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SÃO PAULO – Ao contrário do que muitos pensam, uma análise do comércio exterior brasileiro revela que o bom resultado da balança comercial brasileira no acumulado até outubro de 2002 não se deve ao crescimento das exportações, mas principalmente a uma forte queda das importações.
A expressiva desvalorização do real, com a conseqüente redução do poder de compra de brasileiros no exterior teve seus efeitos intensificados com o desaquecimento do nível de atividade da economia, já abalado pela crise de energia e das atuais incertezas políticas, deprimindo as compras externas.
Por outro lado, a própria depreciação do real, que iniciou o ano cotado a R$ 2,315, fechando nesta terça-feira a R$ 3,85, uma alta de 66,30%, desempenhou um papel extremamente favorável para as exportações, apesar do lento crescimento da economia mundial e da crise da Argentina, um dos principais parceiros comerciais do Brasil.
Importações brasileiras caíram 17,6% em 2002
Dados do Ministério do Desenvolvimento e Comércio Exterior revelam que as importações brasileiras passaram de US$ 44,420 bilhões para US$ 36,432 bilhões no acumulado de janeiro a outubro, uma significativa queda de 17,6%.
No mesmo período, as exportações registraram uma redução bem mais tímida, de apenas 1,7%, caindo de US$ 45,447 bilhões para US$ 44,654 bilhões. Com isto, o saldo da balança comercial brasileira já soma um saldo positivo de US$ 8,222 bilhões, muito superior ao US$ 1,227 bilhão de 2001.
Redução nas compras externas é generalizada
Dados consolidados de 2002 até agosto mostram que, dentre a pauta de compras externas da economia brasileira, o maior destaque ficou com a redução em 20,97% das importações de bens de consumo, que caíram de US$ 4,998 bilhões para US$ 3,950 bilhões.
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Já as importações de bens de capital passaram de US$ 10,2 bilhões para US$ 8,248 bilhões, uma forte queda de 19,21%. Por sua vez, as compras de matérias primas e produtos intermediários variaram negativamente de US$ 19,578 bilhões para US$ 15,661 bilhões, uma redução de 20,01%. A menor diminuição se deu nos combustíveis, com queda de 9,05%, de US$ 4,164 bilhões para US$ 3,787 bilhões.
Petróleo continua sendo principal bem importado
Ainda que as importações de petróleo tenham sofrido uma diminuição de 7,29%, a commodity continua sendo o principal produto importado pelo Brasil, chegando a um total de US$ 1,922 bilhão até agosto. Em segundo lugar estão as compras de motores, geradores e transformadores, que registraram uma alta de 68,42%, para US$ 1,277 bilhão, em função principalmente das medidas contra a crise de energia.
Outros bens com grande montante de importação são peças para veículos automotores e tratores, com US$ 936 milhões (-18,08%), medicamentos, com US$ 912 milhões (+5,15%) e circuitos integrados e microconjuntos eletrônicos, com US$ 810,8 milhões (-23,10%).
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Já as maiores quedas relativas ao mesmo período de 2001, de janeiro a agosto, foram registradas pelos itens naftas (-64,83%), automóveis (-52%) e também motores para automóveis e suas partes (-29,06%).
Bens de capital registram forte redução na pauta de importações
Uma análise do comportamento do comércio exterior, apesar do resultado positivo, traz sinais de preocupação quanto ao futuro da economia brasileira. A expressiva diminuição da quantidade de bens de capital importados reflete as incertezas dos investidores quanto ao futuro do Brasil, o que acaba induzindo um menor nível de investimentos.
Desta forma, embora seja prematuro afirmar a existência de uma tendência consistente de redução das inserções na economia, dada a curta abrangência dos dados em questão, a manutenção da queda da importação de bens de capital pode significar, no médio prazo, uma menor capacidade de crescimento econômico, além do atraso tecnológico da economia brasileira.
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Desvalorização do real sustenta exportações em 2002
O fim do período de crescimento da economia norte-americana, que pendurou durante a maior parte dos anos 90, acarretou a abrupta desaceleração do ritmo de crescimento da economia mundial, diminuindo os mercados para os exportadores.
Além disto, os atentados de 11 de setembro, somados as crises de confiança sofridas pelo mercado acionários nos EUA, abalaram ainda mais o nível de atividade da economia mundial, prejudicando seriamente países com forte necessidade de aumentar suas exportações, como o Brasil.
No entanto, com a desvalorização do real, decorrentes das incertezas dos investidores com o futuro do Brasil após as eleições, as vendas externas brasileiras ganharam novo fôlego, aumentando drasticamente sua competitividade. Com isto, a fragilidade da moeda brasileira acabou refletindo positivamente no seu desempenho comercial, sustentando o nível de exportações.
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Com exceção das exportações de combustíveis, exportações caem
O único grupo da pauta de exportações brasileiras a registrar crescimento até agosto do ano corrente foi o grupo dos combustíveis, acelerando-se 12,07%, impulsionados pelas vendas de óleos brutos de petróleo.
Entretanto, os demais setores registraram queda. As vendas de matérias primas e produtos intermediários caíram 6,91%, enquanto as exportações de bens de capital caíram 6,54%. Outro grupo atingido foi o das vendas de bens de consumo, que sofreram uma retração de 1,68%.
Carro chefe das vendas nacionais é o minério de ferro
Embora os produtos manufaturados sejam o principal componente da pauta de exportações nacionais, representando 56,3% das vendas nacionais, o principal produto brasileiro no exterior é minério de ferro e seus concentrados, com vendas acumuladas no ano em US$ 1,975 bilhão, um leve queda de 2,97% dos US$ 2,97 bilhões de 2001.
A soja, um dos produtos mais festejados por economistas brasileiros, devido aos níveis recordes de produtividade obtidos no país, é responsável por vendas de US$ 1,689 bilhão. No entanto, em virtude dos atrasos na contabilização das exportações do produto, o montante de vendas de soja triturada é 23,55% inferior ao de 2001, que ficou em US$ 2,210 bilhões.
Em terceiro lugar aparece o item aviões, com vendas totais de US$ 1,439 bilhão, 26,8% menores em virtude da crise do setor de aviação civil no mundo. Outros produtos de destaque são automóveis, com US$ 1,184 bilhão, também 10,84% inferiores ao obtido no acumulado até agosto de 2001 e farelo de soja, com exportações de US$ 1,14 bilhão, 14,5% menores.
Vale destacar que a participação de bens semi-manufaturados na exportações brasileiras é de 16,6%, enquanto a parcela referente a commodities é de 24,6%, valores estes relativamente estáveis desde o início da década de 90.
Aumentar as exportações é imperativo para o próximo governo
Apesar de benéfico para as exportações do país, a forte a desvalorização do real em 2002 possui significativos efeitos colaterais. A dificuldade de importação de bens essenciais como bens de capital atrapalha a modernização do parque produtivo brasileiro.
Além disto, a desvalorização não só diminui drasticamente o poder de compra de brasileiros no exterior, como também tem um impacto perverso sobre a dívida interna, dada a alta quantidade de títulos indexados a variação cambial. Portanto, apenas um aumento consistente das exportações poderá representar uma solução sustentável para o déficit das contas externas.Aumentar as exportações é a ordem do dia para o Brasil.