Resolução do BC: Fintechs devem abandonar ‘Banco’ e ‘Bank’ do nome em até um ano

Resolução do BC atingiu fintechs que usam termos 'Banco', 'Bank' e 'Banking'; pesquisa da TM20 Branding diz que clientes dão mais atenção a outros atributos, como confiança, e menos à solidez

Angelo Pavini

Ativos mencionados na matéria

(shutterstock)
(shutterstock)

Publicidade

A exigência do Banco Central para que as instituições financeiras que não são oficialmente bancos deixem de usar os termos “Bank”, “Banco” ou “Banking” em seus nomes e publicidades deve obrigar muitas empresas a mudarem suas marcas. A resolução foi anunciada na semana passada e levou muita gente a se perguntar o que vai acontecer com a maior dessas instituições, o Nubank (ROXO34).

O BC estima que entre 15 e 20 empresas terão de fazer a mudança, processo que inclui entregar ao regulador um projeto em 120 dias e completar as alterações em um ano. A medida deve ter mais impacto, porém, sobre as fintechs menores ou mais novas, e pode beneficiar os grandes bancos, avalia Eduardo Tomiya, sócio-fundador da TM20 Branding e pioneiro na metodologia de avaliação financeira de marcas do país.

Segundo ele, grandes empresas como o Nubank já estão em outra categoria de avaliação pelos consumidores. “No começo, quando surgiram as fintechs, tinha sempre a questão de o cliente ficar com um pé atrás por não ser banco, mas hoje, diante do porte e do conhecimento da empresa, o fim do uso do termo não vai ter tanto efeito”, diz.

Continua depois da publicidade

Leia mais: As gigantes do Brasil: Conheça as 50 marcas mais valiosas em 2025

Marca valiosa

Tomiya observa que, entre os atributos que diferenciam as instituições e influenciam a escolha dos consumidores, a questão da solidez acabou ficando em segundo plano. Hoje, segundo ele, as principais preocupações dos clientes são com a menor burocracia, a agilidade e a tecnologia.

“O fato de parar de usar o ‘Bank’ não vai afetar tanto e o Nubank deve continuar como a marca mais valiosa do país no setor”, explica, citando o Prêmio As Marcas Mais Valiosas do Brasil 2025, feito pela TM20 em parceria com a Brazil Panels e Elos Ayta e publicado pelo InfoMoney.

Segundo ele, o Nubank usa o termo ‘Bank’ mais como qualificador, e não diferenciador. “O Nubank se diferenciou por outros atributos”, diz. Assim, as pessoas que procuram a instituição não estão tão preocupadas com a solidez.

Segundo Tomiya, o atributo da solidez na categoria tem perdido relevância nos últimos anos. “A solidez entra agora em outro grupo, um nível mais baixo na escala de diferenciação”, explica. “Antes era o primeiro”.

Pesquisa com principais atributos  

Na pesquisa feita pela TM20 Branding e pela Brazil Panels com 500 consumidores em cinco regiões do país para o ranking das Marcas Mais Valiosas, quando perguntado sobre quais atributos mais influenciam na preferência de uma marca contra outra, a solidez, mesmo estimulada pelo levantamento, não aparece entre os nove mais importantes. O principal atributo é a confiança na marca, seguido do atendimento próximo e acolhedor.

Continua depois da publicidade

Atributos estimuladosImportância na preferência (%)
É uma marca que confio17
Atendimento próximo e acolhedor14
Aplicativo fácil de usar e completo12
Tem taxas baixas/não tem taxas9
É onde recebo meu benefício5
Recebo participação nos lucros ou cashback4
É tecnológico e inovador4
É fácil conseguir crédito empréstimos3
Não tem burocracia3
Fonte: TM20 Branding e Brazil Panels.

Apesar disso, a medida do BC deve beneficiar os grandes bancos, “já que a questão da solidez perdeu espaço, mas não é desprezível”, diz Tomiya. “A evolução das fintechs mudou o mercado financeiro brasileiro, a ponto de Itaú e Bradesco copiarem essas empresas buscando aprovação rápida do crédito, tecnologia e facilidades”, acrescenta.

