Apostas altas para IPOs em 2011 não garantem sucesso para estreantes

Boa parte das estreantes amarga precificações abaixo do esperado, mas desempenho de novas ações na bolsa é bom

Por  Julia Ramos M. Leite

SÃO PAULO – O ano começou com grandes projeções para os IPOs (Initial Public Offers) na bolsa brasileira. Tanta expectativa, contudo, não garantiu um início de 2011 animador para as empresas interessadas em abrir seu capital.

De oito operações, três tiveram suas ações precificadas dentro do intervalo estimado; outras três saíram com valor abaixo das expectativas dos coordenadores. Das duas restantes, uma foi cancelada e a outra adiada. 

Em termos de variação dos papéis, os números também não são unânimes, mas carregam um viés mais positivo: apenas uma das estreantes acumula queda em relação ao preço estabelecido no processo de bookbuilding do IPO (confira na tabela). 

Confira a variação das estreantes
na BM&F Bovespa este ano 
Empresa  Ação   Variação desde 
a estreia*
ArezzoARZZ3+27,89%
AutometalAUTM3+26,43%
IMCIMCH3+9,26%
Sonae SierraSSBR3+17,90%
T4FSHOW3-7,94%
Queiroz Galvão 
Exploração e Produção
QGEP3+12,00%
* Considerando o preço de estreia e o fechamento de 27 de abril

Fica agora a expectativa para uma das mais esperadas ofertas dos últimos anos – a do Magazine Luiza, cujas ações devem estrear na bolsa no início de maio e que teve na última sessão o encerramento de seu período de reservas – e terá o preço por ação anunciado nesta quinta-feira (28). 

Apesar dos resultados mistos, a maioria das empresas considera sua entrada na BM&F Bovespa como um sucesso, avaliando o momento do mercado como principal culpado pelas decepções. Leia abaixo as histórias por trás dos IPOs de 2011.

– Arezzo: “a menina dos olhos” entre as estreantes

O primeiro IPO do ano foi também o mais animador até agora. A varejista do setor de calçados Arezzo entrou na bolsa não somente com suas ações precificadas no topo das estimativas dos coordenadores da oferta (em R$ 19,00), mas também estreou com forte alta na BM&F Bovespa. 

À época, o presidente da companhia comemorou o resultado. “Nós fundamos a empresa em 1972 e hoje ela nasce para o mercado. Isso muito me orgulha”, disse Anderson Birman. A companhia realizou a emissão de 29.779.413 ações ordinárias – incluindo-se nesse número os lotes adicional e suplementar, que foram exercidos integralmente – e captou R$ 565,809 milhões.

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A Arezzo chegou à bolsa com valor de mercado de R$ 1,682 bilhão, aumento de 451% desde a entrada da gestora de fundos Tarpon, que em 2007 pagou R$ 76,3 milhões por uma participação de 25% na companhia. A Tarpon e os controladores da companhia, Anderson Birman e Alexandre Birman, embolsaram R$ 370,2 milhões com a venda de suas ações na oferta. Os outros R$ 195,6 milhões captados no IPO foram destinados ao caixa da companhia, que usará o dinheiro para expansão da rede de lojas e para financiar aquisições e parcerias estratégicas.

– T4F e Cimentos Liz: em período de silêncio após histórias diferentes

Além da Arezzo, a T4F Entretenimento foi uma das poucas empresas do ano que conseguiu lançar suas ações dentro do intervalo estimado pelos coordenadores da oferta. Os papéis saíram a R$ 16,00, faixa intermediária entre as estimativas entre R$ 14,50 e R$ 18,50.

A empresa, contudo, adiou a estreia na BM&F Bovespa e a publicação do preço por ação. À época, a empresa não deu motivos para a decisão – que seguem desconhecidos, já que a empresa continua em período de silêncio e não falou à InfoMoney sobre o assunto.

A oferta terminou com captação de R$ 539,310 milhões – quase R$ 100 milhões a menos do que a máxima esperada, de R$ 623,57 milhões -, e 33.706.896 ações da companhia no mercado – 11.724.138 na distribuição primária e as demais 21.982.758 na distribuição secundária.

Já o IPO da Cimentos Liz ainda está em período de espera. A empresa, que entrou com pedido de análise de oferta pública de ações ordinárias junto à CVM em 2 de fevereiro, pediu a interrupção da oferta de ações por até 60 dias, culpando a “atual conjuntura de mercado”.

A empresa planeja distribuir inicialmente 47.700.000 ações ordinárias em oferta primária, soma que não inclui os lotes suplementar e adicional. A estimativa era que as ações fossem precificadas no intervalo entre R$ 10,00 e R$ 13,00, com a captação máxima de R$ 837,135 milhões.

A empresa pediu o adiamento depois da realização dos pedidos e reserva e depósitos de pagamento, no dia em que estava marcado o final do procedimento de bookbuilding – indicando que a demanda ou o preço das ações não ficou em linha com o esperado. Procurada pela InfoMoney, a assessoria da Cimentos Liz informou que a empresa segue em período de silêncio e, portanto, não poderia comentar o IPO.

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– IMC: no piso

A IMC (International Meal Company) se junta à Arezzo e à T4F no grupo de empresas que conseguiram precificar suas ações dentro das estimativas iniciais – mas enquanto os papéis da Arezzo saíram no topo das estimativas e os da T4F quase no ponto médio, os ativos da IMC foram precificados a R$ 13,50, piso da faixa esperada pelos coordenadores, entre R$ 13,50 e R$ 16,50.

A empresa captou R$ 453,595 milhões dos R$ 680,39 milhões máximos que a oferta poderia gerar, colocando 24.505.554 ações na distribuição primária e 10.621.387 papéis na distribuição secundária, mas mantendo o lote adicional inalterado. 

