Publicidade
O bull market das ações latino-americanas entrou em uma espécie de “limbo”, na avaliação do Morgan Stanley. Depois de uma forte valorização no início do ano, os mercados da região perderam impulso à medida que cresceram as incertezas sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed) e sobre o cenário global de crescimento. Ainda assim, o banco segue otimista com as bolsas latino-americanas e vê o Brasil como sua principal aposta na região.
No relatório “LatAm Bull Market Limbo: Looking for Wind, Celebrating Wins”, os estrategistas Nikolaj Lippmann e Julia Nogueira argumentam que o vento que sustentava o rali latino-americano perdeu força desde maio. Para eles, a trajetória das ações da região continua dependente do ambiente externo, especialmente da política monetária dos Estados Unidos, que segue como principal vetor de liquidez global, fluxo para mercados emergentes e apetite por risco.
O Morgan Stanley tem uma visão mais dovish (branda, sem tantas preocupações com inflação) do que o mercado para os Estados Unidos — ou seja, mais branda e menos preocupada com a inflação — e projeta inflação mais baixa e nenhuma alta adicional de juros pelo Fed. Ainda assim, a instituição alerta que mudanças na comunicação do banco central americano podem elevar a volatilidade dos mercados e reduzir temporariamente o suporte que vinha favorecendo os ativos latino-americanos.
Ferramenta do InfoMoney
Baixe agora (e de graça)!

XP reduz projeção do Ibovespa para 200 mil pontos, mas vê 2 motivos para otimismo
Projeção anterior era que o índice fechasse o ano a 205 mil pontos

Após 1º semestre de altos e baixos, o que esperar para o Ibovespa até o fim de 2026?
Com o foco migrando de geopolítica para juros, fiscal e eleições, investidores tentam calibrar o potencial de valorização do Ibovespa até o fim de 2026
Sem esse impulso externo, o foco dos investidores voltou-se para as histórias específicas de cada país. É nesse contexto que o banco desenvolve a tese da chamada “Primavera Andina”, baseada em mudanças políticas observadas em países como Argentina, Chile, Peru e Colômbia, que estariam migrando para agendas mais voltadas à disciplina fiscal, à desregulamentação e ao estímulo ao investimento privado.
Segundo o Morgan Stanley, essa transformação política é um dos pilares da visão construtiva para a América Latina no longo prazo. O banco argumenta ainda que a região se beneficia de sua importância crescente no fornecimento de commodities, minerais críticos e energia, especialmente em um ciclo global de investimentos ligados à inteligência artificial e à infraestrutura tecnológica.
Riscos aumentam, mas banco segue comprado em Brasil
Dentro desse cenário regional, o Brasil ocupa uma posição particular. Embora o banco mantenha recomendação overweight para o mercado brasileiro, os estrategistas reconhecem que os riscos domésticos estão aumentando. O país convive com juros longos acima de 14%, dívida pública próxima de 90% do PIB e preocupações crescentes com a sustentabilidade fiscal.
Ao mesmo tempo, o Morgan Stanley avalia que justamente esses desafios ajudam a explicar por que a bolsa brasileira negocia em níveis tão descontados. O mercado é negociado a cerca de 8,2 vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses, com desconto relevante tanto em relação à média histórica quanto frente a outros emergentes. Para os analistas, isso cria uma assimetria favorável para investidores dispostos a suportar volatilidade.

Trade eleitoral começou, mas risco maior é fiscal; veja ações para lidar com cenário
XP destaca uma cesta de ações para o cenário de “deterioração fiscal”, que inclui papéis da Aura, Embraer, Gerdau, PRIO e Irani

Day Trade hoje (01): Ibovespa vê pressão aumentar; o que esperar para hoje?
Confira os pontos de suporte e resistência do mini-índice e minidólar
Na visão de Lippmann e Julia, o Brasil representa hoje a principal história eleitoral da América Latina. As eleições de 2026 podem marcar uma mudança importante nas políticas fiscal, industrial e externa do país, com potencial para alterar de forma significativa a percepção de risco dos investidores.
O relatório usa a Colômbia como exemplo. Nos últimos meses, os rendimentos dos títulos públicos colombianos de dez anos caíram cerca de 250 pontos-base — ou 2,5 pontos percentuais — em relação aos papéis brasileiros, à medida que o mercado passou a precificar uma mudança mais favorável na direção da política econômica. Para o Morgan Stanley, isso mostra como uma melhora de credibilidade pode reduzir o prêmio de risco mesmo antes de os resultados econômicos aparecerem.
Continua depois da publicidade
A leitura do banco é que o Brasil poderia seguir caminho semelhante caso o processo eleitoral passe a embutir expectativas de maior equilíbrio fiscal. Segundo cálculos da instituição, uma compressão parecida do prêmio de risco brasileiro poderia direcionar cerca de US$ 10 bilhões da renda fixa para a bolsa.
O banco também destaca que a desaceleração da economia brasileira não precisa ser vista, necessariamente, de forma negativa. Para os estrategistas, um crescimento mais moderado, mas acompanhado de juros menores e fundamentos mais sustentáveis, seria mais favorável para as ações do que um modelo baseado em expansão fiscal e taxas elevadas.
Enquanto o bull market latino-americano busca um novo catalisador externo, o Morgan Stanley sustenta que a tese de investimento para o Brasil continua de pé justamente por combinar dois elementos raros: lucros corporativos resilientes — impulsionados por setores exportadores e ligados a commodities — e avaliações bastante deprimidas. O desafio, porém, é que a materialização desse potencial dependerá de uma combinação entre um Fed menos restritivo e sinais mais claros de reequilíbrio fiscal doméstico.
Continua depois da publicidade