Temporada começou!

Balanços nos EUA: impacto da inflação nos custos das empresas e capacidade de repassar preços dão o tom da temporada do 1º tri

Com a guerra na Ucrânia, commodities mais caras e juros mais altos marcaram os três primeiros meses do ano das companhias

Por  Mitchel Diniz

A temporada de balanços corporativos nos Estados Unidos começou oficialmente nesta quarta-feira (13) e os bancos, como de costume, deram o pontapé inicial na divulgação dos números. O JP Morgan foi o primeiro, reportando lucro líquido de US$ 8,3 bilhões no primeiro trimestre de 2022, uma queda de 42% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior.

Os três primeiros meses deste ano foram marcados por uma deterioração do cenário inflacionário americano, com a invasão da Rússia à Ucrânia gerando o maior conflito armado desde a segunda guerra mundial e elevando ainda mais os preços das commodities, que já vinham em ascensão. Foi também no primeiro trimestre do ano que o Federal Reserve elevou os juros da economia americana pela primeira vez desde 2018, iniciando um ciclo de aperto monetário que pode ser mais agressivo do que se pensava inicialmente.

“As perspectivas para esta temporada são mais modestas, com expectativas de uma desaceleração no crescimento de lucros das empresas, após uma subida de mais de 30% no trimestre anterior”, afirma Jennie Li, estrategista de ações da XP, em relatório assinado com os analistas Rafael Nobre e Pietra Guerra. No quarto trimestre do ano passado, a média dos lucros ficou 4,2% acima do esperado e o período foi visto como o início de um movimento de normalização dos resultados, voltando para patamares pré-pandemia.

“Segundo as estimativas do S&P 500, o crescimento de lucro por ação do índice consolidado [no primeiro trimestre de 2022] deve ser de 7,4% em comparação com o primeiro trimestre de 2021, mostrando uma desaceleração em relação aos trimestres anteriores”, afirma a equipe de análise da XP.

O destaque positivo fica para a indústria de óleo e gás, com a alta das commodities, enquanto é esperado que as principais quedas de lucros venham das empresas de consumo discricionário e do setor financeiro.

“Nesse último caso, um fator que contribui para tal declínio é o crescimento das provisões para perdas com empréstimos no 1º trimestre de 2022 em relação ao 1º tri de 2021. Essa dinâmica é aguardada pelo mercado, frente um cenário pós pandêmico com o macro mais desafiador”, diz a análise da XP.

A expectativa para o faturamento das companhias do índice S&P 500 é de expansão de 10,4%, menor crescimento desde o final de 2020. O desempenho tem a ver com uma base de comparação desafiador, já que números fortes foram reportados em 2021 e o cenário macroeconômico do primeiro trimestre deste ano ficou menos favorável.

Nos resultados do primeiro trimestre, o investidor deve olhar com atenção para os efeitos de custos maiores (reflexo da inflação) e a capacidade das empresas em repassar preços mais altos para proteger margens de lucro. As projeções (guidance) das companhias para os próximos trimestres também são bastante aguardadas.

“O primeiro trimestre provavelmente marcará uma redefinição de expectativas. Os analistas esperam margens recordes entre o segundo e quarto trimestre desde ano, com ganhos acelerando em 2023. Mas a história mostra que os choques do petróleo demoram de três a quatro trimestres para gerarem consumo mais fraco, o que indica que deve haver uma desaceleração no segundo semestre deste ano”, diz análise do Bank of America, assinada por Savita Subramanian.

“O principal destaque é a inflação e a gente ainda deve ver um crescimento das receitas e dos lucros, mas com uma revisão do crescimento pra baixo nos próximos meses, com incertezas politicas e inflacionárias preocupando o mercado”, afirma Guilherme Zanin, estrategista da Avenue.

Bancos devem lucrar menos

O resultado do JPMorgan confirmou uma tendência. A análise da Levante Ideia de Investimentos cita dados da Refinitiv que apontam para uma queda de aproximadamente 2% no lucro líquido dos bancos no primeiro trimestre de 2022 em relação ao trimestre imediatamente anterior. “Esta compressão seria advinda de uma redução no número de operações de fusões e aquisições (M&A), IPOs e emissão de dívidas, impactando assim o resultado dos bancos”, explica a Levante.

A redução dessas operações impacta, sobretudo, os bancos de investimento, como JPMorgan e Goldman Sachs. E ainda que a escalada de juros nos Estados Unidos jogue a favor das receitas das instituições financeiras, a volatilidade dos mercados, acentuada pela guerra na Ucrânia, resulta em perdas para as mesas proprietárias. O relatório da Levante destaca o Citigroup, que tem aproximadamente US$ 9,8 bilhões do seu balanço exposto ao mercado russo. O banco estima perdas de metade desse valor em algumas simulações de risco.

“Já os bancos de varejo tendem a se beneficiar mais, pois as pessoas estão começando a pegar crédito, com juros maiores e essas instituições passam a ter margens maiores também”, afirma Guilherme Zanin.

Na avaliação do Morgan Stanley, os ventos estão a favor dos bancos, com juros mais altos e um aumento no volume de empréstimos. Porém, os riscos aumentaram com a guerra na Ucrânia e a probabilidade de uma recessão, caso o Federal Reserve suba os juros muito rápido para conter a inflação.

“Esperamos que os resultados venham com muita volatilidade, pois os juros mais altos e o aumento dos empréstimos devem bater de frente com preocupações a respeito do crescimento de provisões e recompras mais baixas”, escreveu a equipe de análise.

O Morgan Stanley também vê os bancos de varejos como maiores beneficiados com esse cenário de juros mais altos, e destaca alguns nomes como Wells Fargo, Bank of America e SVB Financial Group.

Atualizações sobre gargalos

Na Nextep Investimentos, gestora que atua exclusivamente com portfólios de ações globais, os números das empresas no primeiro trimestre devem sanar questionamentos a respeito da organização das cadeias de suprimento global. “As disrupções nas cadeias de suprimento aumentam os custos das companhias e refletem negativamente na logística. Temos visto as empresas dizerem que, em 2022, esses impactos tendem a ser menores do que em 2021”, afirma Maria Antonia Viuge, analista sênior da Nextep investimentos.

O setor de tecnologia, um dos que mais sofreram este ano na Bolsa, tende a ser impactado por elevação de custos de funcionários (visto que a inflação americana tem respondido diretamente ao aumento de salários) e das taxas de juros, o que aumenta o custo da dívida dessas empresas. “Porém, é importante ressaltar que os juros devem chegar a 2% ou 3% no final do ano e essas empresas vão continuar se financiando com juros historicamente baixos”, diz o estrategista da Avenue.

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