Ficou no passado?

Bolsas retomam negociação presencial, mas pandemia mostrou que ela está obsoleta, diz estudo

As negociações presenciais na Bolsa de Nova York, a NYSE, devem ser retomadas em 26 de maio; na de Chicago, em 1º de junho

New York Stock Exchange nyse bolsa americana mercado ações wall street
(Getty Images)

SÃO PAULO — A pandemia de coronavírus provou que o mercado financeiro está preparado para funcionar 100% online, sem a necessidade de negociações presenciais. Esta é a conclusão de um estudo da New York University e da University of Illinois, de Chicago, divulgado ontem (21).

O trading floor da Bolsa de Nova York, espaço reservado para os operadores que desejam fechar negócios presencialmente, será reaberto com restrições de ocupação e regras de distanciamento e uso de máscaras no dia 26 de maio.

As negociações presenciais também devem ser retomadas na Bolsa de mercadorias de Chicago, em 1º de junho. Em nenhuma das duas, os negócios foram prejudicados durante a quarentena: todas as operações foram feitas de forma 100% digital.

Na NYSE, o trading floor está fechado desde 23 de março — foi a primeira vez na história da Bolsa americana, de 228 anos, que os negócios foram feitos totalmente pela internet. Já a Bolsa de Chicago fechou em 16 de março.

Apenas os operadores presentes no saguão da NYSE podem dar um tipo de ordem chamado “D”, que é liberada nos últimos minutos do pregão todos os dias. É o leilão de fechamento do mercado de ações americano, que durante a pandemia vem sendo feito de forma 100% digital.

Tradicionalmente, muitas corretoras esperavam o leilão final presencial de fechamento para fazer grandes ordens de compra e venda de ações — o que provocava uma variação expressiva dos preços no fim do dia.

Ao The Wall Street Journal, a corretora Rosenblatt Securities disse que 7% do volume negociado com ações nas Bolsas americanas neste ano foram de negociações fechadas nos leilões de fechamento.

O estudo das duas universidades concluiu que o fechamento dos trading floors tornou o pregão mais organizado. Os preços “indicativos” dos leilões da NYSE, o último sinal nos valores dos ativos antes do leilão de fechamento que determina seu preço final, ficaram mais precisos.

Os pesquisadores concluíram que a diferença entre os preços “indicativos”, liberados às 15h55, e os preços reais de fechamento, que saem às 16h, diminuíram cerca de 1%.

Sem os trading floors, os operadores também passaram a participar dos leilões mais cedo, o que amenizou grandes oscilações nos preços dos ativos no final do dia.

Antes, 46% do volume diário vinha dos negócios fechados até 15h55. Agora, com o pregão 100% online, 74% do volume médio diário negociado vem das operações feitas até o mesmo horário.

“Essa melhora na qualidade do leilão de fechamento do mercado na NYSE é especialmente importante agora em maio à turbulência generalizada durante a pandemia da Covid-19”, escreveram os pesquisadores.

Ao WSJ, a NYSE disse que o estudo considera apenas um fator ao afirmar que houve uma melhora na qualidade do fechamento do mercado e que outros fatores devem entrar nessa avaliação, o que não aconteceu.

Resta saber se, com a reabertura dos trading floors, os operadores vão se sentir confiantes em voltar a trabalhar presencialmente nas Bolsas americanas ou se a pandemia vai reduzir esse hábito até ele deixar de existir.

Aqui no Brasil, o pregão presencial — ou pregão viva-voz, como era conhecido — na B3, antiga BM&FBovespa, foi extinto totalmente em 1º de julho de 2009. Desde então, os negócios são feitos 100% online.

É assim na grande maioria das Bolsas globais, por isso, tanto aqui como na maior parte do mundo, as negociações continuaram sendo feitas normalmente, mesmo com as medidas de isolamento social e, em alguns casos, lockdown (fechamento obrigatório do comércio e impedimento da população de sair de casa passível de punição) por causa da disseminação de coronavírus.

Foram pouquíssimos os casos de fechamento total da Bolsa de Valores durante a pandemia, como a Bolsa das Filipinas, que fechou por dois dias quando o lockdown foi determinado na ilha de Luzon, em 16 de março.

Na reabertura da Bolsa filipina, em 19 de março, o principal índice de ações do país caiu mais de 1.000 pontos, segundo a CNN Internacional. Ele se recuperou nos dias seguintes, mas a operadora da Bolsa local teve que adotar uma nova regra de circuit breaker — paralisação automática do mercado em caso de queda abrupta.

A pequena Bolsa da Palestina também encerrou temporariamente suas operações por causa da Covid-19, mas por um período mais longo, de 40 dias.

A maioria dos negócios por lá, segundo a Reuters, ainda era feita presencialmente e a operadora da Bolsa funciona dentro do West Bank, onde foram registrados mais de 300 casos de coronavírus e pelo menos duas mortes.

A reabertura gradual e com regras de distanciamento aconteceu em 3 de maio, domingo (na cultura local, domingo é considerado dia útil). A Bolsa da Palestina tem apenas 48 companhias listadas que, juntas, valem menos de US$ 4 bilhões.

Os demais mercados de ações globais, segundo a WFE (Federação Mundial das Bolsas de Valores, na sigla em inglês), continuaram funcionando online durante da crise do coronavírus, mas muitos adotaram algum tipo de nova regra, temporária ou não, como redução no horário de negociação ou afrouxamento de normas, como limites de negócios ou valores negociados.

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