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Por que o Banco Central de Campos Neto deve continuar com as intervenções no câmbio

O artigo abaixo foi escrito por Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações. Hoje, ele é presidente do conselho da fabricante chinesa de caminhões Foton no Brasil

Dólar
(Shutterstock)

"O economista Roberto Campos Neto, indicado para a presidência do Banco Central, foi aprovado nesta terça-feira pelo  Senado. Desafios não faltam ao próximo presidente do BC. Um tema que prende a atenção de analistas e especuladores de plantão é se ele vai manter a mesma política de intervenções no câmbio que foi conduzida por Ilan Goldfajn, seu antecessor.

A maioria dos diretores chega ao Banco Central defendendo que o mercado de câmbio funcione livremente, sem intervenções. Ao menos na teoria, costumam seguir a linha de Gustavo Franco, ex-presidente do BC, que, nos primeiros anos do Plano Real, dizia que dólar e bananas tinham a mesma formação de preço. Com uma comparação simplória, ele procurava enfatizar que a lei da oferta e da demanda era suficiente para o mercado de câmbio, assim como era suficiente para o mercado de bananas.

Apesar disso, muitas vezes na nossa história, a necessidade de defender o real contra a volatilidade especulativa acabou se impondo. Durante a gestão do próprio Gustavo Franco, em 1998, o BC vendeu mais de US$ 40 bilhões em contratos de câmbio futuro na BM&F (que hoje faz parte da B3). A operação foi uma tentativa desesperada de manter a paridade entre o dólar e o real em meio à crise russa e às vésperas da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Acabou com a flutuação do real e um período de grande instabilidade. Pouco tempo depois, acertadas as posições entre comprados e vendidos, voltou uma flutuação tranquila.

Em alguns momentos no passado, porém, tínhamos evidentes fragilidades externas que afetavam as cotações do câmbio. Hoje, a situação é bem diferente. Nossas contas com o exterior estão equilibradas, com um déficit em conta corrente inferior a 1% do PIB, uma entrada de capital de investimentos (FDIs) expressiva e um volume confortável de reservas internacionais para fazer frente a períodos de instabilidade.

Por que, então, o real continua sujeito a movimentos especulativos? Porque o mercado futuro de câmbio da B3 é o mais líquido, organizado e seguro do mundo emergente. Sendo assim, é o mercado realmente usado pelos investidores que buscam fazer hedge (proteção) ou especular com moedas de países emergentes. Quando alguém na Turquia quer se proteger contra a valorização do dólar, é na B3 que vai fazer uma posição comprada de dólares.

Ou seja, a relação entre real e dólar é apenas uma referência para quem opera com essas moedas. Em certos momentos, como agora, sua volatilidade tem muito pouco a ver com o ciclo da economia brasileira. Ainda assim, atrapalha a política monetária porque amplifica expectativas equivocadas—o que acaba motivando a atuação do BC.

Várias gerações de profissionais que passaram pela mesa de câmbio do Banco Central operaram volumes substanciais de swap cambial, estabilizando com sucesso a formação da taxa de câmbio brasileira. Mesmo com toda a bagagem liberal, Campos Neto deve seguir o mesmo caminho, pois, no momento em que as expectativas com a reforma da previdência são positivas, não é hora de jogar fora essa experiência exitosa.”

Este artigo foi escrito por Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações. Hoje, ele é presidente do conselho da fabricante chinesa de caminhões Foton no Brasil

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