Câmbio deve seguir pressionando ações do setor de papel e celulose em 2011

Com perspectiva de manutenção da forte demanda chinesa e sem aumento na oferta, cenário positivo é ameaçado pelo dólar

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SÃO PAULO – Recuperação. A palavra que marcou o cenário para o setor de papel e celulose ao longo deste ano também confirmou as perspectivas do mercado de que o fraco desempenho de 2009, especialmente dos preços da commodity, seria superado em 2010. Para o próximo ano, apesar dos drivers positivos seguirem influenciando favoravelmente o segmento, a ordem será o monitoramento do câmbio.

Com a economia doméstica crescendo a um ritmo chinês, aliada ao fator juros altos, a entrada de dólares no País foi forte neste ano. Se isso por um lado é positivo, para as produtoras nacionais de papel e celulose não é. Isso porque as grandes companhias do segmento possuem uma parcela significativa de suas receitas apoiadas nas exportações e, com o dólar mais fraco, os retornos dessas empresas são prejudicados.

Apesar disso, em 2010 o setor foi beneficiado por eventos que contribuiram positivamente na recuperação dos preços da celulose. É o caso do terremoto no Chile – um dos principais produtores de celulose da América Latina -, da demanda chinesa aquecida, do baixo nível global dos estoques e do aumento das compras da commodity nos mercados norte-americano e europeu.

Tudo isso junto colaborou para que o preço da celulose de fibra curta, por exemplo, que é o tipo de matéria-prima produzida pelas companhias brasileiras, passasse de R$ 700,00 por tonelada na primeira semana de 2010 para R$ 852,08 na última semana no front internacional, segundo dados da consultoria finlandesa Foex – utilizados como referência no setor.

Demanda por papel segue aquecida em 2011
O mercado de papel deverá seguir aquecido no próximo ano, segundo Rodrigo Fernandes e Hering Shen, da Banco Fator Corretora. De acordo com eles, a China será um driver importante para este movimento. “Esperamos manutenção da demanda mundial em 2011, em função da retomada gradual dos países desenvolvidos e da manutenção do ritmo de produção na China, que deverá manter o volume de compra de celulose de mercado, pois as novas e modernas máquinas de papel necessitam de produto de melhor qualidade”, disseram.

Por aqui, as perspectivas para o mercado brasileiro também seguem otimistas, sendo que o forte crescimento econômico do País continuará dando base ao maior consumo de papel. De acordo com as últimas estatísticas do setor, nos oito primeiros meses de 2010 o consumo aparente de papel no mercado doméstico cresceu 10% na comparação anual, em função da maior demanda por papel cartão, de embalagem e de imprensa.

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Apesar disso, no acumulado do ano, as importações de papel tiveram um aumento de 48% na comparação anual para 983 mil toneladas, principalmente por conta da apreciação do real, que tornou o papel importado mais competitivo. “A contínua valorização do real limita os reajustes de preços e aumenta a competição dos produtos importados”, explicam os analistas da Fator.

O maior consumo de papel no cenário doméstico se apoiou em eventos como a Copa do Mundo, as eleições e a preparação da indústria papeleira para o período de volta às aulas e festas de final de ano. “Esse desempenho positivo resultou em recuperação dos preços, tanto no mercado interno quanto no mercado externo, o que permitiu o repasse dos aumentos de preço da celulose”.

Oferta e preços em linha com 2010
Também contribuem para a perspectiva positiva ao setor de papel e celulose as projeções de que não haverá incremento significativo na oferta da commodity ao longo dos próximos anos. Vale lembrar que, após a crise financeira de 2008, muitas produtoras de celulose internacionais desativaram boa parte de suas fábricas para adequar a produção da commodity com a demanda. Apesar da retomada de parte dessa produção ociosa em 2010, ainda há linhas de produção paralisadas.

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Mas, segundo Fernandes e Shen, o religamento destas máquinas poderá ser limitado ao longo de 2011 por conta da desvalorização da moeda norte-americana, beneficiando os players brasileiros neste mercado, visto que isso reduz a competitividade de produtores importantes de celulose, como a Europa e o Canadá. “Os aumentos de capacidade mais significativos ocorrerão principalmente no Brasil a partir de 2013”, disseram.

As últimas estimativas da PPPC (Pulp and Paper Products Council) comprovam que o aumento da oferta no próximo ano não deverá ser significativo. De acordo com a entidade, haverá a entrada em torno de 2,1 milhões de toneladas de celulose na oferta global da commodity até 2012. Contudo, o aumento na demana pelo produto será de cerca de 3,5 milhões de toneladas, principalmente nos mercados europeu e asiático.

