 2003, o país exportou US$ 438 bilhões, tornado-se o quinto mais importante do planeta.
Apenas para comparação, a parcela do Brasil e da China correspondia aproximadamente a cerca de 1% do comércio internacional no início da década de 80, enquanto na atualidade, embora o Brasil ainda se mantenha em torno de 1%, a participação do gigante asiático cresceu para 6%.
A intensa majoração do comércio bilateral chinês reflete as reformas econômicas adotadas pelo país, associadas a uma abertura geral da economia, o que acabou resultando num grande onda de investimento externo no país. Com isto, a China integrou-se à complexa estrutura produtiva do Sudeste Asiático, sendo em muitos casos a etapa final do processo produtivo iniciado em outros países como da Coréia do Sul, Japão, Tailândia, entre outros.
China já é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil
Em 2003, as vendas externas brasileiras para a China somaram cerca de US$ 4,5 bilhões, um valor 6,7 vezes maior do que o registrado apenas quatro anos antes, em 1999. Contudo, estes valores ainda são tímidos em relação ao total de US$ 413 bilhões importados pelo país, colocando como sexto maior comprador do mundo. No mesmo período, as importações brasileiras provenientes do gigante asiático cresceram 2,5 vezes, alcançando US$ 2,15 bilhões.
De qualquer forma, o resultado foi uma pronunciada melhora no saldo comercial bilateral em favor do Brasil, uma vez que o país saiu de um déficit de US$ 189 milhões, em 1999, para um superávit de quase US$ 2,4 bilhões em 2003, aproximadamente cerca de 10% do total do saldo obtido pelo Brasil.
Brasil ainda exporta produtos de baixo valor agregado
De modo geral, no quadriênio compreendido entre os anos de 1999 e 2003, as exportações brasileiras para a China cresceram cerca de onze vezes mais rápido do que a média das vendas externas brasileiras, fazendo a participação chinesa na pauta de exportações subir de 1,4% para 6,2% do total, tornando-se o terceiro maior parceiro comercial brasileiro.
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Contudo, o Brasil ainda exporta majoritariamente produtos básicos, com aproximadamente 55% do total, seguido de manufaturados, com 24,1% e dos semimanufaturados, com os restantes 20,1%. Mais especificamente, apenas quatro produtos, soja, minério de ferro, produtos siderúrgicos e óleo de soja, responderam por 67,53% das exportações brasileiras destinadas à China.
Eletrônicos e carvão dominam importações brasileiras
Do lado das importações, a trajetória também tem sido impressionante, com as compras originárias da China crescendo cerca de 150% no quadriênio 1999-2003, especialmente lembrando-se que as importações totais do Brasil acumularam queda de 1,9% no mesmo período. Na pauta das importações, o predomínio é dos materiais eletro-eletrônicos, além de carvão mineral, gêneros que responderam por 43,82% das importações brasileiras originárias da China, respectivamente com 29,29% e 14,52% do total.
A principal razão da concentração da importação brasileira originária da China nos materiais eletro-eletrônicos decorre da estratégia das multinacionais que atuam nesse mercado. Essa estratégia é baseada na integração vertical, onde cada unidade da empresa faz parte de uma seqüência, quer desenvolvendo produtos de uma etapa da cadeia produtiva, quer simplesmente enviando produtos para uma unidade montadora.
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Tal procedimento teve origem na experiência das empresas japonesas no Sudeste Asiático, que, para reduzirem custos, foram atraídas pela mão-de-obra barata e altamente qualificada dessa região. Desta forma, grande parte das exportações da China para todo o mundo é constituída por produtos cuja apenas a etapa final foi realizada no gigante asiático, aproveitando-se dos baixos salários e da frágil rede de proteção ao trabalhador chinês.
China é parceira e concorrente do Brasil
A aproximação do Brasil com a maior economia em expansão contínua da atualidade é, sem dúvida alguma, um fator extremamente positivo para o país. Contudo, a despeito das inúmeras potencialidades desta aproximação, é inegável a existência de inúmeros pontos de possível atrito entre ambos países.
A primeira e, talvez, a mais importante de todas está no fato de que tanto a China como o Brasil são concorrentes no mercado de manufaturados, especialmente naqueles intensivos em mão de obra. Nestes setores, é inegável que o gigante chinês está em franca vantagem uma vez que, além da mão de obra mais barata, sem grande proteção por parte do Estado, a China ainda conta com os ganhos advindos de sua integração à estrutura econômica do Sudeste Asiático.
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Com isto, a economia chinesa conta com os efeitos benéficos da tecnologia e capital disponíveis em abundância em outros países da região, especialmente Coréia do Sul, Taiwan e Japão.
Alta tecnologia e de produtos básicos são promissores
Por outro lado, a dimensão do mercado consumidor chinês, refletindo na escala inimaginável de sua economia, coloca a China como um dos compradores com maior potencial de produtos primários e semimanufaturados do Brasil. Este é um fenômeno já visível na balança comercial brasileira, traduzindo inclusive no recente declarado interesse chinês de investir em siderurgia e infra-estrutura no país.
Além disto, cabe ao Brasil explorar também segmentos com maior nível de tecnologia, onde a China ainda não possui vantagens comparativas tão significativas. A permanência em setores tecnologicamente intermediários representará um grande desafio para os produtores brasileiros, dados os níveis de competitividade atingidos pelos países do Sudeste Asiático.