Fato real

Bolha especulativa, bola murcha

É certo que estamos vivendo a era das inovações múltiplas, com efeitos gigantescos sobre o mercado

arrow_forwardMais sobre

A crise de 2008 despontou como a mais importante desde 1929. Interessante foi o fato de que a natureza de ambas era a mesma: uma tremenda crise de crédito que fez entrar em colapso o sistema financeiro e, por conseguinte, a queda da demanda foi generalizada. A lição de 1929, duramente aprendida pelos economistas ao longo dos anos 1930 e 1940, foi extremamente útil para a superação relativamente rápida daquele colapso. Menos de dez anos depois os sintomas da crise ainda persistem, sobretudo no Velho Continente, mas a recuperação da economia da maioria dos países centrais do capitalismo pode ser considerada como muito razoável.

Os preços dos ativos também se recuperaram velozmente e relativamente descolados do desempenho “real” da economia. Para se ter uma ideia, entre o início de julho de 2009 (início da recuperação) e o fechamento das bolsas na última sexta-feira (dia 21/7/2017) o Índice S&P500, que representa as 500 maiores corporações dos EUA, subiu 160%. As empresas de tecnologia, representadas pelo índice NASDAQ subiu no mesmo período 173%, sendo que o segmento das 100 maiores empresas desse índice subiu 283%. Um belo desempenho. Empresas da “nova economia” subiram entre 700% e 1500%. O Facebook, para dar um exemplo paradigmático, subiu 983%. A relação Preço/Lucro (P/L), um dos indicadores mais utilizados no mercado, gravita ao redor de 22 vezes no caso do S&P500, ou seja, considerado o lucro projetado para o ano de 2017, o preço das ações equivale a 22 vezes tal lucro. No caso do NASDAQ esse número é ao redor de 30 vezes. O Facebook, no caso, tem um índice de 41 vezes, o que significa dizer que no preço da ação “está contida” a expectativa de um enorme crescimento dos lucros os próximos anos, o que ajustaria esse indicador elevadíssimo para patamares mais “justos”, pois o índice de 41 vezes parece estratosférico, num olhar imediato.

Em tempos de “destruição criativa”, agora vê-se o mercado de ICOs (Initial Currency Offerings) disparar. Trata-se de um mercado de cupons digitais de moedas bitcoin, a cripto-moeda eletrônica, sem registros em bancos centrais e sem direitos de propriedade ou coisa que o valha. Essas moedas estão sendo utilizadas para “desenvolver negócios”: uma parcela relevante do mercado de venture capital (empresas pequenas em fase de crescimento) está sendo financiado por essas moedas. Na medida em que tais projetos/empresas crescem, as moedas se valorizam. A emissão dessas moedas é feita por meio de um contrato digital (“contratos inteligentes”), por exemplo, no Ethereum, uma plataforma que retém os registros de transações com as moedas e que tem a segurança garantida por criptografia (blockchain). As transações são verificadas pelos próprios usuários do sistema, sendo que os contratos assinados no sistema são pagos em ether, a moeda digital desta plataforma. Lembremos que essa não é a única plataforma de “criação” de moeda. Esse tipo de sistema pode ser utilizado para considerável número de transações financeiras, das apólices de seguro até a arrecadação de recursos no mercado de capitais (crowdfunding, por exemplo).

É certo que estamos vivendo a era das inovações múltiplas, com efeitos gigantescos sobre os diversos segmentos do mercado financeiro e de capital. Afora, as mudanças estruturais na nossa vida cotidiana. A criação de moedas digitais é mais uma dessas inovações que serão testadas no mercado nos próximos anos. Há quem esteja ganhando nesse tipo de mercado, mas não há (ainda) notícias daqueles que estão perdendo. Como a lógica do capital não mudou no que tange à existência de ganhadores e perdedores, veremos como progrediremos daqui para frente. Teremos colapsos financeiros nesse contexto?

De outro lado, os reguladores, os distintos bancos centrais e comissões de valores mobiliários, estão observando o cenário e, por enquanto, nada fazem. Em verdade, não sabem como agir e o que fazer. Afinal, moedas digitais não são valores mobiliários (estes têm direitos ligados aos títulos). O problema é que as moedas emitidas sem critérios verificáveis pelas autoridades inflacionam o valor dos ativos, por enquanto, de forma localizada. É certo que não há neutralidade nesse processo no que tange aos riscos.

Esse mundo fascinante e perigoso trará desafios novos para o Direito e a ciência econômica. Também há que se notar que as diferenças sociais e entre nações voltaram a se amplificar rapidamente nos últimos trinta anos. Parte substancial da humanidade passa fome, enquanto uma pequena parcela caminha sob à proteção institucional de uma entidade denominada “mercado”. Os diferenciais educacionais e de tecnologia se ampliam e nos países mais pobres não há como criar processos de “destruição criativa” como nos países ricos. Até mesmo grande parte das classes menos abastadas dos países ricos pode estar sendo expelida para fora do sistema de desenvolvimento capitalista no médio e longo prazo.

Também não devemos ter ilusões de que as “bolhas especulativas” podem estar à solta no mercado mundial, sobretudo nos EUA. Note-se que há notável diferença entre “capital” e a “riqueza”. O primeiro incrementa desenvolvimento, enquanto o segundo concentra a renda “improdutiva” (que não é investida em bens que criam novos bens). Não à toa, o mercado de imóveis, de arte e o próprio mercado de ações estejam sobrevalorizados nas principais economias. De ilusão também se vive…

Por aqui, abaixo do Equador, no nosso país, esse mundo parece bem distante…Ainda estamos a discutir se funcionários públicos “valem mais” que os cidadãos comuns, se juízes podem ter 60 dias de férias, se o presidente é corrupto, se os professores faltam muito ao trabalho, se vamos superar os 60 mil homicídios por ano, se os hospitais públicos vão fechar e assim vai….

O certo é que o bom momento do mercado e da economia mundial poderia ajudar o Brasil a crescer e dar alguns saltos na direção correta. No futuro, talvez não muito distante, seremos vítima do ajuste dos preços e da atividade econômica mundial.

PUBLICIDADE

Estamos perdendo tempo precioso, distanciando cada vez mais a política do poder frente a um admirável mundo novo. Somos o país da bola murcha para usar a expressão comum do futebol. Resta saber se as elites, sobretudo os políticos, se importam com isso.