Publicidade
SÃO PAULO – Às 22h15 da última terça-feira (10), o Brasil parou. Nada menos que dezoito estados do País foram total ou parcialmente afetados por um apagão de energia elétrica que pegou todos de surpresa. Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro ficaram às escuras, paralisando trens e metrô e trazendo medo à população.
De acordo com o secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, o incidente ocorreu por conta da queda de três linhas de transmissão nos estados de Paraná e São Paulo, causada por “condições meteorológicas adversas”. O CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) reúne-se ainda esta tarde para identificar causas mais precisas.
Passado o susto – e restabelecida a energia -, diversas perguntas começam a surgir. Qual o impacto de tal episódio na imagem externa do Brasil, futura sede da Copa do Mundo em 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016? Afinal, ainda falta investimento no setor?
Mídia e ceticismo externo
Logo após o apagar das luzes, diversos jornais ao redor do mundo já noticiavam o incidente em suas páginas na internet. El País, The New York Times e Le Monde são apenas alguns dos periódicos que reportaram o apagão lá fora, sem contar outros veículos de peso na imprensa externa como a rede CNN.
Frases como “Ipanema sem luz” e “apagão histórico” rechearam as matérias, suscitando temores de que o País talvez não esteja preparado para receber os eventos esportivos dentro de apenas alguns anos.
Para analistas, a possibilidade de que o turismo brasileiro seja afetado de alguma forma pelo acidente é extremamente pequena. Entretanto, o apagão de fato dissemina certo ceticismo lá fora quanto à capacidade do País de sediar eventos esportivos de porte mundial.
Continua depois da publicidade
Veja algumas das manchetes lá fora:
THE NEW YORK TIMES
“Power in Paraguay and Brazil fails”
(tradução livre: Energia falha no Paraguai e Brasil)
EL PAÍS
“Un apagón deja sin luz a millones de personas en Brasil y Paraguay”
(tradução livre: Apagão deixa milhões de pessoas sem luz no Brasil e Paraguai)
CNN
“Dam failure triggers huge blackout in Brazil”
(tradução livre: Falha em represa provoca enorme apagão no Brasil)
LE MONDE
“Coupure géante d’électricité au Brésil”
(tradução livre: Corte gigante de eletricidade no Brasil)
LA NACIÓN
“Analizan las causas de apagón que dejó a oscuras a Brasil”
(tradução livre: Analizam as causas de apagão que deixou Brasil às escuras)
CORRIERE DELLA SERA
“Black-out: il Brasile si scopre fragile”
(tradução livre: Black-out: Brasil se revela frágil)
Continua depois da publicidade
Falta investimento?
Zimmermann foi enfático em suas declarações: “o sistema brasileiro é de ponta” e “o que tivemos não foi um problema de falta de energia, mas um problema elétrico”. Ele não está errado. Ao contrário dos apagões que tomaram o País em 2001, desta vez, o problema não parece ter sido ocasionado por oferta escassa de energia.
Pelo contrário, como observa o Bank of America Merrill Lynch, o cenário atual é de oferta excessiva, dado os bons níveis de reservatório e o desaquecimento na atividade industrial nos últimos meses em função da crise. No entanto, para alguns analistas, é justamente por tal razão que este apagão é ainda mais suscetível a críticas.
Segundo Adriano Pires, presidente do CBIE (Centro Brasileiro de Infra-estrutura), falta investimento justamente no segmento de transmissão de linhas. A despeito dos recentes esforços de maior diversificação da matriz energética no País, o governo pecou por não ter modernizado o sistema. “Precisamos de novos investimentos para não virarmos reféns desses acontecimentos”, afirma.
Continua depois da publicidade
Males que vêm para o bem
De qualquer forma, o apagão pode também ter suas repercussões positivas. Na opinião do BofA Merrill Lynch, o acidente pode promover um retorno dos debates acerca de um processo de privatização da rede de linhas de transmissão no País, ainda sob controle estatal.
Boa notícia para os consumidores brasileiros, uma vez que passar o sistema às mãos privadas poderia significar modernização e menor probabilidade de futuros apagões. Boa notícia para os mercados, que podem visar um potencial cenário de investimentos.
Além de uma eventual privatização, outro segmento também pode se beneficiar do apagão: as termoelétricas, uma vez que o episódio “cai bem àqueles que já defendiam uma ampliação dos investimentos na geração termal de energia a fim de aprimorar a confiança no sistema”, nas palavras da equipe do BofA Merrill Lynch.
Continua depois da publicidade
Os mercados e o apagão
Na visão dos analistas, poucos danos financeiros devem efetivamente ser reportados em função do apagão. No entanto, a equipe reconhece que papéis do setor de energia podem vir a ser impactados pela repercussão do incidente.
De fato, em um dia de clima favorável aos negócios e de valorização do Ibovespa, papéis como os da Eletrobrás (ELET3) e da Transmissão Paulista (TRPL4) figuram entre as maiores baixas do principal índice da bolsa brasileira. Para o BofA Merrill Lynch, o grande temor do investidor é o de que as companhias possam vir a ser de alguma forma penalizadas financeiramente pelo acidente, “embora tal probabilidade seja remota”.
Nos momentos em que a maioria vê prejuízo e azar, grandes investidores veem oportunidade. Uma injustificada penalização dos papéis do setor pode ser a ocasião ideal para ir às compras. “Recomendamos nomes de qualidade com fundamentos sólidos, tais como Cemig, Tractebel, AES Tietê e MPX”.