Bolsa já subiu demais? A “virada de chave” que pode impulsionar ainda mais o Ibovespa

Investidor local segue com baixa exposição a ações locais - mas cenário pode estar prestes a mudar

Lara Rizério IA InfoMoney

(Shutterstock)
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Enquanto o Ibovespa renova máximas históricas e chega a bater os 185 mil pontos impulsionado por fluxo estrangeiro, o investidor local segue com a menor exposição a ações em anos — e isso pode ser justamente o combustível para uma nova pernada de alta. Essa é a avaliação do Morgan Stanley, que manteve recomendação overweight (acima da média) para o Brasil dentro da América Latina.

Segundo o banco, fundos de ações domésticas representam hoje cerca de 4% da indústria de fundos, menos da metade da média histórica e um terço do pico observado na série. “Os investidores locais estão, em grande medida, ‘pegos vendidos’ neste rali”, escrevem os estrategistas.

Cabe ressaltar que os resgates dos fundos locais têm sido persistentes sendo que, somente em 2025, os resgates líquidos dos fundos de ações locais totalizaram R$ 63 bilhões. Embora os fundos de ações continuem registrando resgates líquidos no início de 2026 (cerca de R$ 2,1 bilhões no acumulado do ano), o ritmo das saídas está mais moderado.

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O Morgan vê o mercado doméstico segue como o preferido na região latino-americana, com espaço para que o Ibovespa caminhe rumo a um cenário de bull case em torno de 240 mil pontos, com retorno potencial adicional da ordem de 20% no médio prazo.

Fluxo estrangeiro domina… por enquanto

Desde o início de 2025, a alta da Bolsa tem sido puxada principalmente por investidores internacionais. O Morgan Stanley estima que estrangeiros aportaram cerca de R$ 27 bilhões em ações brasileiras em 2025, com forte concentração no segundo trimestre.

Só nas primeiras semanas de 2026, o fluxo já soma R$ 16 bilhões, perto de metade de tudo o que entrou no ano anterior.

Entre os dez maiores mercados do índice MSCI de emergentes, o Brasil foi o que registrou maior expansão de múltiplo em 2026 até agora, com alta de 11%, frente a apenas 1% no agregado de emergentes.

Contudo, mesmo após a disparada recente, o Morgan Stanley argumenta que o mercado segue relativamente barato: as ações brasileiras negociam a cerca de 10,4 vezes o lucro esperado, um desconto em relação aos demais emergentes (0,8 vez a média de EM, contra 0,9 vez históricos e pico de 1,2 vez).

A casa usa uma leitura de “curva de oferta” de ações: quando os valuations estão muito baixos, a oferta de novas ações (IPOs, follow-ons) praticamente some, o que torna a curva quase vertical. É justamente onde o Brasil estaria hoje. Nesse trecho, qualquer choque de demanda tende a produzir uma alta desproporcional de preços.

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A partir de múltiplos próximos de 12 vezes lucro, o banco espera ver mais emissões, o que aliviaria a restrição de oferta — nível que coincide com o preço‑alvo base da instituição para 2026.

Um dos gatilhos para esse choque de demanda, segundo o Morgan Stanley, é o início do ciclo de cortes da Selic, que o banco espera para março.

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Os estrategistas acreditam que a queda da Selic de 15% para 13,5% até meados de 2026 poderia gerar US$ 6 bilhões em novos recursos para fundos de ações locais.
Se a taxa recuar para 11,5% até o fim de 2026, o volume adicional pode chegar a US$ 14 bilhões no ano.

Considerando que a indústria de fundos soma R$ 10,7 trilhões, um aumento de apenas 1 ponto percentual na fatia de ações significaria um fluxo extra da ordem de R$ 100 bilhões para a Bolsa.

Eleição e reprecificação do risco Brasil

A equipe de estrategistas também destaca o papel das eleições de 2026. As pesquisas ainda mostram um cenário em aberto, com o atual presidente Lula competitivo no primeiro e segundo turnos, mas com o senador Flávio Bolsonaro reduzindo a distância em levantamentos recentes.

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Mais do que nomes, o foco do mercado está na possível mudança de rumo fiscal. “Agendas econômicas mais ortodoxas tendem a atrair investimento e provocar expansão de múltiplos”, afirma o banco. Um ajuste de curso poderia reduzir o prêmio de risco do país e acelerar o movimento de realocação de renda fixa para ações — algo que o Morgan Stanley vê como peça central de um possível bull market multianual em toda a América Latina.

Risco e oportunidade

O Morgan Stanley pondera que, apesar do tom construtivo, o cenário está longe de ser isento de riscos: a Bolsa já subiu cerca de 60% desde o início de 2025, a posição de estrangeiros está em máximas históricas e o quadro político ainda é frágil.

Mesmo assim, a combinação de Bolsa ainda descontada, cortes de juros no horizonte,
Investidor local pouco posicionado em ações e Possível mudança de regime de política econômica faz do Brasil, nas palavras do banco, o mercado preferido da América Latina,. Isso com espaço para que o Ibovespa caminhe rumo a um cenário de bull case em torno de 240 mil pontos, com retorno potencial adicional da ordem de 20% no médio prazo.

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Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.