Publicidade
SÃO PAULO – A InfoMoney tratou, na última segunda-feira, sobre as semelhanças, diferenças e disparidades entre os CDSs (credit default swaps) e os ratings concedidos por agências de classificação de risco, um assunto em evidência com a crise fiscal na Europa. Mas aqui no Brasil, o tema também interessa por outro motivo.
O spread dos CDS brasileiros vem seguindo uma trajetória de queda nos últimos anos, em linha com o amadurecimento da economia do País, com exceção do período de alta de setembro de 2008 a março de 2009, em função das turbulências financeiras no mundo. Seria o indicativo de novas elevações no rating?
Os CDSs são derivativos que refletem o risco de inadimplência. Quanto maior seu spread, maior a percepção do mercado de que o emissor pode não honrar suas dívidas. De forma semelhante, ratings são avaliações de risco sobre um emissor de dívida, ou seja, mede o risco deste emissor, neste caso um país, não saldar seus compromissos financeiros. Conceitos semelhantes, que tendem a caminhar juntos.
Brasil: mercado seguro
No último dia 30 de abril, os CDSs brasileiros de 15 anos atingiram uma mínima de 123 pontos-base. Para se ter uma ideia, em outubro de 2008, no auge da crise nas bolsas, o spread dos CDSs do País figurava em torno dos 600 pontos-base. Para analistas, a tendência é de continuidade na trajetória de queda.
“O Brasil é hoje um mercado seguro para aqueles que querem arriscar mais um pouco mas que também querem passar longe da volatilidade e dos riscos na Europa”, diz David Bessey, analista da Prudential Financial. A leitura de Jim Craige, analista da Stone Harbor Investment Partners é similar. “Os valores mostram que o rating do Brasil pode sim ser elevado em um futuro próximo. O país desfruta de uma história de fundamentos muito bem-sucedida”, afirmou em entrevista recente à Bloomberg.
De fato, a Standard & Poor’s tem muitos elogios no que concerne à evolução recente do País. “Nossa avaliação reflete uma maturação das instituições do Brasil e da estrutura política, evidenciada pela melhoria da dívida fiscal e externa e pelas perspectivas de crescimento econômico”, diz a equipe.
Continua depois da publicidade
Desta forma, acompanhar a trajetória dos CDSs brasileiros pode ser, de fato, um bom indicativo do que pode estar por vir na avaliação das agências. Mas não é garantia.
Longo caminho à frente
Atualmente, embora pertença aos países agraciados com o grau de investimento, o rating do Brasil é o menor dentro de tal grupo – para muitos analistas, não à toa. Segundo a equipe da Standard & Poor’s, o País ainda tem muito o que evoluir no que concerne à sua política fiscal, especialmente quanto ao elevado nível de endividamento do governo.
Na visão de Henry Stipp, da Threadneedle Asset Management, há uma latente necessidade de implementação de reformas estruturais, como a tributária. “Sem elas, o enorme potencial do País pode não se concretizar”.
Continua depois da publicidade
Outro foco de grande cautela entre muitos analistas é o político. Para Paul Biszko, analista do RBC Capital Markets, o mercado precifica um processo eleitoral muito tranquilo e estável. Se assistirmos a um ambiente mais conturbado, o spread dos CDSs pode engatar uma trajetória ascendente, ainda que fadada ao curto prazo.
Brasil no mundo
Além, é claro, do anseio pela conquista de mais um degrau nas avaliações das agências de classificação de risco, as especulações em torno de uma elevação do rating brasileiro têm fundamento também nas comparações traçadas com outros países ao redor do mundo.
Ao passo que o spread dos CDSs brasileiros segue em torno dos 215 pontos, países cujos ratings estão situados em posições superiores ao Brasil nas avaliações de agências de classificação de risco têm seus CDSs operando a spreads bem mais elevados, como a Rússia.
Continua depois da publicidade
O rating russo encontra-se um nível acima do brasileiro na avaliação da Standard & Poor’s e dois níveis acima na leitura da Moody’s. E, no entanto, pela primeira vez, seus CDSs atingiram no último dia 6 de maio um spread mais elevado que o do Brasil. O mesmo já ocorria muito antes em relação ao Bahrain e a África do Sul, cujos CDS vêm oscilando na faixa dos 300 pontos-base.
Mais uma vez, entretanto, é necessário destacar as diferenças entre CDSs e ratings, que ajudam a explicar tal disparidade. Os primeiros são instrumentos financeiros, que refletem de forma mais rápida eventuais alterações no cenário fiscal dos países mas que, em contrapartida, são sujeitos a especulações e comportamentos irracionais dos mercados. Já os ratings são fruto de avaliações minuciosas de analistas que, portanto, acabam demorando mais para acompanhar as mudanças no panorama internacional.