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Novas medidas para dar suporte ao agronegócio estão no radar dos investidores. Contudo, o JPMorgan avalia como ambíguos para o Banco do Brasil (BBAS3) os efeitos da proposta do governo brasileiro de criar novas linhas de crédito subsidiadas para o agronegócio, apontando que a medida pode tanto melhorar a qualidade dos ativos quanto aprofundar riscos estruturais no sistema financeiro.
Em relatório publicado nesta semana, o banco aponta que o projeto em discussão – que prevê a renegociação de até R$ 180 bilhões em dívidas rurais com juros reduzidos – ainda levanta incertezas relevantes sobre seu formato final e seus impactos para as instituições financeiras, sobretudo para o Banco do Brasil, principal financiador do setor.
A proposta, que tramita no Congresso, busca permitir o refinanciamento de dívidas do agronegócio com taxas entre 3,5% e 7,5% ao ano e prazos longos, incluindo até 10 anos para pagamento e carência de até três anos.
Na avaliação do JPMorgan, a iniciativa pode ajudar produtores afetados por eventos climáticos recentes e contribuir para estabilizar a inadimplência no setor. Caso os bancos tenham flexibilidade para priorizar operações em atraso ou já problemáticas, o programa poderia gerar ganhos mais rápidos na recuperação de crédito.
Essa dinâmica é particularmente relevante para o Banco do Brasil, que concentra grande parte da carteira de crédito rural no país e já acumula um volume significativo de operações reestruturadas ou prorrogadas.
A análise aponta que cerca de R$ 172 bilhões em créditos ligados ao agronegócio apresentam algum tipo de fragilidade, incluindo renegociações e operações com prorrogação de pagamento.
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Margens e risco de crédito no radar
Apesar de potencialmente benéfico, o JPMorgan chama atenção para dúvidas centrais sobre o modelo econômico da proposta, incluindo como será feita a equalização das taxas subsidiadas – isto é, quem arcará com a diferença entre o custo de financiamento e os juros cobrados aos produtores.
Hoje, operações de crédito rural geram uma margem líquida de juros (NIM) próxima de 4% para o Banco do Brasil, e a incerteza sobre o mecanismo de compensação pode afetar diretamente a rentabilidade da carteira.
O texto atual ainda indica que o risco de crédito permanecerá com os bancos, diferentemente de outros programas recentes, como o Desenrola, que contaram com garantias governamentais. Isso levanta preocupações sobre um eventual desalinhamento entre risco e retorno nas novas operações.
O impacto sobre o capital regulatório também é um ponto de atenção. Como as novas linhas podem alongar o prazo dos financiamentos, com períodos de carência e amortização mais extensa, os empréstimos tendem a permanecer por mais tempo no balanço das instituições.
Segundo o JPMorgan, caso o Banco do Brasil detenha cerca de metade do volume potencial do programa — algo próximo de R$ 90 bilhões — isso poderia gerar pressão adicional sobre o capital, com impacto estimado de até 60 pontos-base no índice CET1, dependendo da estrutura final da operação.
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Ainda que esse efeito possa ser diluído ao longo do tempo, a maior duração das operações implica uma exposição prolongada ao risco de crédito e maior consumo de capital.
“Moral hazard” preocupa
O JPMorgan também levanta preocupações sobre o risco de incentivos distorcidos no setor. O novo programa viria na esteira de outra rodada recente de renegociação de dívidas rurais, o que pode gerar um ambiente de expectativa recorrente por socorro governamental.
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Para os analistas, a repetição frequente desses programas pode incentivar comportamentos de maior risco por parte dos tomadores de crédito, reduzindo a disciplina financeira no médio prazo.
Neste cenário, o JPMorgan mantém uma visão cautelosa sobre os desdobramentos da medida, afirmando que ainda é cedo para determinar se o impacto líquido será positivo ou negativo para o Banco do Brasil.
A avaliação final dependerá de detalhes ainda não definidos, como o desenho do subsídio, a eventual participação do governo no risco das operações e a forma de remuneração dos bancos.
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Enquanto isso, o banco destaca que os investidores devem acompanhar de perto a tramitação do projeto e eventuais alterações em sua estrutura, já que o programa pode alterar de forma relevante o perfil de risco e retorno da principal carteira do Banco do Brasil.
A recomendação do JPMorgan é neutra para as ações, com preço-alvo de R$ 26.
