Banqueiros estão todos presos numa armadilha e poderiam lucrar ainda mais, afirma economista

Em entrevista ao Podcast da Rio Bravo, Roberto Luís Troster aponta por que o sistema financeiro nacional está defasado e por que opera abaixo da metade da sua capacidade

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SÃO PAULO – Sempre quando é temporada de resultados, o grande destaque fica para o balanço dos bancos – e para os seus lucros considerados estratosféricos. Porém, isso não quer dizer que as instituições financeiras não enfrentem problemas, ainda mais levando em consideração a sua relação com o consumidor. 

Esses problemas foram apontados pelo economista Roberto Luís Troster ao podcast da Rio Bravo (confira clicando aqui), que apontou que o sistema financeiro nacional está defasado diante dos desafios atuais da economia brasileira. Além disso, esse sistema opera abaixo da metade da sua capacidade, malgrado a percepção de parte da opinião pública de que o lucro das instituições financeiras seja alto. 

Para Troster, “os banqueiros estão todos presos numa armadilha” e ninguém consegue mudar, “como se fossem pescadores que acabam pescando as matrizes”, gerando um equilíbrio perverso. Durante a entrevista, o economista ressaltou por que a perspectiva de lucro dos bancos é positiva, mas não muito – ou seja, eles poderiam lucrar mais. 

Troster destaca ainda a importância do crédito para a renovação necessária do sistema. “É preciso articular todas as peças para que haja crédito bom. Se houver endividamento a juros baratos, e o juro estiver inferior ao retorno dos seus investimentos, quanto mais dívida, melhor”.  Confira a entrevista abaixo:

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Rio Bravo – Quais as diferenças podem ser sinalizadas quando se trata de abordar as funções do sistema financeiro nacional no passado e o sistema financeiro nacional hoje em dia?

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Roberto Troster – O sistema financeiro, e até a intermediação financeira, conta com o ativo, o passivo e a base econômica. É como se fosse a intermediação de qualquer outro bem e serviço.

Na época da inflação elevada, qual era o grande problema? Primeiro, queria se evitar que a economia se dolarizasse. Então, de alguma maneira, tinha que tratar os depositantes a “pão de ló” e era concedida uma série de vantagens, porque naquele momento o que interessava era isso. Segundo, do lado do crédito, o grande tomador de crédito era o governo, e o crédito das empresas era muito mais para capital de giro, porque a compensação demorava vários dias. Esse sistema funcionou muito bem tanto que, quando vieram os bancos estrangeiros, não conseguiram competir com os nacionais. 

Os nacionais continuam sendo os bancos fortes. Só que a inflação acabou em 1º de julho de 1994. Nós já estamos em 2017. Quer dizer, há mais de 23 anos, e é a mesma intermediação ainda. 

Prazos curtos, hoje você deposita, amanhã você já pode resgatar com juros, você isenta a tributação para algumas aplicações, cobra pesadamente do crédito, os prazos do crédito são muito curtos, aí você entra numa dinâmica ruim do sistema. Cada vez os juros são mais altos, mais inadimplência e hoje dois em cada cinco cidadãos – que corresponde a 60 milhões de cadastros de pessoa física – possuem anotação negativa.

 RB – As medidas que o governo brasileiro tomou recentemente com relação ao crédito não foram tão eficazes assim?

RT – O crédito continua encolhendo e essa é a maior prova disso. Quer dizer, [o governo] tomou medidas, mas as medidas não funcionam. Ou o diagnóstico está errado ou a terapia não funciona. E não vai funcionar. Quando foi anunciado, por exemplo, para pessoa jurídica, quando falaram dessas medidas com cartão, eles não falaram…

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Primeiro, o rotativo não caiu, mas as taxas do parcelado aumentaram cinco vezes. Foram de 30 e poucos por cento para mais de 150%. Eles tratam o crédito como se fosse uma questão estática e é uma questão dinâmica.

 RB – No artigo que o senhor escreveu para o Valor Econômico, há a seguinte expressão: “é um sistema perde-perde para o país e para os acionistas dos bancos”. Ainda assim, a percepção, a partir do noticiário econômico, é que os acionistas dos bancos estão levando vantagem nessa. Onde é que está o equívoco de leitura a respeito desse tema?

RT – Essa é uma discussão muito antiga na literatura econômica. Quanto que o dono do moinho deveria ganhar? Quanto o dono da farinha que ele faz deveria ficar? Primeiro, fazendo essa analogia com o moinho, o moinho tem que ser eficiente, não pode perder muito.

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Segundo, se ele extrai muito, fica pouco. Você tem que fazer com que aumente a área plantada, para maximizar o que você colhe. O que ele está fazendo? O contrário. Querendo ficar com muita farinha no começo, todo mundo passa fome e ninguém planta mais. É mais ou menos o que a Argentina de Cristina Kirchner fez com a agricultura argentina. Quis tirar muita renda num prazo curto, o agro encolheu.

RB –  Como o sistema financeiro nacional pode ajudar a explicar, portanto, a derrocada da economia nos últimos anos aqui no Brasil?

RT – Em 2008, 2009, a economia começou a crescer. Já em 2010, que a economia cresceu 7,5%, a inadimplência aumentou mais de 20%. Todos os anos seguintes, a inadimplência aumentou mais do que o crescimento da economia, e o crescimento da economia foi caindo aos poucos e a inadimplência subindo.

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Esse é o grande problema: quando você começa a retirar renda do setor financeiro tem um limite. Aí o que acontece? Com o crédito mais caro, as pessoas se perguntam: “se eu atrasar o imposto, é 30% ao ano. Se atrasar o banco, são 300% ao ano”.

Aí elas atrasam os impostos. Tem pouco capital de giro, então há pouco estoque. Com pouco estoque, poucas vendas, pouco emprego. Você tem que reverter essa dinâmica. Cícero, na Roma Antiga, falava que o crédito é o sangue do sistema, a base do sistema, sem crédito não funciona. Dois mil anos de sabedoria não estão sendo acompanhados.

RB – O senhor também escreveu que a perspectiva de lucro dos bancos é positiva, mas não muito. Por que o lucro está abaixo do potencial?

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RT – São duas coisas. Quer dizer, quanto que se extrai do sistema e quanto o sistema cresce. Na Bolívia, sempre vão ser menores os lucros do sistema bancário porque a Bolívia é 70 vezes menor que o Brasil. O Chile é um sétimo do tamanho do Brasil.

Assim, quanto maior a economia, maior o potencial de lucros. Segundo, na dinâmica de lucros, existe uma dinâmica que faz com que o lucro aumente quando acelera o crescimento. O lucro dos bancos aumenta nessas situações. Então, crescendo pouco numa base baixa, a chance de lucrar muito é crescimento da economia só. O crédito está encolhendo, então há também uma base menor, o retorno menor.

RB – Como é que os bancos têm atuado no sentido de reverter esse cenário? Pergunto isso porque o senhor, também nesse texto publicado pelo Valor Econômico assinala o seguinte: “A política bancária é antiquada”. Quais seriam os mecanismos ou as inovações necessárias para transformar um pouco desse ambiente?

RT – São duas as perguntas. Eu acho que os banqueiros estão todos presos numa armadilha. Quer dizer, ninguém consegue mudar, como se fossem pescadores que acabam pescando as matrizes. Não adianta um parar, todos têm que parar, todos têm que mudar. Então há o que se chama um equilíbrio perverso.

O que eles teriam que fazer? Todos os países que fazem crédito certo, dá certo. Quer dizer, não tem muita originalidade. Acabar com as jabuticabas, que é compulsórios draconianos, tributação, contabilidade, falta de transparência. Se eu falo para você que cobro juro de 12% ao ano, se fizer uma aplicação sai menos de 10%, se é crédito “ah, não, aí você usa taxa ao mês, sai mais de 300%”… Nós temos que começar a acabar com isso. Crédito vem da palavra “credere”. Quer dizer, o crédito responsável, transparente, incentivando a saúde financeira dos cidadãos.

RB – Esse ambiente de transparência está longe de ser alcançado a partir dessa mentalidade dos banqueiros?

RT – Acho que está todo mundo fazendo a mesma coisa, mas transparência é quando você consegue mudar isso do dia para a noite. Uma canetada, muda as regras e começa a operar em outro ambiente. É só isso.

RB – Mas quais outras estratégias seriam viáveis para transformar esse ambiente antiquado da política bancária?

RT – Tem que modernizar. Quer dizer, tinha o entulho autoritário. Tem que tirar todo o entulho regulatório obsoleto. Na questão do crédito, tem que fazer o crédito a prazo longo e custo baixo. Para isso, tem que induzir o crédito responsável, melhorar a transparência. Quer dizer, quando alguém pega um crédito, entender bem o que é, ter um cadastro interativo. Então começa a focar em quem toma o empréstimo e põe toda a tributação do lado do passivo. Quer dizer, por que o depositante paga 0%? Quem recebe juros contribui pouco.

Se você tributa mais as aplicações, o que acontece? Induz o investimento. Depois a liquidez. O Banco Central tem liquidez empossada, com mais de 400 bilhões e regras que obrigam os bancos a ter muita liquidez. Comparativamente, o Brasil é um dos países que têm mais liquidez. Não tem nem sequer um redesconto que funciona, então tem que começar a trabalhar, articular todas as peças para ter crédito bom.

Todo mundo fala “ah, mas já está muito endividado”. Não é ruim, é ótimo. Se você consegue se endividar a um juro barato e se o juro for inferior ao retorno dos teus investimentos, quanto mais dívida melhor. Coincidentemente os países que têm a relação crédito/PIB mais alta são os que têm menos volatilidade no crédito.

RB – Quanto à atuação do governo, boa parte dessas discussões passa no Brasil por um cenário que o governo ainda é o tomador de decisões definitivo nesse contexto. Como essa atuação governamental pode ser ranqueada?

RT – Eu tenho dois exemplos. Continuam insistindo no velho paradigma. Um deles é indexação. Quando está tudo indexado, sobe a taxa de juros, quem é aplicador acaba ganhando mais, fica mais rico ainda, e quem está devendo fica mais pobre ainda. É um sistema que não tem como gerar riquezas, é algo que tem que ser mudado. A TLP, que será instituída nos empréstimos do BNDES, é excelente. Se você tem uma empresa, acredita, capta investimento a longo prazo e tem um problema político no Brasil, o risco do país vai lá em cima, o juro vai lá em cima e o que era um problema político vira um problema econômico.

RB – Então a TLP nesse sentido tem um teto de atuação ou mesmo de alcance para essas empresas tomadoras?

RT – Tem que mudar isso, começar a trabalhar com juros, o juro já é o preço do dinheiro. Se você capta em 5 anos, você empresta 5 anos. Se capta em 30 anos, empresta 30 anos. Se você tem um mercadinho, compra tomate, vende tomate. Compra maçã, vende maçã. Não adianta você ter dinheiro remunerado de curto prazo com liquidez e querer emprestar por longo. Não vai acontecer nunca.

RB – Em uma das minhas perguntas iniciais, eu mencionei essa expressão utilizada pelo senhor, que é o sistema “perde-perde”. De certa maneira, a gente abordou ao longo dessa conversa estratégias possíveis para reverter essa situação.  Quais seriam outros indícios dessa estratégia ganha-ganha ou mesmo algum país aqui na América Latina que tenha adotado uma estratégia que fosse…

RT – Os Estados Unidos fizeram toda uma mudança com Obama e os lucros dos bancos dos Estados Unidos começaram a subir, a participação dos bancos no PIB lá é maior que aqui. Eles começaram a subir porque fizeram mudanças. 

Se você ler uma leitura que eu acho muito boa, que se chama Lombard Street, escrito por Walter Bagehot, ele explica o que tem que fazer, o que é confiança, o que é liquidez, o que é crédito, sua importância. Não é nada tão complicado.

Para calcular, por exemplo, o custo de uma operação de crédito, paga proporcionalmente mais imposto quanto mais alta for a taxa. Faz sentido? E quem paga as taxas mais altas são os mais pobres. Se faz simulações, planilhas, você vê que qualquer tipo de taxa de inadimplência parte dos governos é maior que a dos bancos. Os bancos não reclamam disso.

Nós temos que começar a mudar o paradigma. Essa questão de contabilizar o IOF por fora. Quer dizer, você compra banana, mas o cara da feira fala que a banana é R$ 7, mas tem mais R$ 1 de imposto. Mas o imposto é você que paga. Então tem que começar a pensar nisso. O segredo é fazer a coisa certa só.

RB – Existem novas empresas que têm atuado no mercado financeiro, as fintechs. Como elas ajudam a arejar esse cenário?

RT – Por conta do compliance difícil, os bancos acabaram virando muito pesados. Isso é falado, que aqui tem 3 a 4 vezes mais back offices, que faz a burocracia, do que na Europa. Quando veio a Basileia, na época eu era economista chefe da ABBC. A gente já tinha proposto Basileia ao Banco Central.

Na época, trouxemos o maior especialista em regulação prudencial para o Brasil. E aí a gente comparou o manual de novas instruções, antes era tudo escrito brasileiro com o inglês. O brasileiro pensava 27 vezes mais do que o inglês. Não faz sentido. Que regras fazem sentido e o que não faz sentido? Mais ou menos, no mundo de GPS a gente ainda está usando bússola e mapa.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.