Banco Mundial: guerra no Irã pode reduzir crescimento global a 1,3% em 2026

O economista-chefe da instituição aponta risco de juros mais altos, crise alimentar em países pobres e endividamento crítico nas economias emergentes com a guerra prolongada

Reuters

(Foto: Stringer / Reuters)
(Foto: Stringer / Reuters)

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WASHINGTON, 22 Jul (Reuters) – A escalada das hostilidades entre ⁠os Estados Unidos e o Irã pode reacender a inflação, elevar as ⁠taxas de juros e fazer com que o crescimento global caia para até 1,3%, ante 2,9% ‌no ano passado, afirmou o economista-chefe do Banco Mundial, Indermit Gill, à Reuters.

Gill, que se aposenta no final de agosto, disse que o banco modelou três resultados em sua previsão econômica de junho, dada a incerteza ‌elevada em torno da guerra no Oriente Médio. Mas o pior cenário possível, com as hostilidades se estendendo por seis meses ou mais, já está prestes a se concretizar, afirmou ele em entrevista na noite de terça-feira. Nesse cenário, a inflação global geral chegaria a 4,5%.

Conflitos prolongados e danos à infraestrutura petrolífera da região também agravarão a insegurança alimentar ao interromper os embarques de fertilizantes, hélio e enxofre, desencadeando uma cadeia de efeitos secundários que pode ⁠incluir ‌taxas de juros mais altas, disse Gill.

Os comentários dele são os primeiros de uma autoridade de alto escalão ⁠do Banco Mundial desde o aumento acentuado das tensões entre Washington e Teerã e o colapso do acordo de cessar-fogo de abril, que havia alimentado esperanças de um impacto menos severo do conflito.

A guerra se intensificou nesta semana, com as forças norte-americanas bombardeando alvos no sul e no oeste do Irã, e Teerã atacando instalações dos EUA no Barein, no Kuweit e na Jordânia. O tráfego marítimo no Estreito ​de Ormuz continuou interrompido, e os houthis do Iêmen, alinhados ao Irã, anunciaram um bloqueio naval aos embarques da Arábia Saudita pelo estreito de Bab el-Mandeb, que dá acesso ao Mar Vermelho.

Gill disse que ​os países pobres que ainda não se recuperaram da pandemia da Covid-19 podem enfrentar maior insegurança alimentar, enquanto nações com altos níveis de endividamento serão afetadas pelo aumento dos custos de financiamento à medida que as taxas de juros sobem, reduzindo os gastos com educação, saúde e outros serviços essenciais.

“Minha impressão pessoal é que talvez estejamos a alguns meses disso, sabe, porque ainda não começamos a ver as taxas de juros de referência ‌subindo”, disse ele. Assim que a inflação acelerar, pode demorar apenas alguns ​meses até que países altamente endividados enfrentem graves problemas para honrar os pagamentos do serviço da dívida, afirmou ele.

Sinais de tensão estão surgindo. Alguns países com dificuldades financeiras solicitaram ao Fundo Monetário Internacional o aumento dos empréstimos existentes, e o Paquistão pediu esta semana aos ⁠Estados Unidos uma linha de estabilização cambial ​de US$10 bilhões, segundo uma ​fonte a par do assunto.

A previsão de junho do Banco Mundial mostrou que 40% dos países de baixa e média renda já estavam ⁠em situação de sobreendividamento ou corriam alto risco de entrar ​nela.

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Isso equivale a 32 países, mas o número pode aumentar rapidamente se as taxas de juros subirem, disse Gill, acrescentando que outros países podem ver suas perspectivas de crescimento de longo prazo diminuírem, mesmo que não deem default em suas dívidas.

“É simplesmente um ​desastre em câmera lenta”, disse Gill, observando que os países que pagarem o serviço da dívida acabarão esgotando recursos destinados à educação, saúde e outras áreas necessárias para impulsionar o crescimento ​futuro.

A relação média entre dívida e ⁠PIB para países de mercados emergentes e em desenvolvimento era de cerca de 74% em 2025, bem acima dos índices próximos a 50%-55% registrados ⁠antes da pandemia que teve início no final de 2019, de acordo com dados do Banco Mundial. Para países de baixa renda, a relação era de 67%, ante cerca de 40%.

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Alguns países precisarão de perdão da dívida, analisado caso a caso, disse Gill.

Ele observou que as maiores economias do mundo — Estados Unidos, China e Índia — permanecem relativamente protegidas do impacto da guerra, cada uma se beneficiando de diferentes fontes de resiliência. Os países em desenvolvimento, no entanto, enfrentam desafios ​maiores.