BBI aponta “outros motivos” para sell-off da Bolsa e vê oportunidade de compra

Correção recente foi provocada por ajuste técnico, alta dos juros futuros e migração de recursos para tecnologia global, e não por deterioração dos fundamentos

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Painel eletrônico mostra cotações de ações na B3, em São Paulo 05/08/2024 REUTERS/Carla Carniel
Painel eletrônico mostra cotações de ações na B3, em São Paulo 05/08/2024 REUTERS/Carla Carniel

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A forte correção das ações brasileiras nos últimos dias abriu uma oportunidade para investidores, na avaliação do Bradesco BBI. Em relatório assinado pela equipe de estratégia para América Latina liderada por Ben Laidler, o banco afirma que o recente movimento de venda na Bolsa brasileira foi impulsionado principalmente por fatores técnicos e de fluxo, sem uma mudança relevante dos fundamentos econômicos ou corporativos do país.

Segundo o relatório, as ações brasileiras acumularam queda de 5% na última semana em moeda local e de 7% em dólares, revertendo parte da forte valorização observada anteriormente e ficando entre 8 e 10 pontos percentuais abaixo do desempenho de mercados emergentes e do índice global ACWI no período.

O movimento teve características típicas de um episódio de aversão ao risco, com as maiores perdas concentradas em ações de perfil mais cíclico e sensível ao crescimento econômico. Entre os destaques negativos estiveram Marcopolo (POMO4), Vamos (VAMO3), Cosan (CSAN3), Magazine Luiza (MGLU3), CSN (CSNA3), Usiminas (USIM5), Smart Fit (SMFT3), Cogna (COGN3), BTG Pactual (BPAC11) e Hapvida (HAPV3).

Por outro lado, as ações em terreno positivo foram lideradas por Santander Brasil (SANB11; apoiado por oferta pública de aquisição/OPA), Fleury (FLRY3), Embraer (EMBJ3) e Cury (CURY3).

Para o BBI, porém, a principal pergunta é o que motivou essa liquidação; o banco destaca que a realização foi liderada por gestores estrangeiros ativos, que passaram a reduzir posições em Brasil e direcionar recursos novamente para ações de tecnologia na Ásia, especialmente após a recente recuperação do setor global de semicondutores.

Ao mesmo tempo, os fluxos passivos para ETFs focados em Brasil seguiram positivos, enquanto investidores institucionais locais mantiveram comportamento estável.

Outro fator que potencializou o movimento foi a baixa liquidez típica do período de verão no hemisfério norte. Segundo o relatório, os volumes negociados na Bolsa brasileira estão menos da metade dos registrados no segundo trimestre, aumentando o impacto de ordens de venda sobre os preços.

Na visão dos estrategistas, o culpado mais evidente para a correção foi a alta da curva de juros doméstica após a divulgação da ata do Copom e de um índice de inflação (IPCA) acima das expectativas.

O movimento levou o mercado a revisar para cima as projeções para a Selic, pressionando especialmente ações mais sensíveis aos juros, que estiveram entre as maiores quedas do período.

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Ainda assim, o BBI avalia que o mercado estaria exagerando na precificação desse cenário. O banco segue vendo espaço para que o ciclo de cortes de juros do Banco Central continue nos próximos trimestres, o que favoreceria justamente os setores que mais sofreram recentemente.

Outro fator apontado pelo relatório foi a volta do apetite global por empresas de tecnologia, especialmente ligadas ao segmento de semicondutores.

Como a Bolsa brasileira possui uma das menores participações de empresas de tecnologia entre os grandes mercados globais, o país acaba perdendo atratividade relativa quando investidores voltam a concentrar recursos nesse setor.

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Ainda assim, o BBI acredita que esse efeito tende a se tornar mais limitado daqui para frente, argumentando que as ações de tecnologia em mercados emergentes já acumulam forte valorização e volatilidade elevada, enquanto o Brasil pode se beneficiar de uma busca maior por diversificação.

Eleições, resultados e recessão não explicam a queda

O banco rejeita a tese de que a recente correção esteja relacionada ao cenário eleitoral de 2026.

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Segundo os estrategistas, as probabilidades de vitória dos principais candidatos pouco mudaram nas últimas semanas e os títulos públicos mais sensíveis ao risco fiscal chegaram a apresentar leve melhora no período. O BBI continua avaliando a disputa eleitoral como bastante equilibrada e considera que essa opcionalidade ainda está subprecificada pelos investidores.

A temporada de balanços também não justificaria o movimento. O relatório destaca que cerca de dois terços das empresas já divulgaram resultados do segundo trimestre, com lucro agregado próximo das expectativas do mercado. Os ganhos avançam cerca de 30% na comparação anual, enquanto as revisões de estimativas permaneceram estáveis.

A casa também vê risco reduzido de recessão, apontando a projeção do Bradesco para o PIB brasileiro de crescimento de 1,9% em 2026 e 1,3% em 2027. Além disso, os indicadores antecedentes apontariam probabilidade abaixo da média histórica de uma recessão no próximo ano.

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No cenário externo, o BBI enxerga um pano de fundo construtivo para ativos brasileiros, citando dólar global enfraquecido, preços do petróleo em níveis equilibrados, commodities ex-energia mais fortes e expectativas de política monetária americana ainda relativamente benignas.

Brasil segue como aposta preferida

Diante desse quadro, o Bradesco BBI mantém recomendação overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra) para Brasil na estratégia latino-americana.

Os estrategistas afirmam enxergar três pilares para a visão positiva: a precificação considerada excessivamente pessimista dos ciclos de juros e eleitoral, valuations extremamente descontados e estabilização dos fluxos para o mercado brasileiro.

Entre os temas preferidos estão ações sensíveis aos juros, empresas ligadas ao mercado de capitais e estatais.

Dentro da carteira modelo, o banco destaca BTG Pactual (BPAC11), XP Inc. (BDR: XPBR31) e Cyrela (CYRE3) como algumas das principais oportunidades criadas pela recente correção. Além disso, os analistas setoriais da instituição mantêm elevada convicção em Vamos (VAMO3) e Smart Fit (SMFT3), que também figuram entre os nomes mais penalizados pelo movimento recente da Bolsa.

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Lara Rizério
Mercados | Economia | Investimentos

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.