Nasce gigante de saúde: como Bradsaúde reconfigura setor e fez Odontoprev subir 13%

Odontoprev ganha uma musculatura de receitas e ativos muito superior, transformando-se de uma small cap de nicho em uma large cap de saúde, levando a uma reclassificação para os ativos

Lara Rizério

Ativos mencionados na matéria

Bradesco e Odontoprev (Foto: Divulgação)
Bradesco e Odontoprev (Foto: Divulgação)

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Uma operação ganha-ganha, mas transformacional para uma das partes. O Bradesco (BBDC4) anunciou uma reorganização societária de grande impacto: aincorporação das operações de saúde do Grupo Bradesco pela Odontoprev (ODPV3), criando assim a Bradsaúde. Com isso, as ações do banco subiam entre 2% e 3% na abertura do pregão, enquanto ODPV3 saltava ainda mais, acima de 26%. Os ativos amenizaram ao longo do dia, seguindo o dia mais negativo do mercado, mas ainda assim tiveram ganhos: BBDC4 fechou com alta de 0,81% (R$ 21,15), enquanto ODPV3 fechou com forte alta de 13,93%, a R$ 14,64.

O movimento visa otimizar a estrutura de capital, gerar sinergias operacionais e consolidar a liderança no setor de saúde suplementar e odontológica, conforme destaca a Genial Investimentos.

Com a mudança, o Bradesco, que já era o controlador, concentra agora suas participações em saúde (incluindo potencialmente a Bradesco Saúde e outras verticais de serviço) dentro da Odontoprev. Já a Odontoprev deixa de ser “apenas” uma operadora dental para se tornar o veículo consolidador de saúde do ecossistema Bradesco.

A Genial ainda aponta os racionais estratégicos – entre eles, o cross-selling (Venda Cruzada). A base de clientes da Bradesco Saúde é massiva e a integração permite uma oferta muito mais agressiva de planos odontológicos para quem já tem saúde e vice-versa. Além disso, há eficiência operacional, com unificação de sistemas, gestão de rede credenciada e redução de despesas administrativas (SG&A). Por fim, está o poder de barganha, com uma estrutura única aumenta a escala nas negociações com prestadores de serviços hospitalares e clínicos.

A casa aponta que, para a Odontoprev, a empresa ganha uma musculatura de receitas e ativos muito superior, transformando-se de uma small cap de nicho em umalarge cap de saúde, levando a uma reclassificação para os ativos.

O BTG Pactual avalia que a companhia passa a ser precificada como plataforma de saúde mais ampla, diversificada e com maior potencial de expansão e de múltiplos.

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Para o Bradesco, é positivo pela simplificação. O banco “destrava valor” ao dar visibilidade e liquidez a um ativo de saúde que antes ficava escondido dentro do balanço consolidado do banco, destaca a Genial.

Olhando para o Bradesco, o Itaú BBA aponta que, além da justificativa estratégica de ter um veículo mais independente, vê dois benefícios potenciais para o banco.

O novo veículo listado poderá ajudar o mercado a apreciar melhor o valor de suas operações de saúde, que apresentaram forte melhora nos últimos anos. Considerando que o novo veículo de saúde seja negociado entre 10 e 12 vezes o P/L (preço sobre lucro) estimado para 2026, em comparação com o P/L consolidado de 7,6 vezes do Bradesco, estimamos que ele possa agregar valor de mercado de R$ 0,80 a R$ 1,50 (acréscimo de 4% a 7%) por ação da BBDC4, excluindo qualquer desconto de participação.

Alternativamente, o P/L estimado para 2026 de 7,6 vezes da BBDC4 hoje seria equivalente a um P/L de 7,0 a 7,3 vezes para o Bradesco, excluindo o segmento de saúde, caso este seja negociado entre 10 e 12 vezes.

“O negócio provavelmente agregará valor ao capital do Bradesco. O ativo está atualmente avaliado em R$ 15,5 bilhões em valor patrimonial nos livros contábeis do Bradesco. Não está claro se o próprio negócio, avaliado em cerca de R$ 30 bilhões, desencadeará uma reavaliação”, avalia. De qualquer forma, vê o BBA, o veículo “independente” certamente abre oportunidades para eventos corporativos que podem agregar capital posteriormente.

Assim, no geral, esta é uma notícia positiva para as ações do Bradesco sob diversas perspectivas, avalia o BBA, que reitera recomendação de compra para BBDC4 e considera uma das principais escolhas entre os bancos brasileiros.

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A equipe do setor financeiro do BTG entende a transação como positiva para o Bradesco. Não se trata apenas de tese de soma das partes, mas de impacto concreto na estrutura de capital. A operação deve fortalecer índices de capital do banco e criar termos de trocas mais atrativos, caso a nova empresa negocie a múltiplos superiores aos do banco. Há ainda potencial de otimização de ativos fiscais diferidos no balanço, melhorando o patrimônio tangível. Vale lembrar que saúde representa cerca de um terço das operações de seguros do Bradesco, enquanto os demais negócios permanecem no banco. O lucro líquido ex-saúde atingiu R$6,7 bilhões em 2025, impulsionado principalmente por vida e previdência.

Como será a nova empresa?

O BTG Pactual ressalta que, na prática, a BradSaúde consolidará Bradesco Saúde, o negócio odontológico, os investimentos hospitalares via Atlântica Hospitais, incluindo a participação e joint venture com a Rede D’Or, além de outros ativos no setor, como Grupo Santa, a participação na Fleury, entre outros projetos. Com free float de 8,65%, o Bradesco deterá 91,35% do capital da nova companhia.

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A partir de 2025, a nova empresa nascerá com aproximadamente R$52 bilhões em receitas e R$ 3,6 bilhões em lucro líquido, implicando ROE (retorno sobre patrimônio líquido) de 23,7%. Pelo fator de troca definido, os acionistas de OdontoPrev deterão 18,65% da nova empresa, sugerindo valuation de cerca de R$38 bilhões. Isso implica múltiplo aproximado de 10x lucro 2025, que consideramos atrativo à luz da escala, rentabilidade e oportunidades de crescimento embutidas.

A nova estrutura deve ampliar a flexibilidade de alocação de capital e facilitar eventuais captações futuras. A BradSaúde terá um free float reduzido, o que pode limitar liquidez no início, mas também cria espaço para ofertas subsequentes em janelas favoráveis.

“A estrutura forma plataforma robusta para acelerar expansão em seguros, hospitais, diagnósticos e outras verticais de saúde. Estrategicamente, o movimento fortalece o posicionamento competitivo do Bradesco no mercado privado, com maior escala, integração e capacidade de financiamento frente aos pares”, avalia.

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Olhando para o setor em geral, o BTG avalia que, nos últimos anos, o setor de saúde perdeu relevância relativa na bolsa brasileira, em meio a desafios operacionais.

“Entendemos que a criação da BradSaúde altera essa narrativa. A nova companhia surge como plataforma grande, bem capitalizada, altamente rentável e estrategicamente diversificada, com valuation inicial atrativo. Um processo de expansão de múltiplos parece plausível à medida que o mercado assimile a nova estrutura e seu potencial de crescimento”, aponta.

Neste sentido, recomenda exposição via ações de OdontoPrev neste estágio, com possibilidade de aumento de posição em eventuais ofertas futuras. “Mantemos Rede D’Or como Top Pick na cobertura, dado seu papel relevante na consolidação do setor e sua relação estratégica com o Bradesco”, conclui.

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Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.