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Não é culpa da Turquia: a crise "tripla" do Brasil que levou o dólar para os R$ 4,00

Segundo o diretor da NGO, Sidnei Nehme, o "preço de equilíbrio" da moeda norte-americana seria em torno de R$ 3,80

Dólar
(Shutterstock)

SÃO PAULO - Após esboçar uma melhora de cenário no fim de julho, caindo para a casa de R$ 3,70, o dólar voltou a disparar e se aproxima cada vez mais do patamar dos R$ 4,00. Muito se apontou para o cenário externo, com a crise cambial na Turquia e a guerra comercial entre Estados Unidos e China, mas esta desvalorização do real vai muito além disso, sendo impacto também do cenário doméstico.

Esta é a avaliação do diretor executivo da NGO, Sidnei Moura Nehme, que em relatório publicado na segunda-feira (20) diz que o problema do Brasil é o "tripé econômico-político-jurídico". "O real não foi desvalorizado 16% por causa da Turquia ou de outras razões externas, o foi porque a taxa de R$ 3,00 a R$ 3,30 era absolutamente incompatível com o 'status quo' da economia brasileira e a expressividade da dívida fiscal do país", afirma.

Para Nehme, o "preço de equilíbrio" da moeda norte-americana está em torno de R$ 3,80, sendo que o limite neste momento é um cenário em que a divisa não supere os R$ 4,00, "salvo se de alguma forma o ex-presidente Lula viabilizar sua candidatura", avalia.

Em seu relatório, o economista lembra que a greve dos caminhoneiros "provocou um choque de realidade", deixando evidente todas as fragilidades internas do país e que não estavam precificadas no dólar. Este cenário levou a uma corrida por proteção cambial, que impactou na taxa futura do dólar e arrastou a do mercado a vista, colocando-as no ponto de "equilíbrio fundamentado", o que só foi possível por conta da atuação do Banco Central com os swaps cambiais.

"O Brasil não tem risco de crise cambial e tem mecanismos para atender demandas seja por proteção ou por demanda efetiva de moeda. Este é um contraditório na atualidade, pois o país vai mal a quase tudo, mas tem uma posição de conforto na área cambial", explica Nehme reforçando que as mudanças recentes de preço, quase sempre atribuídas ao exterior, decorrem, na verdade, "do estresse efetivamente interno consequente das próprias causas da situação do país".

Diante das complicações econômicas, o economista destaca ainda o aumento da insegurança jurídica, que tem se atrelado à disputa eleitoral, com discussões sobre se Lula poderá ser candidato ou não. Isso em meio a um atual governo já sem força para realizar algum grande feito até o fim do mandato.

Por conta disso, o especialista reforça a necessidade de se tomar cuidado com as "fake news", e destaca a importância do relatório Focus - divulgado pelo BC toda segunda-feira -, que segundo ele "torna-se um informativo de relativa utilidade para este ano, com ressalvas, e absolutamente inócuo para os demais visto que o grau de incerteza e dúvidas em perspectiva não permite a ousadia de estimativas críveis".

No mais recente relatório, o mercado projeta o câmbio em R$ 3,70 para o fim deste ano, a mesma visão de quase dois meses atrás, ou seja, muito antes de qualquer estresse por conta da crise cambial turca. Desde o dia 8 de agosto, quando era cotado na casa de R$ 3,76, o dólar já disparou mais de 5%, chegando aos atuais R$ 3,96.

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