JPMorgan mantém cautela com BB, rebaixa “bond”, mas segue com uma recomendação

JPMorgan vê prêmio atrativo apenas no título BANBRA 5,625% 2031, única recomendação acima da média na curva do banco.

Equipe InfoMoney

Ativos mencionados na matéria

(Foto: REUTERS/Adriano Machado/Foto de arquivo)
(Foto: REUTERS/Adriano Machado/Foto de arquivo)

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A qualidade dos ativos do Banco do Brasil (BBAS3) segue como principal ponto de atenção para investidores, segundo relatório do JPMorgan sobre os resultados do primeiro trimestre de 2026 e a curva de títulos do banco. Apesar de uma receita resiliente e boa disciplina de custos, o aumento das provisões para calotes, a piora da inadimplência e a dependência de instrumentos regulatórios para sustentar o capital continuam pressionando a lucratividade da instituição.

O banco americano destaca que o cenário é, em grande medida, uma continuidade dos trimestres anteriores: lucros pressionados por crédito de pior qualidade, capitalização sob erosão gradual e um ambiente ainda desafiador para a carteira de risco. Ainda assim, o JPMorgan vê valor em um papel específico da curva do BB: o título BANBRA 5,625% com vencimento em 2031, única recomendação “overweight” (acima da média do mercado) para a instituição no momento. O título BANBRA 6,25% com vencimento em 2030, por sua vez, foi rebaixado de “overweight” para “neutro”.

Crédito lento e foco em linhas mais seguras

A carteira ampliada de crédito do Banco do Brasil cresceu apenas 0,7% na comparação trimestral e 2,2% em relação ao mesmo período de 2025, alcançando cerca de R$ 1,3 trilhão – mais próxima do piso do guidance de crescimento para 2026.

O avanço foi puxado sobretudo pelo agronegócio, cuja carteira subiu 3% no trimestre, e pelo crédito ao consumidor, que teve alta de 1,4% no trimestre e 7,7% em 12 meses, com foco em linhas consideradas mais seguras, como consignado e hipotecas. Em sentido oposto, o crédito corporativo encolheu 2,2% no trimestre e 6,2% em um ano, em linha com a estratégia mais conservadora do banco nesse segmento.

Inadimplência ainda elevada e provisões em alta

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Os indicadores de qualidade de ativos seguem em terreno preocupante, avalia o JPMorgan. A inadimplência de 90 dias atingiu 5,0% no 1º trimestre, acima dos 3,5% observados um ano antes, apesar de uma leve melhora trimestral. Essa melhora, porém, é explicada em grande parte pela venda de cerca de R$ 3,6 bilhões em créditos corporativos inadimplentes, e não por um ganho estrutural na carteira.

No varejo e no agronegócio, a situação continua se deteriorando, com crescimento tanto da inadimplência quanto dos créditos classificados como Stage 3 (os de maior risco). As baixas a prejuízo (charge-offs) praticamente dobraram em 12 meses, reforçando a percepção de que a pressão sobre a carteira de crédito está longe de ser pontual.
Diante desse quadro, o Banco do Brasil revisou para cima seu guidance de despesas de provisão para 2026. A faixa estimada passou de R$ 53–58 bilhões para R$ 65–70 bilhões, após o banco observar recuperações (collections) cerca de 25% abaixo do esperado em abril. O JPMorgan classifica esse aumento de provisões como o principal ponto negativo do resultado, por indicar que os ventos contrários de crédito devem continuar ao longo do ano.

Capitalização depende de medidas regulatórias

Embora o Banco do Brasil continue acima dos mínimos regulatórios de Basileia, o JPMorgan chama atenção para a qualidade dos fatores que sustentam o índice de capital. O índice de capital total (CAR) caiu para 14,2% no trimestre, com CET1 em 11,6%, ambos em queda frente ao final de 2025.

A redução reflete aumento de ativos ponderados pelo risco, mudanças regulatórias (como o fim de programas anticrise da pandemia) e maiores ajustes prudenciais ligados a créditos tributários. Parte da “folga” de capital vem da Medida Provisória 1.314, que tem efeito positivo sobre os índices, mas é vista como uma forma de suporte regulatório de menor qualidade. O banco americano também ressalta a baixa densidade de RWA (risco), o que, em sua visão, torna a robustez de capital menos sólida do que os números sugerem à primeira vista.

Do lado da receita, o desempenho segue positivo. A margem financeira (NII) subiu 14,8% em 12 meses, e o NIM (margem sobre ativos) avançou de 4,5% para 4,9%, impulsionado por maior participação de crédito ao consumidor e melhor resultado de margem com o mercado. O banco, inclusive, revisou para cima seu guidance de crescimento de NII, que agora aponta para expansão entre 7% e 11%.

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As despesas operacionais permanecem sob controle, com alta moderada, o que mantém a relação custo/receita em patamar considerado saudável. Mesmo assim, a combinação de provisões recordes, maior nível de litígios e menores “outras receitas” levou a mais um trimestre de baixa rentabilidade, com retorno sobre o patrimônio (ROE) em torno de 7%.

Curva de títulos

Apesar de manter visão predominantemente neutra sobre a curva de títulos do Banco do Brasil, o JPMorgan identifica uma oportunidade específica no papel BANBRA 5,625% com vencimento em 2031. Segundo o banco, a combinação de spread, preço e duration torna esse título mais atrativo do que outros da própria curva do BB e do soberano brasileiro.

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O papel é negociado ligeiramente abaixo do valor de face, oferece um z-spread cerca de 50 pontos-base acima do soberano e apresenta ganho em relação a outro título do BB com vencimento similar (BANBRA 6,0% 2031), por um acréscimo modesto de duration. A taxa de retorno até o vencimento (YTW) estimada é de 5,7%, acima dos 5,5% do papel comparável.

Nesse contexto, o BANBRA 5,625% 2031 é a única recomendação “overweight” do JPMorgan para o Banco do Brasil.

Rebaixamento do título para 2030

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Já o título BANBRA 6,25% 2030 foi rebaixado de “overweight” para “neutro”. O JPMorgan argumenta que o título teve forte performance recente, com compressão de cerca de 26 pontos-base no spread, e hoje negocia em níveis considerados justos: ele chega a ser mais caro do que outros papéis da mesma curva e, embora ainda pague prêmio em relação ao soberano, esse diferencial não é visto como suficiente para justificar uma posição acima da média.

O BANBRA 4,875% 2029 também permanece com recomendação neutra. Para o banco, o papel está “apertado” dentro da curva do BB, com pouco prêmio sobre o soberano, ainda que pareça razoavelmente alinhado quando comparado a títulos de bancos da região e ao diferencial de risco entre Brasil e México.

Volatilidade eleitoral

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O JPMorgan lembra ainda que, em um ambiente de spreads de crédito relativamente apertados no Brasil, o risco de volatilidade eleitoral não é plenamente refletido nos níveis atuais. Esse fator é considerado particularmente relevante para o Banco do Brasil, por ser uma instituição controlada pelo governo federal.

Por isso, mesmo reconhecendo que os títulos do BB negociam com prêmio em relação a bancos privados, o banco americano prefere manter postura cautelosa na maior parte da curva, recomendando exposição acima da média apenas no BANBRA 5,625% 2031.