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SÃO PAULO – As ações do setor de siderurgia enfrentam um momento delicado na Bovespa. Recentemente, revisões de recomendação para o setor por grandes casas de research acentuaram as quedas dos papéis de blue chips como Gerdau (GGBR4), Usiminas (USIM3, USIM5) e CSN (CSNA3), que já apresentavam desvalorização no ano, com exceção da última.
Em parte, o pessimismo pode ser explicado pelo aumento da competição no setor, que passa a ter que lidar com o aumento das importações de aço para o mercado interno. De acordo com dados do Instituto Aço Brasil, foram produzidas 2,89 milhões de toneladas de aço no País em agosto, representando um avanço de 1% em relação ao mês anterior.
No entanto, as vendas no mercado doméstico caíram 3%, enquanto as importações do produto aumentaram, atingindo o recorde histórico de market share, em 24%, no oitavo mês de 2010. Para combater esse aumento do nível de participação do aço importado no País, as siderúrgicas nacionais têm oferecido descontos em seus preços.
Mudança estrutural
Em função desse cenário, Rodrigo Barros, analista do Deutsche Bank, passou a trabalhar com valores estáveis para a commodity no terceiro trimestre, e posterior redução de 5% nos preços para os últimos três meses do ano, enquanto a expectativa anterior era de que os preços domésticos para o aço no Brasil aumentassem em 8% no período de agosto a outubro.
O principal problema é que esse aumento da competição, com necessidade de redução de preços, leva ao que o Goldman Sachs, em relatório assinado por Marcelo Aguiar e Pedro Grimaldi, classificou como uma mudança estrutural no setor siderúrgico brasileiro. Ou seja, é possível que as companhias tenham que alterar seu sistema de precificação, e o que o aumento das importações não tenha impacto apenas no curto prazo, mas seja um evento que modifique a estrutura de cobranças dessas companhias no futuro.
Tanto o Goldman Sachs quanto o Deutsche Bank acreditam que a lentidão das siderúrgias em agir para evitar o aumento de competição em seu mercado doméstico terá como consquência no longo prazo a redução dos prêmios nos preços internos para uma porcentagem entre 10% e 15%, enquanto esse número ficava anteriormente na faixa de 20% a 30%.
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Dinâmica oferta e demanda não deve melhorar
De acordo com o analista do Deutsche Bank, essa mudança estrutural ocorreu porque as siderúrgicas, no caso especifico das empresas de aços planos, aguardaram as importações chegarem a um pico para agir, quando competidores internacionais já consideravam seriamente expandir ou construir operações no Brasil.
O Goldman Sachs ainda cita outras justificativas para tal previsão, como a combinação entre expectativa de alta demanda pelo produto até, ao menos, 2016, alta disponibilidade de crédito no mercado local a taxas de juros mais baixas e excesso de oferta de aço nos mercados globais.
Em conjunto, essa combinação de fatores, aliada ainda ao aumento de preços de matérias-primas como o carvão, deverão manter margens e lucro em baixos níveis ao menos até o segundo trimestre de 2011, segundo Aguiar e Grimaldi, do Goldman Sachs. E como o banco não vê estreitamento da dinâmica entre oferta e demanda de aço no mundo, não há expectativa de recuperação de preços em termos globais nos próximos seis meses, completando assim o quadro pessimista para o setor, que passou a ter perspectiva de cautela no último relatório do banco, de 5 de outubro.
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Usiminas deve ser mais afetada
Vale notar que essa projeção afeta com menor ou maior intensidade as companhias do setor, embora os dois bancos de investimentos tenham reduzido estimativas de lucros para todas as empresas do segmento siderúrgico. A mais impactada pelas revisões foi a Usiminas, cujas ações ON e PNA acumulam queda de 2,09% e 13,18% no acumulado do ano, respectivamente, mas com desvalorização de cerca de 5% dos dois papéis só em outubro.
No caso do Goldman Sachs, a Usiminas passou a ter recomendação de venda, com preço-alvo de R$ 26 e R$ 23, respectivamente, mesmo após a performance negativa das ações da companhia. Para o Deutsche Bank, que recomenda manutenção do ativo, a empresa deve ser a mais afetada pelos descontos nos preços, já que a companhia continua dependente de vendas de aço e a indústria naval está levando mais tempo para se recuperar do que o antecipado.
Diversificação sustenta CSN como top pick
É justamente pela diversificação de negócios que o preço-alvo, de R$ 33 em 12 meses, da CSN foi mantido por Barros, ainda que a previsão para o lucro por ação em 2011 tenha passado de R$ 4,19 para R$ 3,47. A recomendação ainda é de compra já que a receita com minério de ferro é parte importante na redução da volatilidade dos ganhos em função do preço do aço.
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Apesar da redução nas projeções para o aço no mercado interno, o analista elevou as estimativas para os preços do minério de ferro. ” A CSN tem sido capaz de implementar o novo sistema de preços em 80% de suas vendas, de acordo com as nossas estimativas”, afirma Barros. “Portanto, além da incorporação da Namisa e Casa de Pedra, nossa opinião é que uma alternativa a isso seria uma associação de Casa de Pedra com as siderúrgicas interessadas em investir no Brasil”.
Gerdau: antecipação de movimento deve prejudicar resultado
No caso da Gerdau, as ações continuam a receber recomendação de venda pelo Goldman Sachs, já que a expectativa é que as ações mantenham performance abaixo da média do mercado em função da ausência de catalisadores para possíveis valorizações e perspectiva fraca para a economia dos Estados Unidos em 2011. O preço-alvo dos papéis passou para R$ 24, frente projeção anterior de R$ 28.
Com exposição ao segmento de aços longos, a administração da Gerdau antecipou o problema do aumento das importações e deu descontos aos clientes na tentativa de evitar problemas semelhantes ao enfrentado por produtoras de aços planos, o que deve ser considerado uma atitude positiva da administração da companhia, segundo o Deutsche Bank, apesar do momentum negativo para o lucro da empresa.
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No entanto, essa antecipação deve prejudicar os resultados do terceiro trimestre. Segundo os analistas Marcos Assumpção e Alexandre Miguel, da Itaú Corretora, o desempenho da siderúrgica entre julho e setembro deste ano deve decepcionar o mercado, e pouca melhora é esperada para a performance contábil do quarto trimestre. Dessa forma, a equipe passa a prever desempenho em linha com a média do mercado para os papéis da siderúrgica.