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Não é só a eleição que faz o dólar disparar: a época do dinheiro fácil acabou

O mundo feliz em que vivemos nos últimos anos, onde toda e qualquer classe de ativos performava bem, está ficando para trás

José Carlos Carvalho, economista-chefe da Paineiras Investimentos
(InfoMoneyTV)

José Carlos Carvalho, economista-chefe da Paineiras Investimentos

Reza a lenda que na entrada do comitê de campanha de Bill Clinton, o marqueteiro James Carville mandou escrever bem grande “It’s the economy, stupid!” para que Clinton não esquecesse de focar no que era essencial nos debates com George H. Bush.

É possível que estejamos vivendo um fenômeno semelhante no Brasil agora. Há muitas tentações para desviar do essencial: pesquisas eleitorais, analistas políticos, programas de governo, atentados, prisões... Mas a verdade é que a visibilidade do processo eleitoral está extremamente baixa no momento. Enquanto esse cenário não clareia, quem vai mandando nos mercados é o refluxo da política monetária global.

O Fed iniciou o processo de alta de juros em dezembro de 2015, e hoje a taxa de juros básica já beira os 2%, além da redução da quantidade de dinheiro circulando na economia (QE). Essa tendência de reverter o estímulo monetário deve ser reforçado pelo Banco Central Europeu em 2019.

O mundo feliz em que vivemos nos últimos anos, onde toda e qualquer classe de ativos performava bem, está ficando para trás. Quando a maré sobe, todos os barcos sobem... Mas agora a maré está começando a baixar. Essa realidade tem que permear também os cenários eleitorais que contemplamos no Brasil. Uma política econômica na direção errada terá seu impacto negativo acelerado pela retração da liquidez global. Mesmo candidatos que adotem um receituário econômico adequado, temos que levar em consideração que e os efeitos positivos terão que descontar o vento contrário da liquidez global refluindo.

Existe perspectiva de mudança de direção desse vento contra? Infelizmente a chance parece pequena no momento. A economia americana segue no pleno emprego, com uma taxa de desemprego abaixo de 4%. Adicionalmente, o pacote fiscal adotado por Trump deve fazer com que a economia americana cresça além do PIB potencial em 2018 e 2019, agravando ainda mais o problema de superaquecimento. No passado, esse excesso de demanda poderia ser absorvido por um aumento do déficit comercial e da conta corrente.

Mas, é desnecessário dizer que se a política comercial de Trump não fechou, pelo menos emperrou seriamente a válvula de escape das importações. Por isso o Fed deve continuar o processo de alta de juros americana para evitar que a inflação suba mais a frente. E como mencionamos anteriormente, o Banco Central Europeu deve seguir pelo mesmo caminho em 2019, agravando a restrição de liquidez e a alimentando uma provável queda no preço de ativos mais arriscados (como os ativos de países emergentes, por exemplo).

Os investidores sempre têm um viés para acreditar que o que ocorre no seu quintal é mais importante. Os mexicanos, por exemplo, acham que o Peso mexicano desvalorizou por que elegeram AMLO como presidente e o Nafta está sendo renegociado. Os argentinos, vêm na imperícia do seu banco central as causas da desvalorização do Peso. Os jornais da África do Sul apontam para a lei de desapropriação das terras de fazendeiros brancos como a causa da desvalorização do Rand. Na Turquia, Erdogan é o culpado da desvalorização da Lira.

No Brasil é a eleição de um candidato de esquerda que faz o Real desvalorizar... Enfim, poderia citar outros exemplos, mas talvez o padrão já tenha ficado claro. A maré está baixando, e (todos) os barquinhos vão descendo. Com muita liquidez, os mercados veem o copo meio cheio. Com menos liquidez, o mesmo copo começa a parecer meio vazio. O específico de cada país é interessante e relevante, mas no momento há uma força importante que está afetando os mercados, principalmente emergentes, que é a redução do estímulo monetário dos países desenvolvidos.

O que o Brasil pode fazer para enfrentar essa onda negativa? Obviamente deixar a casa em ordem, ou seja, manter o déficit em conta corrente baixo e obviamente fazer um ajuste fiscal rápido a fim de eliminar a necessidade de financiamentos adicionais significativos. A época do dinheiro fácil e barato acabou!

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