Câmbio: recente alta do dólar não altera tendência predominante de queda

Apesar da forte valorização no mês, movimento foi ocasional e moeda deve voltar a refletir alto diferencial de juro

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SÃO PAULO – O dólar comercial fechou a terça-feira (12) em sua sétima sessão consecutiva de alta, a R$ 1,624, demonstrando forte recuperação de 3,9% no período, um movimento bastante distinto da sua predominante tendência de queda que já soma mais de cinco anos.

A moeda norte-americana, que vinha demonstrando especial fraqueza desde a eclosão da crise subprime – há pouco mais de um ano – frente a divisas de referência como euro e o iene, também começou a apresentar fortalecimento global nos últimos dias, o que levou muitos analistas a apregoarem o fim dos seus dias de ‘sofrimento’.

Entretanto, há quem pense que este seja apenas um movimento de ajuste ou um reflexo pontual das especulações do mercado. “Eu não acredito nessa tendência de alta”, afirma Reginaldo Galhardo, gerente de operações de Câmbio da corretora Treviso.

Mercado futuro

“Na realidade, o que provocou esse movimento abrupto, de sair de R$ 1,56 para R$ 1,62, foi efetivamente o movimento no mercado futuro de derivativos”, avalia Sidnei Nehme, diretor executivo da corretora de câmbio NGO.

“Em 29 de julho, os estrangeiros estavam com posições vendidas de cerca de US$ 8,5 bilhões e até o dia 7 de agosto praticamente anularam estas posições e passaram a estar comprados em US$ 2 bilhões, uma mudança muito forte”, ilustra Nehme. O mercado físico entendeu que as apostas na queda haviam se dissipado, assim, o dólar comercial encontrou neste argumento um dos apoios para subir, explica.

Saídas de recursos

Ao mesmo tempo, a intensificação da aversão ao risco no mercado externo levou investidores a deixarem a Bolsa brasileira e venderem ativos aqui, tanto para cobrir eventuais perdas quanto para buscar mercados considerados mais seguros, como o de títulos do governo norte-americano, explica Galhardo.

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“Estamos tendo uma saída da Bolsa e estes recursos não estão sendo direcionados à renda fixa, mas, sim, deixando o País”, observa Nehme. Outra porta de escape do capital são as remessas de lucros e dividendos de empresas às suas matrizes no exterior, motivadas pelas turbulências nos países desenvolvidos, o que também pesa sobre a oferta de dólares no cenário doméstico.

Valorização mundial

A moeda norte-americana tomou fôlego após a forte correção dos preços de commodities e ganhou ainda mais força para subir depois que os Bancos Centrais Europeu, da Inglaterra e do Japão deram sinais de que não têm intenções de elevar suas taxas de juro.

“Mas o movimento do câmbio interno agora é ocasional e não se relaciona com qualquer tendência do dólar lá fora, pois a formação do preço é influenciada pela condição atípica do nosso mercado, que tem uma taxa de juro muito alta”, explica Nehme que alerta “às vezes vemos movimentos na mesma direção, mas que têm causas diferentes”.

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Perspectivas

“No meu entender, não há ambiente para a alta do dólar, porque com taxa de juro elevada no País, os agentes procuram estar posicionados em reais e não estocados em dólar”, defende Nehme da NGO, que prevê: “o dólar tende a ficar em R$ 1,60”.

O economista ainda afirma que os ingressos de capital que buscam ganhos com operações de arbitragem, que se apóiam na diferença do juro interno e do externo, devem ainda dar sinal de vida. A única força que poderia levar a divisa norte-americana a um patamar mais elevado, analisa Nehme, seria um aprofundamento bastante expressivo das contas externas do País. “Estas preocupações existem apenas em perspectivas, mas ainda não afetam o preço da moeda”, conclui.

Galhardo, da Treviso, ainda acredita na entrada de investimentos tanto em renda fixa quanto em Bolsa, fator que, ao lado dos fortes fundamentos da economia brasileira, abre espaço para que “o dólar busque o ponto de resistência em R$1,50”.