Avaliar empresas apenas através do EPS pode ser perigoso, afirma gestor

Indicador não substitui uma análise prudente do verdadeiro poder de lucro da companhia e de suas obrigações, diz Raj Karsan

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SÃO PAULO – Os investidores deveriam evitar incorporar o EPS (lucro por ação, na sigla em inglês) como componente primário no valuation de papéis, de acordo com Saj Karsan, gestor do fundo Karsan Value. Para ele, o uso do EPS na precificação de ações não considera informações importantes para a correta avaliação da empresa, como seus níveis de endividamento.

Embora muitos investidores utilizem o lucro por ação para calcular os múltiplos P/L (que relacionam preço dos papéis e lucro projetado) ou como base para calcular a taxa de crescimento em valor presente, Karsan sugere que o uso desse tipo de atalho para o valuation de empresas deveria ser evitado.

“O EPS é uma maneira rápida e fácil para apontar o ganho de uma companhia. Ele não serve, porém, como um substituto para uma análise prudente do verdadeiro poder de lucro da companhia e de suas obrigações”.

Na opinião do gestor, em artigo citado pela Morningstar, a primeira falha do EPS é a forte flutuação que o indicador pode ter na passagem anual, já que ele pode ser afetado por baixas contábeis, condições anormais de negócio, perdas e ganhos com vendas de ativos e outros fatores incomuns que podem acontecer.

Sem informações suficientes sobre dívida…

Mesmo que os investidores consigam chegar a uma média de lucro por ação satisfatória, o indicador ainda não fornece informações adequadas sobre o nível de endividamento da empresa em questão. “Duas companhias poderiam ter o mesmo EPS, mas uma poderia ser capitalizada com 99% de dívida enquanto a outra poderia ter 0% de dívida”, explica Karsan.

No exemplo dado, embora o ganho para o acionista seja o mesmo em ambos os casos, a primeira companhia tem um risco muito maior e é mais suscetível à falência, caso ocorra uma situação inesperada. Para avaliar o endividamento, Karsan sugere que os investidores observem o lucro operacional ao invés do EPS e subtraiam desse valor as obrigações da empresa.

… e sobre potencial de diluição

Outra falha da avaliação por meio do EPS é que não há informações adequadas em relação à potencial diluição da posição dos acionistas. De acordo com Karsan, os EPS Diluídos, indicador obrigatório no balanço operacional das empresas, incorporam apenas opções que estão dentro do dinheiro.

“Por exemplo, se uma companhia tem 100 mil ações com média de negociação em US$ 2,00 por ação e 500.000 opções pendentes com preço de exercício de US$ 2,01 por ação, nenhuma dessas opções será reconhecida no cálculo de EPS diluído, apesar do fato de que elas potencialmente são dilutivas”, exemplifica.

Segundo o gestor, para fugir dessa “armadilha”, os investidores devem subtrair os valores das opções pendentes das exercidas ao valor intrínseco da companhia.