Aniversário de 3 anos

As ações que mais subiram após o impeachment e a surpresa do dólar

Papéis de estatais federais dispararam na bolsa, conforme esperado, mas a cotação da moeda americana não caiu como fora previsto

SÃO PAULO — O impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff gerou uma onda de expectativas sobre o desempenho de algumas ações da bolsa, especialmente sobre aquelas cujas operações estavam ligadas — direta ou indiretamente — ao governo. Agora, exatos três anos depois do episódio, como estão esses papéis?

Todas as companhias citadas na época por analistas como possíveis beneficiárias da queda do governo, sem exceção, viram suas ações subirem no período. Algumas tiveram desempenho melhor do que as outras por questões pontuais. 

As estatais federais eram unanimidade entre os analistas. As ações preferenciais da Petrobras (PETR4) saltaram 105% desde o impeachment, enquanto as ordinárias da Eletrobras (ELET3) tiveram um avanço expressivo de 124%. Já o Banco do Brasil (BBAS3) ganhou 119%. O Ibovespa, o principal índice de ações da bolsa brasileira, subiu 75% no período.

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Vale destacar que a conta considera as cotações de 30 de agosto de 2018 até ontem, mas quando o impeachment foi aprovado de fato o mercado já havia embutido a queda da presidente nos preços — por isso, o impacto real sobre os papéis, considerando o período anterior à aprovação do pedido, foi ainda maior. 

No geral, as estatais federais experimentaram uma melhora significativa de gestão com a troca de governo, afirma Gabriel Fonseca, analista da XP. O caso da Petrobras foi mais significativo na época porque a empresa estava envolvida em escândalos de corrupção da Lava Jato. 

“Havia um desgaste enorme da imagem da empresa. O contexto global também era negativo para a companhia, já que o preço internacional do petróleo estava em suas mínimas”, diz Fonseca. “A entrada de Pedro Parente melhorou a governança da companhia. Houve o início do processo de venda de ativos, IPO da BR Distribuidora, por exemplo.”

O principal ponto positivo destacado pelo analista foi a criação da política de preços da estatal. “A Petrobras chegou a perder US$ 30 bilhões com diesel e gasolina porque importava os derivados do petróleo por um preço maior do que o que ela vendia internamente”, diz.

“Com a política de preços, houve a criação de um spread por litro de derivado que compensa a variação dos preços da commodity no exterior. Isso permitiu que os analistas e investidores pudessem ter previsibilidade de caixa para a empresa.”

A mudança de gestão na Eletrobras, com a entrada de Wilson Ferreira Junior, também foi vista como algo positivo por analistas. É importante ressaltar que boa parte do desempenho da ação desde o impeachment reflete a perspectiva de privatização da companhia, mas isso não era cogitado na saída de Dilma Rousseff. As primeiras sinalizações sobre a venda da estatal só foram dadas um ano depois, em agosto de 2017. 

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“A Eletrobras tinha sido a mais negativamente afetada pela MP 579. O governo usou seu controle para fazer com que a empresa aceitasse renovar concessões com a venda de energia por um preço menor. Também havia participação da Eletrobras em usinas que estouraram o orçamento, como Belo Monte”, explica Fonseca. 

Isso explica porque a ação da Eletrobras foi a que mais subiu entre as estatais federais desde o impeachment. “Há uma expectativa muito grande sobre como está se desenhando essa privatização da empresa, agora, porque o mercado quer que ela saia do regime de cotas, em que ela vende energia mais barata.”

Caso a privatização saia do papel, o ganho das ações da Eletrobras pode ser ainda maior. Segundo o analista Miguel Rodrigues, do Morgan Stanley, a privatização completa da companhia seria o gatilho para o cenário mais positivo possível para as ações, no qual o preço-alvo para elas passaria a ser de R$ 51. Hoje, custam em torno de R$ 46. 

“O que mais importa para o mercado é a gestão. O mercado quer ter previsibilidade de caixa e isso só uma boa gerência consegue dar. Independentemente se a empresa for estatal ou não, se der ao mercado o que ele quer, a ação vai subir”, diz Marcelo Giufrida, ex-presidente da Anbima e diretor da gestora Garde Asset Management. 

Além das estatais federais, outra ação que foi muito apontada na época do impeachment como possível beneficiária da troca de governo foi a da própria administradora da bolsa, a B3 (B3SA3). O otimismo era pautado na melhora da economia e do mercado de capitais como um todo, o que deveria motivar uma retomada dos IPOs.

As ações da B3 tiveram um salto de cerca de 169% desde então, mas isso não está somente relacionado à melhora do ambiente corporativo causado pela mudança de comando do país. Pouco tempo depois da saída de Dilma, o então presidente da BM&F Bovespa, Edemir Pinto, anunciou a aprovação da fusão da empresa com a Cetip, dando assim origem à B3. 

O negócio gerou um ganho de sinergia enorme para ambas as companhias, e o Deutsche Bank, na época, chegou a estimar um benefício fiscal de R$ 374 milhões por ano com a fusão das empresas, com goodwill (ágio por expectativa de rentabilidade futura) de R$ 11 bilhões. 

Algumas ações de empresas públicas estaduais também eram vistas como potenciais beneficiárias de uma troca de governo, mas essas muito mais pelo otimismo generalizado do que de fato uma expectativa de mudança imediata de gestão ou algo do tipo. 

“São empresas como a Cemig (CMIG4), por exemplo, que era muito alavancada”, diz Fonseca, da XP. O analista lembra ainda de papéis do setor de saneamento, como a Sabesp (SBSP3). “Na época, não se falava em marco regulatório do setor. Isso só foi discutido bem depois do impeachment, mas certamente pesou sobre o preço dessas ações.”

Por que o dólar disparou?

Enquanto os analistas foram assertivos em suas expectativas para a bolsa, o mesmo não se pode falar do câmbio. Na época do impeachment, o dólar estava na casa dos R$ 3,60 na compra, bem abaixo do patamar atual. Nesta semana, a moeda chegou a bater nos R$ 4,17.

A expectativa de queda do dólar após a troca de governo até se confirmou durante um tempo. O dólar chegou a ser negociado abaixo dos R$ 3,60 durante o governo de Michel Temer, mas o preço da moeda envolve fatores que vão além das questões internas — e a cotação voltou a subir. 

“Embora o dólar esteja em um patamar maior do que na época do impeachment, temos dois cenários econômicos completamente distintos”, afirma Newton Rosa, economista-chefe da SulAmérica investimentos. “Em relação a agosto de 2016, houve uma melhora considerável nos fundamentos da economia brasileira, uma queda enorme no risco país, foram aprovadas reformas, como a trabalhista e a da previdência. São outras perspectivas agora.”

O dólar voltou a subir, segundo o economista, por fatores externos. A conjuntura atual é de guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, há uma perspectiva de desaceleração da economia global e um impasse sobre os juros nos Estados Unidos. 

“Esses fatores todos pesam sobre as moedas globais. Fazem o dólar ganhar força especialmente em relação às divisas de países emergentes como o Brasil”, explica. “Não há um motivo exato para explicar porque o real é uma das moedas emergentes que mais perde valor contra o dólar. Uma das possíveis explicações é porque ele também é a moeda mais líquida, ou seja, em momentos de tensão, é mais fácil o estrangeiro se desfazer de ativos por aqui para cobrir prejuízos na Argentina ou em outros lugares, por exemplo.”

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