Argentina: o que está em jogo para os mercados do país com as eleições deste domingo

As eleições do dia 26 são muito mais do que um evento político, representando um teste para a confiança do mercado argentino

Felipe Moreira

Um manifestante agita uma bandeira enquanto participa de uma marcha para defender as universidades públicas, depois que o presidente argentino Javier Milei vetou leis para aumentar o financiamento de hospitais pediátricos e universidades públicas, citando esforços para controlar os gastos públicos, em Buenos Aires, Argentina, 17 de setembro de 2025. REUTERS/Francisco Loureiro
Um manifestante agita uma bandeira enquanto participa de uma marcha para defender as universidades públicas, depois que o presidente argentino Javier Milei vetou leis para aumentar o financiamento de hospitais pediátricos e universidades públicas, citando esforços para controlar os gastos públicos, em Buenos Aires, Argentina, 17 de setembro de 2025. REUTERS/Francisco Loureiro

Publicidade

As eleições legislativas argentinas deste domingo (26) ocorrerem em um contexto de forte instabilidade econômica e política, após dois anos de desempenho sólido das ações do país, mas marcados neste ano por incertezas sobre a continuidade das políticas fiscais e cambiais.

O Itaú BBA destaca que os investidores estão desconfiados, o que tem se refletido nos ativos. Além disso, no mês passado, a venda frenética que castigou os mercados argentinos após a derrota do partido do presidente Javier Milei nas urnas também deixou investidores globais em alerta para outro possível baque após as eleições legislativas deste domingo.

O banco destaca que a Argentina reduziu os gastos fiscais em 10,5% do produto interno bruto (PIB) ao longo de alguns anos, uma conquista reconhecida globalmente como um sucesso.

Oportunidade com segurança!

“No entanto, o desafio está em transitar de um modelo baseado em políticas fiscais e monetárias expansivas para um focado em investimento, cujo retorno leva tempo para se materializar, enquanto os cortes de gastos têm efeito imediato”, explicam analistas.

Política fiscal

Para o BBA, a política fiscal permanece como um ponto central: cortes realizados nos últimos anos reduziram gastos em 10,5% do PIB, e o governo busca consolidar avanços em tributação e redução de despesas.

No entanto, alguns impostos distorcivos, como sobre faturamento, transações financeiras e exportações, ainda geram tensão entre os interesses de setores dependentes de transferências governamentais e a necessidade de manter o equilíbrio fiscal.

Continua depois da publicidade

Câmbio

Outro ponto crítico é a política cambial futura, segundo o BBA. O governo aposta em aumentar produtividade e conter gastos em vez de recorrer à depreciação do peso argentino, enquanto o mercado sugere maior flexibilidade cambial.

“Com reservas limitadas e dependência de linhas de apoio do Tesouro dos EUA, a evolução da taxa de câmbio real será determinante para os juros, o consumo e o apetite de investidores”, comentam analistas.

Cenário eleitoral complica ainda mais a equação

A fragmentação política argentina significa que coalizões pró-mercado ou alinhadas ao governo podem alcançar uma minoria de bloqueio no Congresso com cerca de 30 a 35% dos votos, garantindo capacidade de veto sobre legislações estratégicas. No entanto, aprovar reformas exigirá alianças mais amplas, especialmente com governadores e no Senado, tornando a distribuição de votos por província crucial.

Para o mercado de ações, o índice Merval já recuou 45% em relação ao pico do ano passado, refletindo o clima de cautela. Analistas apontam que um resultado eleitoral favorável às forças pró-mercado, aliado à preservação do superávit fiscal, poderia impulsionar recuperação significativa, com maior demanda por pesos argentinos, juros mais baixos e possível retomada do acesso ao mercado financeiro.

Por outro lado, uma eleição desfavorável ao presidente argentino poderia agravar a pressão sobre reservas, câmbio e confiança dos investidores, levando o Merval a níveis ainda mais baixos, entre 500 e 700 pontos.

Assim, avalia o BBA, as eleições do dia 26 são muito mais do que um evento político, representando um teste para a confiança do mercado argentino, impactando desde políticas fiscais e cambiais até o desempenho do setor de consumo e a trajetória das ações no curto e médio prazo.

Continua depois da publicidade

No geral, gestores de recursos e estrategistas afirmam que, se a coalizão La Libertad Avanza conseguir um terço das cadeiras no Congresso, os mercados podem reagir positivamente. Mas, mesmo com essa meta baixa, ressalta a Bloomberg, — antes da derrota do mês passado, as expectativas eram maiores — empresas como Morgan Stanley e UBS alertam para riscos significativos: um desempenho mais fraco provavelmente será visto como uma ameaça à agenda de reformas econômicas de Milei e ao fluxo de recursos de resgate que os EUA injetaram para fortalecer a moeda do país.

A questão central será se Milei conseguirá manter apoio suficiente no Legislativo para vetar tentativas da oposição peronista de reverter sua agenda. Os investidores também estarão atentos a sinais de que o resultado pode levá-lo a adotar uma postura mais conciliatória com seus adversários políticos.

“O verdadeiro teste está na estratégia pós-eleitoral de Milei,” escreveu o economista do JPMorgan Chase & Co., Diego Pereira, em nota aos clientes. Ele afirmou que uma narrativa de “derrota nacional” provavelmente prevalecerá se Milei obtiver cerca de 31% a 32% dos votos e sofrer perdas na maioria das províncias.

Continua depois da publicidade

“Ter um ‘terço de veto’ no Congresso não substitui as alianças necessárias para aprovar reformas macroeconômicas críticas; uma mudança da retórica combativa para a governança pragmática é essencial,” disse ele.

(com Bloomberg)