Brasil reúne condições para despertar dos “espíritos animais” do mercado, diz Morgan

Banco mantém recomendação overweight em Brasil na América Latina e destaca momento de transição dos mercados da região

Lara Rizério IA InfoMoney

Gráfico sobre investimentos do Brasil (Foto: Adobe Stock)
Gráfico sobre investimentos do Brasil (Foto: Adobe Stock)

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Os mercados da América Latina vêm dando sinais de que entraram em uma nova fase estrutural, passando por um momento de transição de “beta para alpha”. A nova fase é marcada por geração de retorno próprio (“alpha”) e menos dependência de choques externos, avalia o Morgan Stanley.

O banco afirma que o desempenho recente da região – especialmente do Brasil – sugere uma ruptura com padrões históricos de correlação com dólar, petróleo e juros locais.

Os estrategistas apontam que as ações latino-americanas superam os mercados emergentes e o índice global ACWI desde meados de 2025. A partir de 2026, no entanto, esse movimento passou a ser liderado quase exclusivamente pelo Brasil, em um comportamento considerado atípico: o mercado brasileiro seguiu avançando mesmo em momentos de fortalecimento do dólar ou de volatilidade no petróleo.

Para o Morgan Stanley, esse descolamento reforça a tese de que a região está deixando de operar apenas como “beta global” e começando a capturar ganhos próprios, sustentados por fundamentos como abundância de energia, exposição a commodities estratégicas (cobre, lítio e minerais críticos) e posição relevante no atual ciclo global de investimentos em inteligência artificial e transição energética.

O banco mantém recomendação overweight (exposição acima da média) para o Brasil na carteira da América Latina, apesar de reconhecer que a posição de investidores estrangeiros já está elevada. Atualmente, fundos globais e de mercados emergentes detêm cerca de 26% do valor de mercado das ações brasileiras — o maior nível já registrado — enquanto investidores locais seguem com participação historicamente baixa.

Essa assimetria de posicionamento, segundo o relatório, ajuda a explicar a recente “transferência de retorno” dos investidores domésticos para os estrangeiros. Enquanto os primeiros continuam cautelosos, focados em riscos políticos e no patamar ainda elevado dos juros locais, os segundos concentram suas decisões no ciclo global de investimentos, na diversificação geográfica e no papel estratégico da América Latina no novo arranjo geopolítico.

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Nesse contexto, o banco também chama atenção para o Chile como um sinal antecedente relevante. Desde o segundo semestre de 2025, fundos de pensão chilenos voltaram a aumentar de forma consistente sua exposição à Bolsa local, movimento que coincidiu com ajustes na política econômica, além da alta nos preços do cobre e do lítio.

Para o Morgan Stanley, esse retorno do investidor doméstico pode servir de referência para o Brasil, caso haja melhora na confiança local.

O relatório destaca que o mercado brasileiro reúne condições para esse “despertar dos espíritos animais [animal spirits]”, com potencial de cortes mais intensos de juros ao longo do ciclo, eleições presidenciais em 2026 e forte geração de caixa no setor de energia e commodities. Uma normalização da alocação local — dos atuais cerca de 4% para algo próximo da média histórica de 9% — teria capacidade de gerar fluxos relevantes para a Bolsa.

Do ponto de vista de valuation, o banco avalia que a região segue relativamente barata.

As ações latino-americanas negociam, em média, a 10,8 vezes o lucro projetado, abaixo da média histórica e com desconto relevante frente aos mercados emergentes. O Brasil aparece a 9,7 vezes lucro forward, enquanto México e Chile negociam a 13,7 vezes e 14,0 vezes, respectivamente.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.