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SÃO PAULO – Em meio a um 2010 bastante conturbado para o dólar, com o governo intensificando sua atuação no mercado cambial, a capitalização da Petrobras trazendo um forte fluxo de divisas internacionais para o País e a taxa de câmbio renovando mínimas vistas pela última vez apenas em 2008, os analistas esperam ver esse mesmo cenário instável em 2011. Ou seja, a volatilidade deverá persistir no câmbio e o governo continuará tentando – em vão, ao que tudo indica – frear a apreciação do real com novas medidas.
Embora o patamar atual do dólar de R$ 1,695 – visto no fechamento da última terça-feira (14) – indique desvalorização de 2,65% no acumulado de 2010, não podemos esquecer que a moeda norte-americana teve em 2009 seu pior desempenho na história do real, tendo declinado 25,49%.
“Eu não vejo no curto prazo problemas que podem provocar uma forte desvalorização do real”, diz Reginaldo Galhardo, analista da Treviso Corretora de Câmbio. Para ele, a estagnação da economia norte-americana manterá o juro básico daquele país baixo por um longo tempo, o que, aliado ao ciclo de alta da Selic – que deve ser retomado no começo de 2011 -, promoverá um maior fluxo de divisas estrangeiras para o Brasil.
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“Em 2011 vai ser visto o mesmo marasmo nos EUA, o que vai manter o dólar baixo”, diz Galhardo, que prevê o dólar numa faixa próxima de R$ 1,75 no próximo ano – mesma projeção apontada no último relatório Focus. Contudo, ele não descarta uma taxa de câmbio mais alta, caso os Estados Unidos reportem uma exuberante recuperação ao longo de 2011, chegando em torno de R$ 2,00.
Sobre a possível retomada do ciclo de alta do juro brasileiro, o diretor de tesouraria do Banco Prosper, Jorge Knauer, espera que as decisões tomadas pelo Copom (Comitê de Política Monetária) nas primeiras quatro reuniões serão cruciais para definir a trajetória do dólar em 2011. O cenário mais provável para ele é que a Selic suba no máximo 1 ponto percentual até o 4º encontro do comitê, o que promoverá um ambiente mais tranquilo para o mercado, com a taxa de câmbio podendo chegar até R$ 1,80 no final de dezembro.
Contudo, Knauer não descarta a possibilidade de uma medida mais ríspida do Copom para coibir o forte avanço da inflação brasileira, promovendo uma alta de até 2 p.p. no juro básico. Caso isso ocorra, o diretor do Prosper espera um cenário mais turbulento para o dólar, com a cotação podendo bater a casa de R$ 1,60.
2010: medidas do governo, descrença dos analistas
Durante o ano de 2010, muitas medidas foram tomadas para conter a apreciação do real. Em outubro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, chegou a realizar duas elevações no IOF (Imposto Sobre Operações Financeiras) cobrado sobre o investimento estrangeiro no mercado de renda fixa do Brasil – a primeira de 2% para 4% e a segunda de 4% para 6%. Nessa segunda elevação, Mantega também incluiu os fundos multimercados e de ações, assim como aumentou a alíquota cobrada sobre a margem de garantia em todas as aplicações feitas no mercado futuro da BM&F Bovespa por estrangeiros.
Além da maior cobrança de IOF, os leilões de compra de dólares realizados diariamente pelo Banco Central também se intensificaram, chegando a ocorrer duas vezes em um único dia – até o última dia 3, o BaCen já havia adquirido US$ 39,893 bilhões no mercado cambial em 2010, ante R$ US$ 24,038 bilhões nos 12 meses de 2009. Ademais, no mês de setembro, o CMN (Conselho Monetário Nacional) autorizou o Fundo Soberano a aplicar seus recursos em moedas de fora.
Apesar de todas essas medidas objetivarem amenizar o “preço do sucesso” da economia brasileira – termo usado pelo chairman do Banco Central, Henrique Meirelles, para definir a recente apreciação do real -, a reação dos analistas para cada novo anúncio do governo era sempre a mesma: essas medidas até poderiam causar um impacto imediato nos mercados, mas não seriam capazes de reverter a trajetória natural do câmbio.
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| Maiores mínimas alcançadas (e superadas) ao longo de 2010 | |||
| Data | Queda | Cotação | Histórico |
| 13/09 | -0,23% | R$ 1,716 | 9ª queda seguida; mínima desde 16/11/09 |
| 14/09 | -0,47% | R$ 1,708 | 10ª queda seguida; mínima desde 9/11/09 |
| 29/09 | -0,29% | R$ 1,705 | Renovação da mínima desde 9/11/09 |
| 30/09 | -0,76% | R$ 1,692 | Mínima desde 3/9/08 |
| 01/10 | -0,65% | R$ 1,681 | Renovação da mínima desde 3/9/08 |
| 05/10 | -1,00% | R$ 1,675 | Mínima desde 2/9/08 |
| 08/10 | -1,13% | R$ 1,667 | Renovação da mínima desde 2/9/08 |
| 11/10 | -0,06% | R$ 1,666 | Renovação da mínima desde 2/9/08 |
| 13/10 | -0,66% | R$ 1,655 | Mínima desde 1/9/08 |
É importante também mencionar o impacto provocado pela capitalização da Petrobras no câmbio. Realizando a maior oferta de ações da história do mercado, a operação atraiu um forte volume de divisas estrangeiras, tendo em vista a significativa participação de investidores de fora do País. Dos R$ 120,3 bilhões levantados com a oferta, R$ 12,473 bilhões (ou 17,76%) vieram do exterior.
Mesmos problemas persistirão em 2011
Se a capitalização da Petrobras foi algo pontual de 2010 e o “sucesso” brasileiro não pode de fato ser considerado um grande problema para o País, o mesmo não poderemos dizer das questões envolvendo a diferença de taxas de juros entre Brasil e desenvolvidos e o programa de auxílio governamental dos EUA, o QE2 (Quantitative Easing 2), fatores que, na opinião dos analistas, ainda terão forte peso na formação do câmbio.
Sobre a taxa de juros, a inércia deverá prevalecer. Em 2010, europeus, norte-americanos e japoneses mantiveram o juro em níveis historicamente baixos, ao passo que a Selic subiu de 8,75% para 10,75% ao ano entre janeiro e dezembro. Enquanto as projeções indicam que lá fora essas taxas permanecerão nos patamares atuais por um longo tempo, por aqui espera-se uma taxa de 12,25% ao final de 2011, segundo as estimativas mais recentes do Focus.
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Essa diferença entre o juro básico das principais economias do mundo e do Brasil estimula operações como a de carry trade, onde o investidor estrangeiro pega dinheiro emprestado lá fora a juros próximos de 0% ao ano para aplicar em títulos brasileiros, onde a remuneração é mais atraente, auferindo dessa forma lucros na diferença entre as taxas.
Já sobre o QE2, Reginaldo Galhardo explica que a lenta recuperação da economia norte-americana tem forçado o governo a injetar novos aportes financeiros na economia, aumentando ainda mais a liquidez nos mercados. Esse maior volume vai acabar procurando se alocar nas economias cujas aplicações apresentam melhores retornos, como o Brasil. “Enquanto perdurar essa tentativa de recuperação nos EUA, vai haver liquidez nos mercados”, diz o analista da Treviso.
Fatores internos e commodities deverão limitar novas quedas
Apesar da expectativa de que fatores externos continuarão a pressionar o dólar, Jorge Knauer estima que alguns indicadores internos, como a balança comercial e o saldo em conta corrente, deverão mostrar no próximo ano uma piora nos resultados em relação a 2010.
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Além disso, o gerente da Prosper acredita que as cotações das commodities, sobretudo as metálicas, não deverão manter no próximo ano o mesmo ritmo de valorização visto em 2010, diminuindo a pressão que suas cotações nos mercados internacionais exercem sobre a taxa de câmbio. Esses fatores deverão contribuir para que o dólar busque o patamar de R$ 1,80 em 2011, “a não ser que tenha uma forte alta no juro nas primeiras quatro reuniões do Copom”.