Aumento do dólar e das tarifas deve pressionar inflação nos próximos meses

A inflação brasileira deve voltar a sofrer pressões nos próximos meses com a alta do dólar e o já anunciado reajuste dos combustíveis, além do impacto previsto no próximo ano em função do aumento de tarifas públicas. Com isso, o governo já admite que a inflação medida pelo IPCA, índice adotado em conjunto com o […]

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A inflação brasileira deve voltar a sofrer pressões nos próximos meses com a alta do dólar e o já anunciado reajuste dos combustíveis, além do impacto previsto no próximo ano em função do aumento de tarifas públicas. Com isso, o governo já admite que a inflação medida pelo IPCA, índice adotado em conjunto com o FMI para a liberação dos recursos de ajuda, deve ficar acima da meta máxima estipulada em 6% para o final deste ano.

No entanto, considerando-se o número e a intensidade dos fatores que afetaram negativamente a economia brasileira nos últimos meses, este resultado pode ser até encarado como positivo. Afinal de contas, a deterioração da situação econômica da Argentina, o racionamento de energia e a desaceleração econômica mundial, intensificada pelos recentes atentados terroristas nos EUA superaram até mesmo a visão dos mais pessimistas. A preocupação agora fica com a inflação acordada com o FMI para o próximo ano, que não deve ultrapassar os 3,5% mais a liberdade de 2 pontos percentuais para cima ou para baixo.

Já no início do próximo mês, os preços da gasolina devem subir entre 4% e 5% nas bombas, de acordo com o cálculo do diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), David Zylbersztajn. Na verdade, os preços nas refinarias tiveram autorização da ANP para serem reajustados em 5%, e espera-se que parte deste aumento ainda possa ser absorvido pelas distribuidoras. Este reajuste trimestral segue uma fórmula estabelecida pelo Ministério da Fazenda que toma por base o preço de R$ 55 reais (US$ 20,00) para o barril de petróleo no mercado internacional. O cálculo do reajuste se baseia na comparação da média trimestral dos preços diários do barril do petróleo tipo Brent e na variação cambial, o que certamente contribuiu para este novo reajuste.

Além disso, deve haver mais pressão por conta do reajuste de tarifas públicas de concessionárias de energia elétrica, que são reajustados em diversas datas, de acordo com o contrato de concessão dos serviços. As tarifas de fornecimento de energia elétrica são reajustadas anualmente, na data de assinatura dos contratos de concessão firmados entre as concessionárias e a Aneel. No cálculo dos índices, a Aneel considera o repasse da variação dos custos que as empresas tiveram no decorrer de doze meses: custos não-gerenciáveis (energia comprada de geradoras, Conta de Consumo de Combustíveis Fósseis (CCC), Reserva Global de Reversão (RGR), taxa de fiscalização e encargos de transmissão); e custos gerenciáveis, sobre os quais incide o IGP-M, calculado pela Fundação Getulio Vargas.

Recentemente o governo aprovou uma Medida Promissória que libera o repasse dos custos não-gerenciáveis às tarifas. Deste modo, o efeito negativo do racionamento não é ainda potencializado com o aumento dos custos, contudo, os preços do serviço ao consumidor tendem a subir mais que antes, quando o repasse era parcial. Dentro dos custos está a conta de custos não-gerenciáveis e que envolve a compra de energia por parte das distribuidoras. Muitas delas são obrigadas a comprar energia de Itaipu, que é precificada em dólares. Com a forte alta da moeda norte-americana, deve haver forte pressão no reajuste de tarifas, o que seguramente deverá impactar na inflação não só deste ano, mas como na do ano que vem.

Outro fator que preocupa bastante é a diminuição no fluxo de capital para os mercados emergentes, como o Brasil, por exemplo. Para alguns analistas, o investimento direto estrangeiro no Brasil em 2002, previsto inicialmente em US$ 18 bilhões, deverá ser revisto para baixo em virtude do aumento de risco dos países emergentes. Desta forma, a necessidade maior de obter recursos para financiar o déficit do balanço de pagamentos poderá manter o dólar em patamares elevados e, por conseqüência, aumentar a pressão sobre a inflação.

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Desta forma, podemos ver que a pressão sobre os índices inflacionários deve se estender por um bom tempo. De fato, a meta do IPCA estipulada pelo governo brasileiro junto ao FMI para o próximo ano é bem baixa e o governo brasileiro vai ter que mostrar bastante habilidade para continuar sua política de controle da inflação, calibrando de forma precisa os juros da economia, sem prejudicar o crescimento econômico estimado para 2002.

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