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SÃO PAULO – Reportagem publicada na edição de abril da revista norte-americana Time critica a indústria de biocombustíveis brasileira e aponta seus impactos ambientais e econômicos. O texto toca em um assunto que já não é novidade em território nacional: o cultivo de matéria-prima para essa produção compete com a agricultura alimentar, resultando em encarecimentos acentuados da comida.
“Uma explosão na demanda por esses combustíveis fez com que os preços das colheitas atingissem altas recordes, que estimula uma dramática expansão da agricultura brasileira que, por sua vez, invade a Amazônia em um nível alarmante”, afirmou a matéria.
Maior inflação
O comportamento brasileiro ganha cada vez mais repercussão no mercado internacional. No fim de semana passado, por exemplo, o presidente da Nestlé, Peter Brabeck, afirmou ao jornal britânico Financial Times que a indústria alimentícia terá de competir com a produção de biocombustíveis. “Não encontraremos água suficiente para produzir todo o necessário. Haverá uma luta feroz por terra cultivável”, afirmou.
“Os hábitos de consumo nos países emergentes não vão se reverter”, afirmou, adicionando que enquanto espera que os preços globais de alimentos não se alterem neste ano, a tendência mais aparente é que eles continuem subindo. “Acho que teremos que viver com maior inflação dos alimentos”, acrescentou.
Números
Segundo a Time, por conta da escalada do petróleo, biocombustíveis se tornaram a vanguarda da revolução tecnológica verde. Os Estados Unidos, por exemplo, quintuplicaram sua produção de etanol na última década.
Investimentos mundiais em biocombustíveis subiram de R$ 5 bilhões em 1995 para R$ 38 bilhões em 2005, sendo esperados R$ 100 bilhões até 2010. “Mas estudos recentes mostram que esse boom está fazendo exatamente o contrário: está acelerando o aquecimento global, prejudicando o mundo em vez de salvá-lo”, continuou a reportagem.
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Fatos
No ano passado, o preço dos alimentos subiu, em média, 10% no âmbito do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Apenas para se ter uma idéia, a variação foi significativa em relação à inflação geral, de 4,46%.
Segundo a Abrace (Associação Brasileira dos Cerealistas), de janeiro a novembro último, o preço do quilo do feijão aumentou, em média, mais de três vezes (250%): de R$ 2 para R$ 7 no intervalo de tempo. O comportamento seria motivado pelo aumento da área destinada ao plantio de cana-de-açúcar, em detrimento ao grão.
“Os agricultores preferiram plantar cana. Com isso, a área plantada do feijão diminuiu em 70% no último ano”, explicou à época o presidente da entidade, Manuel da Costa Pereira. Conforme a Abrace, em 2006 foram cultivadas 3,4 milhões de toneladas de feijão. Em 2007, estimativas apontavam para R$ 2,4 milhões de toneladas. A cana, por sua vez, passou de R$ 373 milhões de toneladas para R$ 425 milhões de toneladas.
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De acordo com a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), a safra 2007/2008 teve caráter alcooleiro, com uma produção de etanol estimada em 19,7 bilhões de litros – um incremento de 3,7 bilhões de litros em relação à safra anterior. O mix de produção estimado ficou em 55,3%, para álcool, e 44,7%, para açúcar.