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A recuperação dos mercados nos últimos dias reflete o maior otimismo em relação à situação argentina, uma vez que o mercado encara a possibilidade de reestruturação da dívida argentina como positiva, eliminando a possibilidade de inadimplência por parte de nosso vizinho do Mercosul.
A chamada “solução” difere de forma marcante das medidas tomadas para controlar a crise brasileira ocorrida no início de 1999. No caso brasileiro, o real sofreu forte ataque especulativo, consumindo boa parte das reservas internacionais do país e pondo em risco a capacidade do Brasil de honrar seus compromissos internacionais. O caminho tomado foi desvalorizar a moeda brasileira, permitindo que os fluxos de capitais se normalizassem de forma voluntária, ou seja, trazendo maior tranqüilidade ao mercado interno e aos investidores estrangeiros. Além disso, o esforço feito na parte fiscal permitiu que o Brasil reduzisse o déficit público e evitasse a explosão da relação dívida pública/PIB.
No caso argentino, o tratamento aos problemas parece caminhar para um caminho totalmente diferente. Embora nenhum dado seja oficial, a proposta da reestruturação da dívida argentina de curto prazo parece incluir a substituição “voluntária” de cerca de US$ 20 bilhões em papéis argentinos que vencem até 2005 por títulos de longo prazo, possivelmente até 20 anos. De acordo com informações de mercado, seriam trocados cerca de US$ 5 bilhões em Letes, com vencimentos de 91 dias, 182 dias e 364 dias, além de US$ 10 bilhões em Bontes, com vencimentos de até três anos. Rumores também indicam que outros papéis de prazo mais longo poderiam ser trocados, como Bontes com prazo superior a três anos e mesmo parte dos FRB, principais títulos da dívida externa argentina.
O governo argentino trabalha com propostas de diversos bancos internacionais para realizar esta operação, que parte do mercado compara com as inúmeras trocas de Brady Bonds, ou papéis já reestruturados, por Global Bonds durante os últimos anos. Estas trocas, feitas por países como Brasil, Argentina e México, entre outros, visavam oferecer aos investidores papéis mais adequados às suas necessidades de fluxo de caixa, eliminando a necessidade de garantias ou de cash flows complicados, como no caso da maioria dos Brady Bonds. Entretanto foram totalmente voluntárias e, de forma geral, em pouco alteravam o perfil de prazo das dívidas soberanas.
No caso da troca argentina, a situação é completamente diferente. A Argentina parece não ter condições no momento de rolar a sua dívida de curto prazo, o que ficou claro no cancelamento do leilão de Letes da última terça-feira. Aos possuidores de papéis argentino com vencimento de curto prazo, restam poucas alternativas, das quais uma é “voluntariamente” trocar seus papéis por títulos de prazo mais longo. Esta solução evitaria a inadimplência no curto prazo, mas por outro lado abre um perigoso precedente para países com problemas estruturais como a Argentina. Não podemos falar de suspensão unilateral de pagamentos, mas também seria muito pretensioso descrever a operação proposta como uma simples troca de dívida.
A pouca flexibilidade do regime cambial argentino colocou o país em uma situação perigosa: por um lado a economia continua em estagnação, em muito causado pela nítida sobrevalorização do peso. O fluxo de investimentos estrangeiros, além de cauteloso com a situação atual, também tem se retraído buscando mercados onde possa reduzir custos, como México e Brasil, por exemplo. Todos estes fatores indicam que a desvalorização seria o caminho a tomar. Por outro lado, não somente o governo mas também as empresas, e a própria população argentina estão fortemente endividados em dólares, a grande maioria dos quais com pouca ou nenhuma contrapartida para fazer face à uma desvalorização do peso.
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Desta forma, a solução de renegociação da dívida alivia a situação de curto prazo, mas em muito pouco contribui para atacar os reais problemas da economia argentina. No ano passado tanto a Argentina quanto a Turquia tiveram que recorrer à ajuda das instituições multilaterais como o FMI e o Banco Mundial, buscando socorro, porém nenhum dos dois países alterou seu regime cambial. No caso turco, o sistema cambial resistiu por pouco tempo, e no final de fevereiro o regime de livre flutuação da lira turca foi adotado, gerando forte desvalorização da moeda local.
A Argentina pode talvez suportar mais este ataque, mas continua suscetível a novas ondas especulativas, já que os fundamentos novamente permanecem inalterados. A nomeação de Cavallo como “superministro” pode surtir efeito desta vez, mas resta a pergunta do que fará a Argentina quando o próximo ataque vier.