Baixo volume de concessão de crédito do Brasil reflete juros e renda

Relação Crédito/PIB (27,5%) do Brasil é baixa comparada com países emergentes como o Chile (68,1%) ou China (136,5%)

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SÃO PAULO – Alguns economistas acreditam que um dos caminhos para que o Brasil cresça e mantenha este crescimento estável é a elevação do crédito ao setor privado. Porém, será que isso é possível em um país que apresenta o maior spread bancário do mundo?

Antes de prosseguir, é importante salientar a definição de spread. De maneira simples, o dinheiro que os correntistas depositam no banco, e pelo qual recebem juros, é depois repassado para outros consumidores, que necessitam de crédito.

Assim a diferença entre os juros que os bancos pagam aos correntistas pelos depósitos que efetuam, e os juros que cobram dos clientes que emprestam dinheiro é conhecida como spread bancário.

Spread brasileiro é mais alto do mundo

Segundo estudo elaborado pela Fiesp (Federação das Industrias do Estado de São Paulo) o Brasil destinou apenas 27,5% do seu PIB ao crédito ao setor privado, dado que coloca o país apenas em 32º lugar dentre a amostra de 43 países pesquisados pela Fundação.

Antes de partir para uma conclusão apressada de que é preciso aumentar o volume de concessão de crédito no Brasil é preciso entender as razões que levam algumas economias a oferecer um volume maior de crédito ao setor privado. A primeira delas, sem dúvida alguma, está relacionada ao custo de se levantar um financiamento.

No Brasil pe muito caro emprestar dinheiro. Por que? Simples, temos o maior spread bancário dentre os 43 países analisados: 43,7% ao ano. Esse valor resulta do pagamento de juros de 19,1% ao ano nos depósitos bancários, e da cobrança de 62,9% ao ano nos empréstimos bancários. Vale lembrar que amostra de países representa 93% do PIB mundial.

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E, nos outros emergentes?

De fato o risco de se emprestar dinheiro no Brasil é maior do que em alguns dos países da amostra em função de sua baixa renda, porém existem outros países, também em desenvolvimento e com baixa renda, que apresentam um crédito ao consumidor muito maior, fruto de um spread bancário bastante inferior ao do Brasil.

Um país significantemente representativo neste aspecto é a China, o país que mais cresce no mundo. Segundo a Fiesp, o crédito concedido ao setor privado neste país é de 136,5% de seu PIB, muito próximo ao dado norte-americano, mas note que o spread bancário do país é de 3,3% ao ano, mais do que dez vezes inferior ao do Brasil.

Talvez um exemplo mais próximo de economias em desenvolvimento e que se aproximem mais de nossa realidade seria melhor parâmetro de comparação. Usemos o Chile. Embora não atinja a média dos países selecionados, o Chile destinou 68,1% do seu PIB em crédito ao setor privado, e novamente, note que o spread do país é baixo, 4% ao ano, sendo que a renda do país não é tão distinta daquela do Brasil.

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Renda também é fator importante

Além do spread bancário outro fator contribui, ou não, para o maior volume de crédito concedido: o poder aquisitivo da população. Para isso basta uma análise simples.

Em geral, não se recomenda que mais do que 30% da renda do consumidor estejam comprometidos com o pagamento de encargos de dívida. Portanto, quanto maior a renda, maior, em termos absolutos, o volume de crédito que esse individuo pode levantar.

Isso significa que mesmo com a redução do spread, nosso volume de concessão nunca vai ser tão alto como o dos EUA, por exemplo, pelo simples fato que a renda do trabalhador norte-americano é muito superior à do brasileiro. Nos EUA, a combinação de maior poder aquisitivo com um spread bem mais baixo, de 3,2% ao ano, permite que a relação entre volume de crédito ao setor privado e o PIB seja de 140,6%, ou cinco vezes maior do que a registrada no Brasil.

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Outro país que serve para ilustrar as limitações da renda é a Índia, que goza de um spread bem menor que o brasileiro, de 9,1% ao ano, e mesmo assim só concede o equivalente a 32,6% do seu PIB em crédito ao setor privado.

Custo e risco de “emprestar” não justifica spread

É bem verdade que parte da explicação pelo fato de que o spread brasileiro é alto se deve ao custo de captação, ou seja, o quanto o banco de retorno aos correntistas que efetuam depósitos.

O estudo da Fiesp constata que o Brasil registrou o quarto maior custo dentre os países analisados, com custo de 19,1% ao ano, cinco vezes maior que o do Chile e nove vezes maior que o da China.

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Mas, essa diferença não explica o porque dos bancos cobrarem juros tão altos pelos empréstimos. A análise da média dos países da amostra confirma o fato de que o nosso spread é muito elevado. A média do spread entre a amostra de 43 países analisada pela Fiesp é de apenas 5,6%, quase oito vezes menor que o brasileiro. Isso se reflete em um volume de concessão médio de crédito ao setor privado de 85,6% do PIB, três vezes maior que o nosso.