As ações que tiveram suas projeções reduzidas em meio às mudanças climáticas com o El Niño

SLC reduziu projeções de área plantada, enquanto Hidrovias do Brasil teve recomendação cortada pelas mudanças; analistas seguem com visão positiva para Rumo

Lara Rizério

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O El Niño segue mostrando a sua força, com altas temperaturas na região Sudeste, fortes chuvas no Sul e seca no Norte. Enquanto que, em meados deste ano, havia a expectativa de que as ações de algumas empresas se beneficiassem com as mudanças climáticas – principalmente agrícolas de alimentos, conforme os meses foram passando outras passaram a ter as suas projeções revisadas (muitas delas para baixo) em decorrência das alterações climáticas.

Nesta semana, quem ganhou destaque foi a SLC (SLCE3), que informou em fato relevante ter reduzido a projeção de área total plantada na safra 2023/24 em 3,3% devido às intempéries climáticas causadas pelo El Niño.

Segundo a companhia, condições climáticas de chuvas abaixo da média histórica e altas temperaturas no Cerrado brasileiro foram inadequadas para o desenvolvimento da soja, principalmente no oeste do Mato Grosso, região mais afetada pela seca.

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Para otimizar o potencial produtivo das culturas “será necessário realizar a descontinuação de 16 mil hectares de soja, com a transferência dessa área, inicialmente projetada para plantio de soja + algodão 2ª safra, para unicamente o plantio de algodão 1ª safra”, acrescentou. Devido ao replantio de 19 mil hectares de soja, disse a empresa, a área de milho 2ª safra também sofrerá uma redução de 7,7 mil hectares em relação ao inicialmente projetado.

Após as revisões feitas pela empresa, os analistas da XP passaram a estimar um efeito negativo no lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) ajustado consolidado de 8,8% para 2023/24. Em virtude dos números mais fracos pressionando os resultados e da visão baixista da casa dos preços dos grãos, a XP reiterou recomendação neutra para os ativos.

O Bank of America, por sua vez, manteve recomendação underperform (desempenho abaixo da média, equivalente à venda) para os ativos, pois acredita que os lucros começarão a se normalizar após anos recordes em 2022-23, enquanto as condições climáticas adversas poderão impactar negativamente o desempenho operacional do próximo ano.

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Para o BTG Pactual, o anúncio desta semana da SLC não foi totalmente inesperado.

O fluxo de notícias ao longo das últimas semanas sobre o clima na região Centro-Oeste do Brasil, especialmente no estado de Mato Grosso (MT), tem sido preocupante, avalia a equipe de análise do banco. Altas temperaturas e chuvas irregulares comprometeram o desenvolvimento da soja plantada precocemente em várias partes do estado, em alguns casos levando ao replantio, em outros à desistência da soja e antecipação do plantio de algodão. “É exatamente isso que a SLC está fazendo”, aponta.

Cabe destacar, por sua vez, que a expectativa de chuvas mais consistentes nas próximas semanas deve apoiar um desenvolvimento ideal das culturas sendo plantadas agora.

“Acreditamos que isso explique a decisão da SLC de aumentar as produtividades esperadas do algodão de 1ª safra em 1%, após reduzir a produtividade da soja em 7%. Portanto, de certa forma, embora a área total plantada em 2024 seja reduzida em 22 mil ha (-3%), o resultado operacional por hectare plantado pode não sofrer tanto impacto. O algodão plantado em boas condições geralmente proporciona margens unitárias mais elevadas. Além disso, a SLC não está alterando as expectativas de custo/ha, o que parece otimista, embora viável. Se incorporarmos a nova área, produtividades e assumíssemos custos unitários constantes com a orientação anterior, nossa estimativa de Ebitda para 2024 passaria de R$ 2,5 bilhões para R$2,3 bilhões (uma variação de -9%)”, aponta.

Os analistas do banco ainda reforçam que a SLC é a maior e provavelmente a mais diversificada produtora de algodão e soja no Brasil.

Assim, o fato de a SLC estar enfrentando um impacto tão significativo sugere que o Brasil como um todo deve enfrentar algumas revisões para baixo nas produtividades da soja e, principalmente, do milho.

Nesta quinta-feira, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revisou suas projeções. A safra de soja do Brasil 2023/24 foi estimada ainda em recorde de 160,2 milhões de toneladas, mas com uma redução de 1,4% na comparação com a previsão divulgada no mês passado, devido a adversidades climáticas.

Segundo a estatal, a revisão das expectativas decorre do fato de que, em alguns Estados produtores, chuvas irregulares e altas temperaturas já impactaram o potencial produtivo das lavouras.

Mesmo com a diminuição da projeção, a expectativa é de que a produção da oleaginosa cresça 3,6% em relação à safra anterior, quando o Brasil colheu uma safra jamais vista no país.

“Estamos atentos e redobraremos o monitoramento das áreas produtoras. O comportamento do clima este ano é o fator mais determinante para as culturas que estão em plantio e em desenvolvimento, em função do El Niño”, disse o diretor de Política Agrícola e Informações da Conab, Sílvio Porto. “Além disso, os atrasos no plantio da soja “abrem incertezas para o milho segunda safra”, acrescentou ele.

A Conab também reduziu sua estimativa para a produção total de milho a 118,53 milhões de toneladas, ante 119,1 milhões estimadas no relatório passado. Frente à safra anterior, o volume esperado para o milho representa uma queda de 10,2%.

“Um ponto positivo para os resultados agrícolas ano contra ano é que isso deve ter um impacto não só nos preços globalmente (com ligeiro aumento nas cotações), mas também reduzir os custos de frete para os agricultores que vendem grãos na porteira da fazenda (devido à menor quantidade de produto circulando)”, destacou o BTG.