Em relação aos preços da celulose, para 2011 o cenário deverá continuar o mesmo: estacionados no atual patamar, considerado elevado pelo mercado. O forte crescimento dos preços em 2010 é explicado pela baixa nos estoques deteriorados pela crise em 2009, contudo, no próximo ano, este não deverá ser mais um catalisador para o movimento das cotações. O Banco Fator Corretora estima que o crescimento do mercado de papel passe a ser mais determinante em possíveis elevações nos preços ao longo de 2011.

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Neste sentido, a corretora acredita que o preço médio da celulose cairá de US$ 850,00 por tonelada em 2010 para US$ 815,00 por tonelada ao final do próximo ano. Além disso, segundo a Fator, a tendência é de que este patamar chegue aos US$ 785,00 por tonelada em 2012.

Já o Citigroup acredita que os preços da celulose deverão ser pressionados no curto prazo, o que limita o potencial de valorização do setor em 2011. Segundo o analista Juan Tavarez, os crescentes estoques dos produtores de celulose e o aumento (mesmo que modesto no cenário global) da oferta de celulose deverão trazer certa pressão nos preços ao longo dos próximos meses.

“No curto prazo, esperamos que os preços da celulose tenham uma correção de US$ 120,00 por tonelada (-14%) do atual patamar de US$ 850,00 por tonelada. Contudo, a pressão deverá ter um prazo de validade curto uma vez que a demanda está crescendo, limitando as novas capacidades no setor”, disse Tavarez, que acredita em um novo rebalanceamento ao setor na segunda metade do próximo ano.

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Variação cambial: um risco para ficar de olho!
Enquanto a oferta limitada, a demanda chinesa aquecida e o mercado de papel prosperando montam um cenário favorável às produtoras de celulose em 2011, o principal vetor negativo para as projeções dos analistas permanece a cotação do dólar. Com a moeda norte-americana em baixa, além da rentabilidade das produtoras de celulose ser menor, a valorização do real dificulta a concorrência no setor, especialmente na questão da exportação.

“Esta situação tende a piorar e é um dos pontos que devem ser acompanhados com atenção pelo investidor”, disseram Fernandes e Shen. Cabe ressaltar queo governo brasileiro segue tomando esforços na tentativa de evitar uma valorização ainda maior do dólar frente à moeda do País. Além das compras diárias de dólar, assim como a taxação de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) em investimentos externos, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, sinalizou no início do mês que poderá adotar medidas no mercado de câmbio para evitar que o dólar siga em ascendência.

Durante teleconferência com repórteres, o ministro da Fazenda disse que o Brasil está atento sobre as oscilações da moeda e que pretende intervir mais uma vez contra a apreciação do real caso ache que seja necessário. “Estamos prontos para adotar medidas adicionais no caso de uma nova apreciação do real”.


Recomendações
Banco Fator Corretora 
Empresa Recomendação Preço-alvo*
Fibria ON Venda R$ 30,00
Klabin PN Manutenção R$ 6,00
Suzano PNA Manutenção R$ 21,50

Itaú BBA

Fibria ON Market Perform2 R$ 37,00
Klabin PN Outperform1 R$ 7,50
Suzano PNA Market Perform R$ 21,00
Citigroup
Fibria (ADR) Compra US$ 20,50
Klabin PN Manter R$ 6,20
Suzano PNA Compra R$ 20,00
Link Investimentos
Fibria ON Market Perform R$ 33,00
 Klabin PN Outperform R$ 7,00
Suzano PNA Outperform R$ 24,00
* Para o final de 2011
1 Desempenho acima da média do mercado
2 Desemprenho em linha com a média do mercado

Por mais um ano, Suzano é a top pick no setor
Para 2011, novamente a Suzano (SUZB5) é apontada como top pick no setor de papel e celulose pela maioria dos bancos e corretoras. O analista do Citi ressaltou que a companhia é o nome preferido pelo banco dentro do segmento, uma vez que o potencial para o fluxo de caixa das operações existentes da empresa ainda deve ser incorporado no valuation atual. 

O principal vetor para as boas perspectivas à companhia segue sendo as fortes estimativas de investimentos, que devem contribuir para aumentar a produção de celulose. A Suzano planeja aumentar a capacidade de produção para 5,5 milhões de toneladas até 2014.

Recentemente, o conselho de administração da companhia aprovou a contratação de financiamento no valor aproximado de R$ 2,7 bilhões junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para a execução do Projeto Maranhão.

