Fato Real

As Opções de Dilma

As opções de Dilma estão situadas no curto prazo, nas negociações políticas de caráter “fisiológico” e nas fileiras carentes de pessoas que defendem a tal da institucionalidade

Já defendi a ideia de que o processo de impeachment é provável de ocorrer vez que a polarização entre a oposição (PSDB, PPS, DEM, SD, REDE e, eventualmente, PSOL) somada ao PMDB (interessado em alcançar o poder), de um lado, e o PT e seu aliado mais próximo (PCdo B), de outro, levará a que a decisão sobre a abertura do processo de impeachment seja construída entre os partidos (PP, PSD, PR, PSB, PTB, PRB, PDT, PSC, PROS, PV, PHS, PEN, PMN, PTN, PRP, PTC, PSDC, PRTB, PSL, PT do B) mais sujeitos ao jogo do favorecimento sem propósito minimamente republicano.

O bloco oposicionista conta com 106 votos bastante prováveis. O bloco situacionista conta com 80. Ou seja, a maior fidelidade partidária e/ou ao papel de oposição ou de governo tem somente 186 votos. O total de votos dentre os deputados de 28 partidos é de 511, o que quer dizer que a verdadeira disputa do impeachment será feita dentre 325 deputados que estão em partidos que compõem uma “base” bem fragmentada.

O notável nesta análise é que os partidos denominados pela mídia de “fisiológicos”, no caso do processo de impeachment per se tendem a não exercer a sua natureza predadora de cargos e benefícios públicos. Estarão mais interessados em saber qual é o pacto de poder ao qual podem se pendurar para, assim, verificar como haverão de extrair os futuros “lucros políticos”. De curto, médio e longo prazo.

Observado o acima descrito, a luta se dará entre uma oposição mais o PMDB que prometem um “governo de coalizão” que deve estabilizar a economia e a política contra um governo que tem três anos de governo, se escapar do intento do impeachment. Nesse diapasão o vice-presidente Michel Temer já mostrou a isca para a oposição ao informar, por meio de seus asseclas, que a futura administração do seu governo distribuirá o poder com a atual oposição e ele, Temer, não há de disputar a eleição de 2018. Note-se que em 2018, Michel Temer terá 78 anos.

Do lado do governo o jogo é mais pragmático: aos partidos “fisiológicos” poderá entregar somente hoje, a ração de poder que desejam. Ocorre que os tais partidos fragmentados da Câmara dos Deputados também sabem que Dilma no poder significa mais desconfiança dos agentes econômicos e políticos na sua gestão e que este é fator substantivo para a eleição futura. Quando tais deputados olham as tabelas de previsões econômicas espalhadas pelas redes de mídia o que veem é um espetáculo de recessão, estagnação, inflação, desemprego, desvalorização cambial, etc.

 

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O raciocínio acima indica que os “fisiológicos” devem optar por um jogo “ganha- ganha” se se debandarem para a oposição: ganham o butim de Temer e ganham também o necessário horizonte político para se reelegerem. No caso da presidente Dilma Rousseff o jogo é muito incerto no longo prazo (2018) e certíssimo no curtíssimo prazo (2016, pelo menos no seu começo).

Provavelmente, a leitura do governo sobre o cenário da votação do recebimento do processo de impeachment é semelhante ao acima elaborado. Daí a pressa para que a votação na Câmara dos Deputados ocorra logo, pois isso pode evitar que o horizonte cada vez mais nebuloso na economia contamine rapidamente a mente dos “fisiológicos”. Jaques Wagner, talvez o melhor quadro do governo no momento, jogou bem desde que o deputado Eduardo Cunha, detonou a bomba do impeachment. Ele age para que tudo seja célere, clama pela institucionalidade, fala em risco para a democracia e alerta para a banalização do processo de impeachment. Este discurso, digamos, idealista, é o único possível de ser feito junto a uma opinião pública claramente contra a presidente. Na ação política concreta, temos certeza que o jogo será o de “cargos e benefícios” para os que ficarem com o governo.

Há, ademais, mais um problema para Dilma Rousseff. E esse problema tem nome: Lula e o PT. O ex-presidente já espalhou rastilhos de pólvora no solo da política quando conspirou abertamente contra a política econômica e, como fazia desde os seus tempos de sindicalista, se somou aos tais movimentos sociais. Ele prepara o eu caminho para 2018 e a atual presidente é uma barreira para que tenha chances de sucesso. Logo, a sua fidelidade é apenas aparente. Abandonar companheiros pelo caminho é uma atividade corriqueira para o ex-presidente. De José Dirceu a Vaccari, passando por Renato Duque et Caterva, Lula não hesita de passar o trator sobre quem atenta contra os seus interesses. Por que Dilma seria uma exceção neste jogo? Esta pergunta a história há de responder. Mas, para fins da análise do atual quadro, o que interessa é saber que Lula e o PT não tem essencial interesse na permanência de Dilma na cadeira do Palácio do Planalto. O ano de 2018 brilha nos seus olhos. Se a PF, o MP e a Justiça permitirem ele lá estará.

Tudo indica que as opções de Dilma estão situadas no curto prazo, nas negociações políticas de caráter “fisiológico” e nas fileiras carentes de pessoas que defendem a tal da institucionalidade clamada por Jaques Wagner, desde quando a chama da fogueira do impeachment foi acesa.

Dilma Rousseff, que no próximo dia 14 de dezembro completará 68 anos, deve estar caminhando para um trágico final de governo: se ficar mais três anos, terá de lidar com os monstros econômicos e políticos que acordou em sua primeira administração. Se for embora, será abandonada como poucos foram na política brasileira. Aceito o processo de impeachment a presidente deveria renunciar para proteger a sua saúde mental. Ela chegou na presidência por acaso. Deve sair dela como um detalhe da história. Isso não é bom para a história republicana vez que verificamos que o funcionamento de nossas instituições políticas é capazes de produzir tragédias que impedem a construção de um ambiente verdadeiramente voltada para a solução dos problemas de um país desigual e ainda subdesenvolvido.