Rumo (RAIL3): afetada, mas visão ainda positiva

Assim, o mercado deve ficar de olho também no impacto para as empresas de logística e ferrovias. Na visão do Bradesco BBI, a Rumo (RAIL3) pode ser afetada negativamente pelas atuais condições climáticas adversas intensificadas pelo El Niño.

Mas o otimismo geral dos analistas continua para as ações. No fim do mês de novembro, o JPMorgan havia revisado suas projeções para a Rumo, mas mantendo recomendação equivalente à compra (overweight, ou exposição acima da média).

“Atualizamos nossas estimativas para a Rumo em meio a incertezas em relação ao próximo ano colheita, e reiteramos a nossa visão ainda positiva sobre o nome. A ação teve desempenho inferior ao de seus pares de infraestrutura na segunda quinzena de novembro devido aos atrasos na semeadura da soja e ao potencial risco negativo para a colheita do milho. Se a escassez de colheita se materializar, porém, acreditamos que as projeções para baixo serão limitadas para 2024 para a Rumo, uma vez que a empresa já garantiu a maior parte de sua capacidade sob contratos take-or-pay [obrigação de pagamento acordada entre empresas e seus fornecedores ou clientes]”, avaliaram os analistas do JPMorgan.

O banco reconhece que pode haver pressão sobre o nome, mas manteve as suas projeções, com Ebitda de R$ 7,2 bilhões para 2024 (+3% acima do consenso Bloomberg). O preço-alvo foi elevado de R$ 28 para R$ 28,50, incluindo R$ 4,0 por ação relacionada ao Projeto de Lucas do Rio Verde.

Para os analistas, as condições climáticas em Mato Grosso levantam bandeira amarela, mas vê ainda impacto limitado por enquanto para a Rumo.

Cabe destacar ainda que o Morgan Stanley destacou ver a Rumo como a sua top pick do segmento agrícola.

O banco ainda vê os estoques aumentando com mais oferta na América Latina 2023/24 e levando os preços dos grãos para baixo, apesar dos impactos das mudanças climáticas. “Nossas estimativas permanecem praticamente mantidas. Esperamos que os preços continuem a cair com os fundamentos em 2024, para US$ 12 bilhões para a soja e US$ 5,0 bilhões para o milho em 2023/24, consistente com níveis mais elevados de estoque”, avalia.

O clima do El Niño trouxe chuvas irregulares e mal distribuídas e altas temperaturas no Brasil, aumentando os riscos, mas é cedo para mudar as estimativas, aponta. A safra de soja ainda precisa de chuvas adicionais no centro do Brasil e de clima mais seco no sul. E o plantio tardio da soja continua sendo uma preocupação em termos do impacto na área cultivada com Safrinha (segunda safra). “Vemos uma tendência de queda se as condições meteorológicas não melhorarem de acordo com as previsões recentes”, apontou.

Sobre a Rumo, top pick do setor com recomendação overweight e preço-alvo de R$ 30, o banco vê que a operadora ferroviária brasileira de grãos está bem posicionada no ciclo para gerar retornos incrementais mais elevados por meio de melhores preços e crescimento de volume, em meio a um valuation atrativo.

Entre as empresas agro da América Latina, os analistas têm visão positiva também para a Adecoagro, vista como bem posicionada na Argentina, esta devendo se beneficiar do clima do El Niño em meio à recuperação de uma grave seca em 2022/23.

Por outro lado, os analistas do Morgan Stanley estão menos otimistas com SLC, com recomendação equivalente à neutra, destacando os reveses com o El Niño para as fazendas da companhia. Para São Martinho (SMTO3), a recomendação é equivalente à venda (underweight), vendo o valuation como pouco atrativo versus os pares e níveis históricos.

Hidrovias do Brasil (HBSA3)

Enquanto a visão segue positiva para a Rumo, Hidrovias do Brasil (HBSA3) teve revisões para baixo em meio às condições climáticas.

O Citi rebaixou a recomendação para a ação no fim de novembro de compra para neutra, ressaltando que os impactos de curto prazo da seca parecem relevantes o suficiente para limitar pelo menos parte da valorização anteriormente prevista. Embora ganhos nas ações pareçam prováveis no médio prazo, os riscos também parecem muito altos para serem ignorados, apontou.

Apoiados por uma forte demanda por transporte, os resultados do próximo ano ainda parecem positivos. No entanto, de acordo com Citi, eventos climáticos podem ser “drivers de decepção” para as safras de 2023/24, antecipando uma redução na demanda e a aceleração da normalização do mercado de frete.

Uma degradação das condições hidrológicas nos sistemas Norte e Sul ocorreu mais rápida e profundamente do que o esperado. As projeções da empresa para 2023 indicam um impacto severo no Norte, combinado com um impacto de moderado a severo no Sul – e o impacto pode se estender até 2024. “Neste ponto, precificar qualquer impacto estrutural na hidrologia do 4º trimestre parece ser muito severo, mas o ponto de interrogação pode permanecer por um tempo”, comentou o Citi.

Embora o El Niño tenha trazido tempos difíceis para a agricultura e os níveis dos rios até agora, uma reversão rápida dessas tendências poderia reduzir os riscos climáticos e trazer o lado positivo da história de volta ao foco. Se isso acontecer, o potencial de preço das ações da Hidrovias, operadora de barcaças fluviais no Brasil, poderia ir contra o cenário base do Citi.

As operações no Norte parecem muito mais prejudicadas do que no Sul, e os impactos consolidados parecem relevantes.O banco reduziu o preço-alvo de R$ 5,00 para R$ 4,40 por ação.

(com informações da Reuters)

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.