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Batalha das varejistas por mercado bilionário está ganha no Brasil, diz BBI

Mercado Livre levará a melhor e B2W se beneficiará, diz relatório  

Página do Mercado Livre na Web
Mercado Livre

SÃO PAULO – Varejistas são o próximo pelotão a tomar a dianteira na guerra pela carteira eletrônica do brasileiro, mas elas se enganam se pensam que podem transformar o país em uma “nova China” com jovens fintechs tornando-se gigantes dominantes no mercado de crédito mundial. Para o analista Richard Cathcart, do Bradesco BBI, duas empresas têm maior probabilidade de fazer muito dinheiro como fintechs no Brasil: Mercado Livre e, em menor escala, B2W.

Em relatório publicado na última quinta-feira (27), o banco se diz otimista com o potencial do crédito nas mãos de grandes players do varejo, mas nem tanto com a possibilidade de o Brasil replicar o sucesso de empresas como Alipay e WeChat. O motivo principal é o formato do crescimento do e-commerce chinês.

“A maior diferença”, dizem os analistas responsáveis pelo relatório do banco, “é a falta de catalisador no Brasil”. Na China, o e-commerce saltou de 4% das vendas do varejo em 2012 para mais de 20% em 2017. No Brasil, cuja taxa em 2012 era semelhante, este movimento foi quase plano (6% em 2017). Graças a este salto, uma grande parte dos consumidores chineses desbancarizados (sem acesso a tecnologias de pagamento) se viu obrigada a utilizar uma conta digital que substituísse o cartão de crédito.

O oferecimento destes serviços no momento de necessidade do consumidor fez com que o Alipay, da varejista Alibaba, e o WeChat, da Tencent, ultrapassassem rapidamente, em volume, as gigantes Visa e MasterCard em métodos de pagamento no país.

Enquanto isso, o Brasil também tem quantidade relevante de desbancarizados que podem criar uma demanda por plataformas de pagamento que os permitam fazer compras online. “Mas essa não é uma tendência em evidência atualmente”, opina Cathcart. “Também acreditamos na probabilidade de haver alguma resistência entre os consumidores das classes A e B (que corresponde à grande maioria dos gastos no ecommerce), continua.

Por que Mercado Livre

Os maiores e-commerces do Brasil, Mercado Livre, Via Varejo, Magazine Luiza e B2W, estão criando soluções para o mercado de pagamentos, aproveitando suas largas bases de clientes para largar já com um produto relativamente polarizado e aumentar a fidelização. As duas iniciativas mais recentes nesta frente vieram com o Magazine (Magalu Pagamentos) e Via Varejo (parceria com a AirFox).

Primeiro a explorar as possibilidades, o MeLi (com seu Mercado Pago) deve se aproveitar tanto do pioneirismo como da audiência mais relevante que a concorrência: o marketplace da empresa tem, em 2018, volume bruto de mercadorias (GMV, na sigla em inglês) em US$ 26 bilhões, ante US$ 8 bilhões da B2W, US$ 2 bilhões na Via Varejo e US$ 750 milhões para o Magazine Luiza, que lançou esta plataforma apenas no ano passado.

Crédito

Oferecer crédito aos lojistas é a primeira oportunidade em carteiras digitais que já está sendo explorada com afinco no Brasil. Isso porque os pequenos varejistas de marketplace normalmente não têm acesso a crédito em grandes instituições, logo, estão muitas vezes dispostos a pagar juros mais altos pela possibilidade de manter seu negócio em funcionamento. Ao mesmo tempo, o risco para a plataforma credora é baixo, já que a receita das vendas passa por elas antes de chegar ao bolso do tomador.

O MeLi tem um portfólio de crédito de R$ 300 milhões, equivalente a 1,4% do GMV. A própria empresa assume o risco do crédito ofertado via estrutura FIDC. Já a B2W tem capacidade de atingir um portfólio de R$ 500 milhões, 5% do GMV, em 2019 – mas a estrutura é gerida por uma terceirizada, o que minimiza os riscos e os lucros. Magalu e Via Varejo ainda não trabalham com esta possibilidade.

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O BBI estima que a rentabilidade do negócio do MeLi chegue a R$ 3 bilhões em 4 anos, enquanto a B2W poderia chegar a R$ 2 bilhões no mesmo período, a depender do apetite por risco de ambas.

Ecossistema de pagamento alternativo

Na frente do consumidor final, a carteira digital de varejista foi introduzida no Brasil com o Mercado Pago. Inicialmente, ela era utilizada apenas dentro do ambiente do e-commerce, mas recentemente a empresa passou a oferecer pagamento via QR Code em lojas físicas. No primeiro caso, não há intermédio de adquirentes (como Cielo), e todas as transações realizadas no site brasileiro do Meli já utilizam esta tecnologia.

Hoje, o MercadoPago está atrás do PagSeguro em quinto lugar em volume total de pagamentos – a dominância é das fabricantes de maquininhas Cielo e Rede. A oportunidade em transações financeiras não está, porém, na busca pelo marketshare dessas empresas, mas sim no público que paga com papel: dois terços de todo o consumo, de acordo com a ABECS (Associação Brasileira das Empresas de Cartão de Crédito). A chave é, portanto, a pessoa física da base da pirâmide financeira e o micro/pequeno empreendedor – público-alvo do PagSeguro e personagem principal na chamada “guerra das maquininhas”.

Em 2017, 30% da receita do Mercado Livre veio da plataforma de pagamentos, tanto em MDR como em antecipação de recebíveis. Esta frente deve ser grande foco de investimento para a empresa nos próximos anos, e chegada do pagamento em lojas físicas é vista como uma maneira de aumentar a rede de pessoas familiarizadas com a carteira digital – que deve ser o grande foco em alguns anos.

A Ame Digital, da B2W, tem abordagem semelhante no e-commerce: é possível pagar via QR Code na tela, e o cliente pode usufruir de cashback (porcentagem de dinheiro de volta) nas compras como incentivo. Em breve, as unidades físicas das Lojas Americanas podem receber também esta opção de pagamento, esperam os analistas.

No caso das fintechs chinesas, o grande mérito foi a bem-sucedida criação de uma rede de pagamentos em forma de comunidade – basta olhar para o WeChat. É este tipo de abordagem que se espera estar disponível nos players brasileiros em alguns anos, guardadas as devidas proporções.

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