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SÃO PAULO – O comportamento do dólar no mercado de câmbio brasileiro tem apresentado forte volatilidade nos últimos pregões e atento às novas medidas na Argentina. Os temores relacionados à reabertura das negociações com o câmbio duplo no país vizinho e a reviravolta das tendências do começo do ano levaram a moeda norte-americana a acumular uma alta de 2,55% frente ao real neste início de ano.
A principal preocupação da alta do dólar é justamente o impacto sobre a economia de uma moeda desvalorizada como é o caso do real. Depois de acumular uma valorização frente ao real de 18,02% no ano passado, o dólar volta a acumular alta em 2002. A exemplo de 2001, uma forte desvalorização cambial acumulada no ano prejudicou os resultados das empresas, gerando o aumento de preços e elevação da dívida pública do país. Por outro lado, barateia os produtos brasileiros que ganham maior competitividade nos mercados externos.
Crise política na Argentina tem sido o foco de direcionamento
A crise política na Argentina motiva uma pressão maior sobre o câmbio no Brasil, com a população do país indo às ruas exigir a renúncia do presidente, Fernando de la Rúa, e do ministro da economia, Domingo Cavallo, em meados de dezembro do ano passado. Com a renúncia dos dois, que insistiam em manter um modelo econômico insustentável, o país passou a procurar uma nova saída para a grave crise. O atual presidente, Eduardo Duhalde, encontra sérias dificuldades para encontrar soluções e já sofre ameaças.
A Argentina decretou a moratória de sua dívida de US$ 141 bilhões e iniciou o processo de reconstrução de uma política econômica viável. Enquanto o mercado esperava, desde o segundo semestre de 2001, por uma solução rápida, o que acabou não ocorrendo por insistência dos governantes. O governo argentino terá pela frente o desafio de apresentar soluções plausíveis para a crise e um modelo econômico viável, de forma a obter o apoio de instituições internacionais, de forma a atrair novamente o capital externo e retomar o crescimento de uma economia estagnada há quatro anos.
Câmbio duplo deve ser transitório
O modelo de câmbio duplo adotado pelo governo é transitório e severamente criticado pelo mercado financeiro. Com o câmbio fixo na relação de 1,40 peso por um dólar, o governo delimitou a conversão para operações de comércio exterior. A outra cotação é flutuante e está sendo negociada no mercado paralelo com ágio de até 35% sobre o câmbio fixo. Contudo, a falta de pesos na economia argentina segurou uma disparada ainda maior do dólar no mercado paralelo.
Sentimento do mercado mudou
No final do ano passado esperava-se por uma forte queda nos índices de inflação, que poderia até iniciar 2002 com retração dos preços, principalmente após o anúncio do governo de que o preço da gasolina poderia cair cerca de 20%. A queda dos índices abriria espaço para que o Banco Central pudesse iniciar uma tendência de queda das taxas de juros no país, atualmente em 19% ao ano. Entretanto, a primeira prévia da inflação medida pelo IGP-M referente a janeiro registrou uma alta de 0,47% nos preços e inibiu as apostas de corte da Selic já na primeira reunião do Comitê de política Monetária (Copom) marcada para 22 e 23 de janeiro.
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O comportamento da balança comercial também deve influenciar o dólar. Depois de terminar o ano passado registrando um superávit de US$ 2,643 bilhões, o mercado projeta para 2002 um saldo comercial positivo de US$ 5 bilhões. Dependendo do volume de dólares que ingressar no país, a balança comercial pode exercer pressão de baixa sobre o dólar pela maior entrada de moeda estrangeira e é apontada como ponto chave para a redução do déficit em conta corrente do governo. Nas primeiras duas semanas do ano o superávit acumulado é de US$ 275 milhões, mas é questionável, já que cerca de US$ 326 milhões que foram contabilizados como exportações se referem à devolução de quatro aviões feita pela Varig no período, o que indica que se isso não tivesse acontecido a balança comercial teria apresentado déficit.
Desta forma, o comportamento do dólar daqui para frente deverá refletir a combinação dos acontecimentos externos, como o desenrolar da crise da Argentina e o grau de contágio que poderá ter sobre o Brasil e os outros mercados emergentes. Internamente, o fluxo de captação externa e a maior oferta de dólares no mercado de câmbio tem contribuído para conter uma alta maior da moeda americana, o que pode continuar ocorrendo ao longo dos próximos meses.