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Até a manhã de ontem, a opinião mais ou menos generalizada entre os especialistas era a de que o Banco Central, em busca da confiança perdida do mercado por causa de vacilações na condução da política monetária no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, aumentaria hoje a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual apesar da forte recessão pela qual está passando a economia nacional.
A aposta mais ou menos generalizada entre especialistas e analistas do mercado era de que o BC, em função da gravidade do quadro econômico não deveria aumentar os juros mas que ele aumentaria assim mesmo a Selic de 14,25% para 14,75% para retomar o controle das expectativas do mercado.
(Essa opinião pode ser conferida na entrevista concedida ao “Na Real na TV” (aqui) pelo ex-diretor do BC, Alkimar Moura do início da tarde.)
Porém, logo em seguida, quebrando o protocolo e o ritual que o Copom obedece no período que marca sua reunião para definir os juros, o presidente do BC, Alexandre Tombini, soltou uma nota comentando uma análise do FMI a respeito da economia mundial, divulgada na manhã de terça-feira, na qual a situação economia brasileira é pintada com tintas muito mais graves do que a admitidas internamente no país e no próprio governo.
Para o FMI, a economia brasileira, por exemplo, vai sofrer uma queda de 3,5% este ano (o governo ainda trabalha com um PIB 1,9% menor), em 2017 ainda ficará estagnada (PIB zero) e somente dará sinais de recuperação em 2018. Em sua nota, Tombini diz que o Copom deverá considerar esses dados quando for decidir hoje.
Imediatamente, os analistas passaram a considerar que o BC estava recuando de sua posição anterior de aumentar a Selic em 0,5 pp, anunciada em vários comunicados no último mês. As apostas mudaram: aumento de apenas 0,25 pp, manutenção dos juros em 14,25% e até uma pequena redução.
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Adicionalmente, o comentário (com críticas de alguns ex-diretores do BC) foi o de que a autoridade monetária cedeu às pressões (discretas) do Palácio do Planalto e (nada discretas) do PT, de ministros políticos de Dilma e alguns aliados para dar uma guinada na política monetária. Tanto o PT quanto Dilma gostaram, registram o jornais.
Por coincidência, informam alguns jornais, Tombini havia tido um encontro fora da agenda com a presidente da República na segunda-feira. O PT ameaçara com uma campanha contra a permanência de Tombini no BC nos mesmos moldes que a que fez para derrubar Joaquim Levy do Ministério da Fazenda.
Os críticos do BC ganharam um reforço de peso. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, fez coro com os que acham que a política da autoridade monetária brasileira no momento está equivocada. Segundo o economista norte-americano, “o BC no Brasil estrangula a economia”.
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Para Stigltz, a elevação dos juros em uma economia em recessão só agrava o problema. O economista norte-americano diz que a política monetária brasileira deveria se contrapor aos efeitos depressivos da queda dos preços das exportações e da Operação Lava-Jato.
Porém, a realidade é que a conseqüência imediata do recuo de Tombini, visível na maioria das análises da confusão armada pelo BC ontem, foi que de novo a confiança que a autoridade monetária vinha a duras penas tentando amealhar neste segundo mandato da presidente Dilma Rousseff ficou novamente comprometida.
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Setor produtivo contra novos impostos
Para o governo, além desse barulho todo que mexe com um setor sensível como o mercado financeiro, o dia de ontem trouxe uma outra nota desagradável: a explicitação, em uma manifesto público, das pressões do setor produtivo para enterrar a proposta de recriação da CPMF.
Uma carta assinada pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), CNI (Confederação Nacional da Indústria), CNT (Confederação Nacional do Transporte), CNDL (Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas) e CNS (Confederação Nacional da Saúde), pede o fim da proposta e lembra que Dilma não disse na campanha que aumentaria esses impostos e que é preciso foco na geração de empregos. As entidades dizem que falta legitimidade à presidente para aumentar impostos.
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Líderes da oposição e até de partidos governistas avaliavam ontem, segundo o jornal “O Globo”, que esta manifestação dificulta a aprovação da recriação do imposto do cheque, com o qual o governo prevê arrecadar este ano cerca de R$ 11 bilhões de reais para fechar as contas deste ano com um superávit primário de 0,5% do PIB.
O colunista Ilimar Franco, de “O Globo”, diz que o governo está de olho em outra fonte de receita: estabeleceu com uma das prioridades da base aliada no retorno do Congresso a aprovação da legalização dos jogos no Brasil. O controle ficaria com a Caixa Econômica Federal, que cobraria pela outorga e pelo direito de exploração, além dos impostos. A previsão de receita nova é de R$ 15 bilhões/ano.
Na política, nada de novo além das “mumunhas’ de sempre. O encontro de reaproximação de Dilma com Michel Temer (os dois não se falam pessoalmente há mais de um mês) ficou para hoje. Dilma precisa de Temer e do PMDB para se assegurar do enterro definitivo do impeachment. Temer precisa de Dilma e do governo para não perder a presidência do PMDB.
Outros destaques dos
jornais do dia
– “Petrobras discute corte de 30% em áreas gerenciais”
– “OIT: Brasil terá mais 700 mil desempregados em 2016” (Globo)
– “[Ministro Luis] Adams diz ser contra anistia a executivos” (Estado)
– “FHC diz que impeachment ficou mais difícil”
– “Mudança no ICMS prejudica pequenas lojas virtuais” (Globo)
– “Não há demanda por crédito diz [presidente do Bradesco] Trabuco” (Valor)
– “Rejeição a Haddad chega a 56% em São Paulo, segundo o Ibope” (Valor)
LEITURAS SUGERIDAS
- Celso Ming – “Banco prepara virada” (diz que se a reunião do BC decidir por alta dos juros inferior a 0,5 pp tomarão forças suspeitas de que Tombini foi convencido por Dilma a mudar de posição) – Estado
- Adriana Fernandes – “Espaço para especulação” (diz que o comunicado do BC quebra o ritual e o protocolo criados pela própria autoridade monetária em torno do Copom) – Estado
- Editorial – “BC emparedado” (diz que decisão sobre juros envolve custos econômicos mais evidente que os benefícios, mas que comunicação inepta aguça incertezas) – Folha
- Vinicius Torres Freire – “Vai indo que eu não vou” (diz que na véspera de decisão importante BC parece mudar de idéia e quebra outra bússola importante da economia) – Folha
- Cristiano Romero – “O Banco Central na contramão, de novo” (diz que se seguisse o seu modelo Copom deveria aumentar os juros, mas vai ceder a pressões do Palácio do Planalto) – Valor