Bitcoin cai com tarifas e pode atingir menor nível em 2 anos, dizem analistas

Movimento marcado por resgates de ETFs acompanha incerteza comercial nos EUA, tensão com o Irã; enquanto isso, Strategy faz sua centésima compra

Paulo Barros

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O Bitcoin (BTC) voltou a oscilar com força nesta segunda-feira (23), após cair mais de 5% durante a madrugada e tocar US$ 64 mil, antes de recuperar parte das perdas e retornar à faixa de US$ 66 mil. O movimento ocorre em meio à retomada das incertezas sobre tarifas nos Estados Unidos e à escalada das tensões envolvendo o Irã.

A criptomoeda chegou a US$ 64.270 pouco depois das 21h de ontem, e se recuperou para cerca de US$ 66.300 no fim da manhã desta segunda, em linha com a volatilidade observada nos futuros do S&P 500. O ouro subiu na abertura dos mercados e renovou máximas recentes, acima de US$ 5.100, refletindo a busca por proteção.

A turbulência ganhou força após a Suprema Corte dos EUA barrar as chamadas “tarifas recíprocas” impostas no ano passado por Donald Trump. Horas depois, o presidente americano anunciou novas tarifas globais de até 15% por 150 dias, o que reforçou a percepção de incerteza comercial.

No mercado de derivativos, operadores passaram a buscar proteção contra quedas do Bitcoin. Desde sexta-feira, opções de venda com preços de exercício em US$ 58 mil, US$ 60 mil e US$ 62 mil registraram aumento relevante no número de contratos em aberto na Deribit. Esses instrumentos permitem que traders vendam o ativo pelo valor atual caso o preço caia para essas faixas, em troca de um prêmio.

Durante o fim de semana, dados de blockchain também apontaram movimentação de grandes volumes de Bitcoin por um investidor de grande porte para uma exchange, o que alimentou especulações sobre venda e ampliou a volatilidade.

Criptomoedas menores foram mais pressionadas em um ambiente de liquidez reduzida. Solana e SUI recuaram entre 7% e 8% antes de reagirem nas horas seguintes. Segundo a CoinGlass, houve cerca de US$ 270 milhões em liquidações nas chamadas altcoins.

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Queda até US$ 53 mil?

Para Rony Szuster, Head de Research do Mercado Bitcoin, o movimento reforça o ambiente de aversão a risco. “Os volumes do dia mostram atividade relevante, mas no acumulado semanal permanece uma dinâmica predominante de vendas. Isso reforça a leitura de que o mercado atravessa um momento de medo elevado”, afirmou. Ele acrescenta que o Bitcoin perdeu um suporte na região de US$ 66.700 e, caso a pressão continue, pode buscar a faixa de US$ 61 mil, o menor valor desde outubro de 2024.

Já para a analista técnica e trader Ana de Mattos, o movimento pode ser mais profundo. ELa sinaliza que, dado o sentimento de “medo extremo” no mercado, o Bitcoin pode testar regiões de liquidez em US$ 60 mil e US$ 53 mil, o que seria o patamar mais baixo desde fevereiro de 2024. Em caso de recuperação, por outro lado, ela aponta que as resistências estão atualmente em US$ 72 mil e US$ 75.500.

O que observar agora

Os fluxos em ETFs também seguem no radar. Na última semana, os fundos de Bitcoin registraram a quinta sequência de saídas líquidas, acumulando cerca de US$ 315 milhões negativos, apesar de uma entrada pontual de US$ 88 milhões na sexta-feira. Dados mais recentes indicam compras irregulares, reagindo às notícias, sem manutenção de demanda consistente.

Enquanto isso, a Strategy, maior empresa listada com reservas em Bitcoin, anunciou a compra de mais 592 BTC na semana passada, por US$ 39,8 milhões, ao preço médio de US$ 67.286 por unidade. Com isso, a companhia passou a deter 717.722 BTC, adquiridos por US$ 54,56 bilhões, a um preço médio de US$ 76.020 por moeda.

Com o Bitcoin negociado a cerca de US$ 66 mil, a posição representa perda não realizada de cerca de US$ 10 mil por unidade, ou aproximadamente US$ 7 bilhões no total. As ações da empresa recuavam 2,33% às 10h40, acumulando queda de quase 55% em 12 meses.

Além das tarifas, investidores monitoram a temporada de balanços, incluindo os resultados da Nvidia na próxima quarta-feira, e a evolução do preço do petróleo diante do risco de escalada militar no Oriente Médio.

Paulo Barros

Jornalista há quase 20 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve principalmente sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos