Bancos, assim como cotistas de fundos, também perderam com marcação a mercado

Perdas dos bancos com decisão do BC superou R$ 14,7 bilhões; porém, resultado é apenas contábil e pode ser revertido

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SÃO PAULO – Ao final de maio deste ano, o Banco Central estipulou que os ativos presentes nas carteiras de fundos de investimentos deveriam ser contabilizados pela chamada marcação a mercado. Com isso, muitos gestores foram obrigados a ajustar as cotas, o que acabou gerando variação negativa das mesmas em alguns casos.

Indústria de fundos perdeu R$ 55 bilhões

A decisão pode ser considerada correta, pois visava beneficiar o cotista, uma vez que a antiga contabilização dos ativos, chamada de marcação na curva de juros do papel, não refletia o real patrimônio dos fundos. Desta forma, caso houvesse uma corrida aos bancos e os investidores desejassem sacar seus recursos, por exemplo, o gestor provavelmente não poderia devolver o dinheiro ao cotista com a rentabilidade prometida, prejudicando principalmente quem sacasse por último.

Mesmo assim, a credibilidade e a segurança que os fundos DI e de Renda Fixa transpareciam foi bastante afetada e, com isso, muitos investidores retiraram seus recursos dos fundos e re-direcionaram para outras aplicações. Com isto, a indústria de fundos registrou saídas da ordem de R$ 55 bilhões, ao passo que a caderneta de poupança e o CDB registraram captações recordes nos meses subseqüentes ao ajuste das cotas.

Bancos perderam R$ 14,7 bilhões

Porém, ao contrário do que muitos possam pensar, os bancos também perderam dinheiro com a decisão do Banco Central. Segundo levantamento feito Consultoria Austin Assis, baseada no balanço de 49 instituições financeiras, a obrigatoriedade da marcação a mercado dos títulos públicos, que também são mantidos nas carteiras das tesourarias dos bancos, gerou impacto negativo da ordem de R$ 14,763 bilhões no sistema bancário.

Os maiores perdedores foram os grandes bancos nacionais, visto que grande parte dos títulos da dívida pública brasileira está em poder destas instituições. Com isso, o Banco do Brasil registrou queda de R$ 1,72 bilhão em seu patrimônio líqüido e de R$ 1,36 bilhão em seu resultado do terceiro trimestre deste ano, totalizando perdas da ordem de R$ 3,08 bilhões.

Já o impacto negativo no patrimônio líqüido do Unibanco foi de R$ 540,6 milhões e de R$ 1,17 bilhão no resultado do terceiro trimestre, o que representa perdas da ordem de R$ 1,71 bilhão. Finalmente, o Itaú registrou queda de R$ 317,3 milhões em seu patrimônio líqüido em função da obrigatoriedade da marcação a mercado.

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Contrariando a tendência, alguns bancos estrangeiros foram beneficiados com a decisão do Banco Central. Assim, o Citibank registrou impacto positivo de R$ 1,1 bilhão em seu resultado, enquanto o Deutsche Bank contabilizou ganhos de R$ 1,048 bilhão. Porém, vale citar que os bancos estrangeiros também foram beneficiados, pois possuem, em suas carteiras, grande quantidade de títulos indexados à variação cambial e, frente à forte alta do dólar em 2002, acabaram tendo seus ganhos inflados.

Prejuízo é contábil e pode ser revertido

No entanto, segundo Erivelto Rodrigues, presidente Austin Assis, a maior parte das perdas registradas pelos bancos foi apenas contábeis. Isso porque os títulos públicos, que acabaram sofrendo forte desvalorização com os efeitos da medida, reverteram a tendência de queda nos últimos meses e são atualmente negociados com menor deságio, da ordem de 1%, frente ao deságio de 2,6% verificado em agosto.

Além disso, com os comentários do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, de comprometimento com uma política de austeridade fiscal associada com crescimento responsável, a expectativa bastante pessimista em relação ao novo governo começou a ser revertida e, com isso, os títulos brasileiros foram beneficiados.

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Outro motivo que colaborou para recuperação do preço dos papéis da dívida pública brasileira foi os leilões de recompra de títulos efetuado pelo Banco Central nos últimos meses, o que também deve colaborar para reduzir o impacto negativo da marcação a mercado nos balanços dos bancos nos próximos trimestres.