Corrida para virar banco?

Tomiya considera que a medida do BC é importante pois trata de um atributo que é qualificador para a categoria. E, com o fim do uso dos termos ‘Bank’ e ‘Banco’, vão perder mais especialmente as novas fintechs ,que vão entrar agora, ou que ainda estão em desenvolvimento. “Mas a decisão do BC é legítima, pois essas instituições não são bancos”, afirma.

Ele espera também que haja uma corrida de fintechs para pedirem ao BC para se tornarem bancos. “Mas, para pessoa que passa a usar uma fintech hoje, com todo processo regulatório, a questão da solidez financeira perde um pouco de importância para a categoria”, acrescenta.

Continua depois da publicidade

Fim da confusão

Para Luiz Trabuco Cappi, presidente do Conselho de Administração do Bradesco (BBDC4), a decisão do BC de limitar o uso do termo banco está correta. “Se incorpora no seu logotipo a palavra banco, ela pode causar uma confusão que não é adequada”, disse, durante evento do banco nesta terça-feira (2).

Ele admite também uma assimetria no sistema em relação a bancos e fintechs. “Não só em termos de capital mínimo como de compliance e segurança, como a questão das contas coletivas” afirmou.

Já Marcelo Noronha, presidente executivo do Bradesco, acha que a medida tem um lado positivo porque tem uma confusão da população, mas não deve mudar o mercado. “Apenas tira um pouco a confusão que as pessoas fazem, não muda grande coisa para os bancos”, diz.  

Continua depois da publicidade

Empresas afetadas estão analisando medida

O InfoMoney procurou sete empresas financeiras que usam o termo ‘Banco’ ou ‘Bank’ em seus nomes. Apenas duas comentaram a decisão do BC. A maior de todas, o Nubank, informou em nota que “está analisando a nova determinação do Banco Central sobre nomenclatura de instituições financeiras”.

“Reforçamos nosso compromisso histórico e inegociável de seguir rigorosamente toda a legislação e regulamentação vigente no país, respeitando os prazos e as determinações da autoridade monetária”, diz o Nubank, que é hoje uma das maiores instituições financeiras do país, mas não é um banco oficialmente.

A instituição acrescenta que “reforça, ainda, que a norma diz respeito apenas ao nome das instituições e não aos serviços prestados” e que “conta com todas as licenças necessárias para oferecer os produtos atualmente disponíveis em sua plataforma”. “Nossas operações e a oferta de nossos produtos e serviços seguem normalmente, sem nenhum impacto para os clientes.”

Continua depois da publicidade

Já o Stark Bank informou em nota que “já iniciou a avaliação da orientação recém-publicada pelo Banco Central sobre a terminologia que deve ser utilizada pelas instituições do setor”, acrescentando que “nossa atuação sempre foi construída sobre bases sólidas de conformidade regulatória e respeito absoluto às regras do sistema financeiro, e continuamos a operar dessa maneira, como fazemos desde o início”.

Pagbank, Bankly e Altbank Zro Bank não responderam ou não quiseram comentar as medidas. A reportagem ainda aguarda esses retornos e incluirá suas respostas assim que forem enviadas.

Normas rígidas para fintechs

Há, porém, críticas à norma do BC. O advogado Felipe Franchi, presidente e fundador da fintech de soluções financeiras Franchi e professor convidado da UNISINOS, questiona os “excessos normativos”, especialmente na questão da proibição do uso das palavras ‘Bank’ e ‘Banco’ que, segundo ele, pode causar mais confusão do que segurança ao consumidor.

“Ao invés de proteger o consumidor, pode abrir brechas para práticas dissimuladas ou operações ilegais mascaradas sob outras denominações”, diz. “Em alguns casos, poderia até ser mais coerente exigir que os correspondentes e estruturas BaaS (Bank as a Service) deixem claro o termo ‘Bank’, justamente para evitar erro ou má-interpretação”.

Para ele, “talvez o problema seja a falta de diretrizes mais rígidas para ingresso e funcionamento das estruturas BaaS, que são essenciais ao ecossistema financeiro moderno e desempenham um papel legítimo na ampliação da oferta de serviços bancários no país.”