Os recursos serão destinado à construção de uma nova unidade industrial no Maranhão, com implantação da infraestrutura e apoio necessários à operação, como a construção de uma planta de cogeração de energia a partir de biomassa e aquisição de máquinas e equipamentos nacionais.

“A contratação com o BNDES é uma importante etapa para concretização dos planos de crescimento, viabilizando a estratégia da companhia e consolidando sua posição entre os maiores produtores de celulose no mercado mundial”, comentou a Suzano.

De acordo com os analistas do Banco Fator Corretora, a empresa deverá manter as margens operacionais nos patamares dos últimos trimestres em função da recuperação da demanda doméstica de papéis e da manutenção da venda de celulose. “A valorização do real poderá anular parcialmente as receitas de exportação da celulose e aumentar a competitividade do papel importado”, alertaram Fernandes e Shen.

A Suzano segue sendo a principal empresa recomendada dentro do setor de papel e celulose pelo Citigroup, Link Investimentos e Banco Fator Corretora.

Fibria: reduzindo alavancagem, ampliando boas perspectivas
Outra empresa cujos investimentos animam os analistas é a Fibria (FIBR3). No último ano, a empresa mais preocupava do que animava, visto que possuia um elevado endividamento. Apesar de ter reduzido suas dívidas, a companhia fechou setembro deste ano com um endividamento líquido de R$ 10,112 bilhões, frente a cifra de R$ 13,084 bilhões em igual período do ano passado.

“A redução da alavancagem permitiu a retomada dos planos de investimento. Em 2011, os investimentos serão destinados principalmente para manutenção das operações, formação de base florestal e negocições com fornecedores de madeira para o aumento de capacidade em Três Lagoas (MS), que deverá entrar em operação em 2014, com capacidade de 1,5 milhão de tonelada de celulose”, disseram os analistas do Fator.

O analista do Citigroup reduziu o preço-alvo dos ADRs (American Depositary Receipts) da Fibria de US$ 21,00 para US$ 20,50. Segundo Tavarez, os preços para a celulose no curto prazo pressionarão o potencial do setor no próximo ano, necessitando que os investidores realizem uma escolha seletiva dos papéis do setor – que deverá gerar um retorno total de 24%, contra 27% do Ibovespa, estima o analista. Apesar disso, os valuations deverão voltar a apontar para múltiplos de crescimento histórico no segundo semestre, devido à desalavancagem e à aprovação de projetos no setor, indicou Tavarez em relatório.

Crescimento do mercado interno beneficia a Klabin
Com suas operações mais voltadas para o mercado interno de papel, a Klabin (KLBN4) é a principal candidata no setor de papel e celulose a se beneficiar do forte crescimento econômico em 2010 e 2011. Por esse motivo, a corretora do banco Itaú escolheu as ações da empresa como top pick no setor de papel e celulose, evidenciando o crescimento do Ebitda (geração operacional de caixa) devido ao maior volume de vendas, forte geração de fluxo de caixa livre e valuation atraente.

Assim, o analista Marcos Assumpção reiterou a recomendação de outperform (desempenho acima da média do mercado) para os papéis da produtora de papel e celulose, com um novo preço justo de R$ 7,50. A corretora acredita que a empresa tem espaço para manter o bom desempenho, inclusive acima de seus pares, configurando-se como uma ótima opção no setor.

Segundo Assumpção, a forte demanda doméstica deve levar a um crescimento de 20% no Ebitda da empresa nos próximos dois anos. A companhia também investiu cerca de R$ 291 milhões em projetos com o objetivo de reduzir seus custos, o que foi bem avaliado pela corretora. “O principal ponto positivo para a Klabin reside no potencial para aumentar as vendas de papel cartão no mercado doméstico por meio da melhora do mix de vendas e do aumento do preço médio”, concluiu o analista.

Já a equipe de análise do Fator avalia que o principal foco no curto e médio prazos está na melhora da competitividade da fábrica de Otacílio Costa (SC), que receberá investimentos para a compra de uma nova caldeira e para a reforma na linha de evaporação. “No longo prazo está previsto o aumento da capacidade de produção de celulose para 3,2 milhões de toneladas e instalação de nova máquina de cartão com capacidade de 500 mil toneladas. O investimento em papel cartão poderá ocorrer antes da planta de celulose, a depender das condições do mercado externo”, avaliaram Fernandes e Shen.


Editor de Minhas Finanças do InfoMoney, cobre temas como consumo, tecnologia, negócios e investimentos.