Banco Central está “dovish” e o Fed, “hawkish”. O que isso significa?

Autoridades monetárias do Brasil e dos EUA cortaram ontem os juros básicos de suas economias, mas a diferença na postura delas deve afetar os mercados; entenda

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SÃO PAULO — O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, animou os investidores ontem (31) ao reduzir a Selic em 0,5 ponto percentual, para 6% ao ano — o menor nível histórico. A sinalização da autoridade brasileira foi de que novos cortes do juro básico virão, e devem ser tão grandes quanto o desta semana. 

No mesmo dia, nos Estados Unidos, o Fomc, o comitê de política monetária do Federal Reserve, também promoveu um corte de juros. Mas, por lá, a notícia gerou cautela — a redução da Fed Funds Rate para o intervalo entre 2% e 2,25% ao ano foi menor do que o corte previsto por analistas. E o discurso confuso do presidente do Fed, Jerome Powell, levantou dúvidas sobre a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário no país.

Embora as duas autoridades monetárias tenham cortado os juros, a avaliação geral é de que o BC brasileiro está com uma postura mais “dovish”, enquanto o Fed se mostra “hawkish”. Mas você sabe a diferença entre esses dois termos?

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O termo “dovish” é um neologismo que deriva da palavra pombo em inglês (dove), que reflete uma postura mais favorável a taxas de juros mais baixas e menor preocupação com a inflação. Já o termo “hawkish” é o contrário. Ele deriva do termo falcão em inglês (hawk) e define os defensores de juros mais altos e de uma política de austeridade mais forte.

Com a economia ainda patinando para voltar a crescer e com a inflação abaixo da meta do governo, o Banco Central brasileiro pode ser “dovish” e manter os juros baixos por um período mais longo de tempo a fim de estimular uma retomada econômica. Os juros mais baixos tendem a impulsionar a atividade por meio de crédito mais barato e estímulo ao consumo. 

De acordo com o Conselho Monetário Nacional (CMN), o centro da meta do governo para a inflação em 2019 é de 4,25%. No acumulado do ano até junho, o IPCA — índice oficial de preços no Brasil — somava alta de 2,23%. A versão mais recente do Boletim Focus do Banco Central indica uma inflação de 3,80% em 2019, segundo as projeções do mercado. 

Ou seja, há espaço para a política monetária mais acomodativa do BC — mesmo que isso pressione um pouco a inflação no médio prazo, ela não deve ultrapassar o teto da meta do governo, segundo economistas. A tolerância é de 1,5 ponto percentual em relação ao centro da meta, o que quer dizer que o IPCA ficaria dentro do esperado se subir entre 2,75% e 5,75% neste ano.  

Já nos Estados Unidos o quadro é outro. Por lá, o mercado já dava como certo o corte anunciado nos juros para tentar blindar a economia americana contra os efeitos potencialmente nocivos de uma desaceleração do crescimento da China e da Europa e também contra as incertezas causadas pela guerra comercial do presidente Donald Trump. 

A posição bastante “hawkish” do presidente do Fed, porém, pegou a todos de surpresa. A porta para mais um improvável corte de juros nos EUA ficou aberta, mas Jerome Powell deixou claro que, se a economia ratear, o banco central do país não está pronto para sustentar um ciclo de afrouxamento monetário profundo — como é foi feito várias vezes no passado para evitar ou compensar recessões.

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Além do mercado, o próprio Trump não gostou da decisão do Fomc. Em sua conta no Twitter, o presidente dos EUA escreveu “como de costume, Powell nos decepcionou”. O presidente do Fed disse em entrevista após a decisão do Fomc que a guerra comercial travada por Trump continua a assustar as empresas americanas. 

A economia dos EUA cresceu a uma taxa anualizada de 2,1% no segundo trimestre deste ano — acima da expectativa de analistas consultados pela Bloomberg, que esperavam uma taxa de crescimento de 1,8% no período. Nos primeiros três meses do ano, o país já havia avançado 3,1%. Mas, apesar da alta do consumo, os investimentos vieram fracos e as exportações caíram.  

A diferença de discurso entre o Banco Central do Brasil e o Fed pode gerar pressão nos mercados, especialmente o de câmbio, com a sinalização de que os juros nos EUA não devem cair mais e, por aqui, com a expectativa de que a Selic continuará sendo reduzida, o diferencial entre as taxas vai ficar menor. 

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Isso significa que o prêmio de risco, o que estimulava investidores estrangeiros a aplicar no Brasil em vez de deixar o dinheiro rendendo pouco nos EUA, ficou menor. Uma possível diminuição na entrada de dólares no Brasil pode reduzir a oferta da moeda, pressionando sua cotação sobre o real. Resta saber se os cenários vão se confirmar ou não.

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