As 10 lições tiradas do grande crash na bolsa norte-americana em 1987

Crash de 1987 destruiu riquezas, mas aqueles que mantiveram-se calmos, porém, tiveram a oportunidade de comprar diversas ações a um preço muito atrativo

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SÃO PAULO – No dia 19 de outubro de 1987 as principais bolsas mundiais despencaram – registrando o maior tombo da história. O pânico começou na abertura dos mercados de Hong Kong e chegou a atingir os Estados Unidos, onde o Dow Jones despencou 22,6%. Aqueles que mantiveram-se calmos, porém, tiveram a oportunidade de comprar diversas ações a um preço muito atrativo. 

Embora as causas do crash ainda sejam debatidas, estudos apontam outra movimentação brusca como essa é apenas questão de tempo. O portal norte-americano MarketWatch buscou pessoas que vivenciaram esse acontecimento, e listou 10 importantes lições a serem tiradas do grande crash. Afinal, quanto mais as coisas mudam no mercado acionário, mais elas parecem iguais.

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1) Esteja objetivo quando outros estão emotivos
A primeira lição é provavelmente a mais importante – ficar calmo quando o mundo parece estar acabando. Por isso, é importante estar confiante sobre seu portfólio. “Sucesso depende de sobreviver o pior do mercado”, alerta Peter Langerman, presidente e CEO (Chief Executive Officer) da Franklin Templeton.

Para ele, os algoritmos de high-frequency trading de hoje em dia não são muito diferentes da mentalidade de rebanho que ocasionou o crash de 1987 – tornando uma nova queda destas possível. Seja na volatilidade esperada para o final do ano, por conta do “fiscal cliff”, seja por conta de um evento extremo na Europa, nada é descartado. “Uma das mensagens básicas é que você nunca vai estar certo todo o tempo e as coisas podem dar errado, então tem que ter confiança que o portfólio vai permanecer intacto para se sustentar durante esses períodos ilógicos”, diz Langerman. 

2) Seja como Warren Buffet: compre quando há medo, venda quando há ganância
A má notícia é que são raros os momentos melhores para expandir o portfólio do que um crash. A boa, é que eles são bastante comuns. Se o dia 19 de outubro de 1987 é um dos mais famosos, outros tantos podem ser lembrados facilmente e muitos mais vão voltar a ocorrer. “Uma das coisas que você pode perceber é que se você tiver um portfólio voltado para o longo prazo, você estará bem”, afirma Charles Rotblut, vice-presidente da Associação Americana de Investidores Individuais. 

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Depois do crash de 1987, o mercado mostrou recuperação – as principais empresas norte-americanas subiram cerca de 12% em 1988 e 27% em 1989. E quem utilizou o crash para realizar compras se aproveitou destas recuperações na sua totalidade, apontou Rotblut. 

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3) Faça uma lista do que comprar
Não espere o mercado despencar para decidir o que comprar – até você tomar uma decisão, pode ser tarde demais. Marty Leclerc, diretor da Barrack Yard Advisors, sugere fazer uma lista de companhias que você teria uma ação se ela não estivesse tão caras. “E então use a volatilidade em sua vantagem”, avalia Leclerc. 

Ele lembra do que ocorreu com as ações da Nike, que recuaram de US$ 1,27 no dia 18 de outubro de 1987 para US$ 0,94 no dia 20 – uma queda de 25,98%. A ação já estava acima de US$ 1,27 três meses depois, em janeiro, e hoje em dia opera próximo dos US$ 100, o que transformou o crash de 1987 em uma boa oportunidade de compra. 

4) O que sobe rápido, também cai rápido
Outro fator importante a ser lembrado é a causa do próprio crash. Pouco se lembra que em 1987, o mercado norte-americano estava registrando uma forte alta. Depois de iniciar o ano nos 1.895 pontos, o Dow Jones chegou a subir 45% até os 2.746 pontos – o que faria com o índice registrasse o seu melhor ano desde 1933, recuperando-se da quebra de 1929.

Mesmo com a queda de 22,6% no dia 19 de outubro, o índice terminou o ano com alta de 2,26%, aos 1.938 pontos. “Qualquer modelo que se proponha a fazer muitíssimo dinheiro em ações está fadado ao fracasso”, alerta o economista Gary Shilling, presidente da A. Gary Shilling & Co. Para ele o próprio crash foi uma rápida correção desta alta excepcional nos primeiros meses do ano. 

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Shilling nota que uma das próprias causas teria sido a estratégia de fazer uma espécie de “seguro” contra quedas durante o ano, que havia se popularizado em Wall Street. Com as altas, programas de computador compravam contratos futuros sobre índice, e vendia na queda, criando uma bola de neve que fez com que o recuo fosse amplificado justamente pois a alta também o havia sido.

5) Nada é impossível
A possibilidade de um crash desses é virtualmente impossível, avalia Ted Aronson, estatístico e fundador da firma de investimentos AJO. Contudo, aconteceu. E pode voltar a acontecer, já que coisas tidas como impossíveis acontecem com frequência no mercado de investimentos.

“Pensamos que como humanos podemos identificar padrões e tendências, mas o mercado na verdade é uma grande loucura”, avalia o estatístico. O melhor conselho de Aronson, portanto, é manter os custos baixos e diversificar os ativos. 

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6) Não dê muita atenção aos problemas diários
Bob Pavlik, estrategista-chefe da Banyan Partners, destaca que essas correções são ocorrências comuns no mercado. Mas os investidores entram em pânico, e continuam a agravar esses movimentos – naturais dos ciclos de contração e expansão do mercado. 

“Se você der muita atenção aos detalhes, perde a figura toda”, destaca Pavlik. E isso acaba se tornando um problema, já que o investidor pode acabar perdendo o movimento dos ciclos, pontos naturais para realizar compras ou vendas no mercado. 

7) Não saia do mercado
Uma dica importante sobre esses crashes: não saia do mercado, avisa William Braman, CIO (Chief Investment Officer) na Ballentine Partners. Após o crash, muitos especialistas projetaram que a economia mundial iria se desacelerar fortemente, o que acabou não ocorrendo.

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Quem acreditou neles, perdeu a recuperação, e consequentemente, dinheiro. “Você tem que ficar focado no longo prazo e não ficar incomodado com esses barulhos do curto prazo”, afirma Braman. Roy Diliberto, fundador da RTD Financial Advisors, concorda. “O problema em sair é que você nunca sabe o momento ideal para voltar”, avisa.

8) Não use o calendário para rebalancear o portfólio
Diliberto avisa: o ideal é não usar apenas calendário para rebalancear o portfólio, ou você pode perder uma oportunidade destas. Se o rebalanceamento é feito apenas a cada trimestre ou anualmente, o investidor não faz o chamado “rebalanceamento oportunístico”.

“Em 2009, depois da queda de 2008, estavamos mais expostos a títulos de dívida, mas começamos a comprar classes de ativos que estavamos fora. E já haviamos recuperado das perdas antes de muita gente, que resolveu manter a estratégia inalterada”, conta Diliberto. 

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9) Aposte somente o que você puder apostar
Ficar alavancado é perigoso em um momento desses. O fato de que muitos estavam usando as chamadas “contas margem” em 1987 fez com que o mercado ficasse ainda mais agressivo. Para Rotblut, o ideal é que os investidores pessoa física não utilizem esse tipo de mecanismo. 

Para Leclerc, o ideal é que só utilizar isso quando há uma oportunidade clara de fazer, um movimento óbvio, como quando um hedge fund precisa realizar vendas para cobrir suas apostas. 

10) O risco é maior hoje em dia
Somente uma coisa mudou de 1987 para cá: os robôs no mercado, supostos catalisadores de momentos de pânico no mercado, ficaram muito mais fortes e expressivos. “Investidores estão mais expostos ao risco agora, mas há mais oportunidades para fortalecer e amplificar ideias de investimentos em situações como estas”, avisa Aronson. 

Na visão de Rotblut, a criação de homebrokers também fez com os investidores pessoas físicas ficassem mais vulneráveis à movimentos bruscos e ao “efeito manada”, já que não contam com o apoio de especialistas para dar conselhos. Para Jeff Applegate, CIO do Morgan Stanley Wealth Management.  Esse aumento do risco enfraqueceu o apetite dos investidores pessoas física nos EUA, algo que também pode acontecer por aqui.