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SÃO PAULO – Grande parcela das atividades em finanças estruturadas é tida como incompreensível, ou tornou-se incompreensível, dados os abusos atrelados à crise atual. Nem sempre foi assim, porém, já que a idéia era simples.
Alguém monta uma cesta de ativos (o chamado “pool”), variando na escolha de títulos, normalmente de renda fixa. A partir daí, basta organizar um pacote de direitos (a chamada “tranche”) que tem essa cesta como colateral.
Os maiores benefícios e riscos estão justamente na organização. Se o ranking de prioridade dos ativos é bem formulado, a tranche tende a ser muito mais segura do que a média do pool servindo de lastro. Caso contrário, ela fica só um pouco mais segura, ou, com algum esforço profissional, menos segura.
Essa capacidade das finanças estruturadas de embrulhar incertezas e revelar estabilidade inspirou práticas desmesuradas. De um lado, pools e tranches vindos de linhas de produção. De outro, investidores encarando os pacotes como livres de risco, sob o aval de ratings inquestionáveis.
Conforme concluem Erik Stafford, Jakub Jurek e Joshua Coval, “no núcleo da crise do mercado financeiro está a descoberta de que esses títulos são muito mais arriscados do que o anúncio prévio indicava”.
Coisas despercebidas
No estudo, “The Economics of Structured Finance“, os três pesquisadores da Harvard Business School identificam duas relações que, relegadas a quarto plano, levaram a uma seqüência desordenada para os pacotes de títulos.
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O primeiro alerta surge do rating. Os pacotes só poderiam receber notas elevadas se as agências de classificação conseguissem, de fato, estimar com precisão os riscos de crédito (isolados e cruzados) de cada fração do colateral.
Tomando como exemplo os CDOs (Collateralized Debt Obligations), Stafford, Jurek e Coval mostram que a construção de tranches amplifica o erro intrínseco à avaliação de riscos. “Qualquer imprecisão modesta nos parâmetros pode conferir chance razoável de calote a um título AAA”.
O segundo ponto está no processo de substituição que as finanças estruturadas proporcionam. Ao passarmos do pool à tranche, estamos trocando riscos diversificáveis por riscos sistêmicos. Por isso, o pacote final depende bastante das condições gerais de mercado, subindo e caindo junto com elas.