– Autometal: alta das ações compensou “prejuízo” na operação

Algumas estreantes na bolsa, contudo, tiveram suas ações precificadas abaixo das expectativas iniciais – caso da Autometal, que viu seus papéis saírem a R$ 14,00, abaixo do intervalo entre R$ 17,00 e R$ 21,00 previsto.

O controller e RI da empresa, Alisson Miserani Belardino, culpa o mau momento do mercado pelo preço decepcionante das ações. “Aconteceu com todas as empresas”, diz o executivo. A companhia, entretanto, optou por não adiar nem cancelar o IPO, como algumas das estreantes fizeram. “Pensamos em adiar, mas achamos que traria uma impressão ruim para o papel e decidimos ‘arcar com o prejuízo’”, explica.

A precificação acabou afetando os planos da empresa, que está adaptando o planejamento, em especial no ramo de fusões e aquisições, que ficaria com boa parte do dinheiro captado na oferta e deve incrementar a receita da Autometal em R$ 1 bilhão nos próximos três anos.

Belardino, contudo, considera a operação um sucesso, e oferece como prova o movimento das ações da companhia desde a estreia na bolsa, que já “compensa” em parte a precificação: do dia 7 de fevereiro, seu primeiro pregão, ao dia 20 de abril, o papel subiu pouco mais de 25%, atingindo R$ 17,51.

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– Sonae Sierra: redução de preço, mas objetivo cumprido

A Sonae Sierra também entra na lista de IPOs que saíram com a precificação abaixo do estimado – os papéis foram precificados em R$ 20,00, enquanto a faixa estimada era entre R$ 21,50 e R$ 26,50.

O CEO da empresa, José Baeta Tomás, explica que a deterioração do cenário inflacionário acabou frustrando a expectativa de condições melhores no mercado à época da oferta. Além da situação doméstica, a inesperada onda de revoltas no Oriente Médio e no norte da África também aumentou a aversão ao risco e prejudicaram o mercado acionário.

A companhia acabou então reduzindo o preço mínimo dos papéis, – “como sucedeu com outras empresas que aderiram ao mercado nessa altura”, pontua o CEO. Com isso, a oferta acabou captando R$ 465 milhões, bem abaixo do máximo estimado, de R$ 777 milhões. “Se considerarmos o ponto médio do intervalo de preço, a captação estaria próxima a R$ 500 milhões, bem próximo do valor atingido”, diz Tomás.

Apesar dos percalços, o IPO foi considerado um êxito pela empresa, já que atingiu os objetivos fundamentais: ampliar a base acionária e captar de recursos que permitem o prosseguimento da estratégia de expansão da empresa.

– Queiroz Galvão Exploração e Produção: mau momento do mercado não desanimou

A trinca de empresas que continuaram o IPO mesmo com condições não tão favoráveis é completada pela Queiroz Galvão Exploração e Produção, que estreou na BM&F Bovespa no início de fevereiro, depois de promover uma reestrururação societária para segregar os ativos de exploração e produção de petróleo do Grupo Queiroz Galvão. “Se capitalizar era uma necessidade da empresa, e tentativa de se aproveitar do bom timing do mercado”, aponta Paula Costa, diretora financeira e de RI da QGEP.

A expectativa dos coordenadores da oferta era que os papéis fossem precificados no intervalo entre R$ 23,00 e R$ 29,00. Depois de rumores não confirmados de que o piso estaria sendo alterado – não confirmados pelo Itaú BBA, coordenador líder do processo – os ativos saíram a R$ 19,00.

Mas foi justamente o momento do mercado, segundo Paula, que atrapalhou o IPO. Para ela, o preço abaixo do piso foi resultado meramente da condição de mercado, e não indica nenhuma rejeição à empresa ou ao setor. “Aconteceu com outras empresas na mesma época, é só uma questão de conjuntura macro”, explica.

O preço abaixo do esperado não modifica o viés positivo da operação para a QGEP. “Vimos a operação como algo bastante positivo. Nosso objetivo era capitalizar a companhia, que já estava preparada do ponto de vista técnico, e aproveitar o bom momento do mercado. O objetivo da capitalização foi atingido, captamos o suficiente para tocar nossos planos de investimento no curto prazo”, diz a executiva. Dos R$ 2,7 bilhões máximos, a empresa captou R$ 1,515 bilhão

Segundo Paula, é possível que em alguns anos, à medida que progride a campanha exploratória, a empresa precise de outra captação – seja no mercado de dívida ou de ações. “Mas aí vamos ter uma outra história para mostrar ao mercado, e será uma história bem bacana”, resume.

– CAB Ambiental: pressa e desconhecimento dos investidores no caminho

A operação da CAB Ambiental foi um dos IPOs que não deu certo em 2011. O diretor presidente da companhia, Yves Besse, explica que a ideia inicial era que a empresa abrisse capital em alguns anos, quando já tivesse porte e governança suficientes. Entretanto, uma palestra na BM&F Bovespa em meados de 2010 mudou os planos. “Vimos demanda e interesse de investidores, e tivemos uma proposta da Bovespa para abrir capital no âmbito do Bovespa Mais”.

A CAB decidiu então adiantar o cronograma para o primeiro semestre de 2011 – mas para que isso acontecesse, a empresa teria que montar a oferta baseada no balanço trimestral de setembro de 2010, já que a partir de dezembro entrou em vigor o padrão IFRS, que exigiria a readaptação de todos os dados e atrasaria o processo.

Com muito trabalho, a empresa cumpriu os prazos e planejou sua abertura de capital entre a última semana de fevereiro e o início de março. O período, contudo, acabou não sendo dos mais favoráveis para o mercado. “Não recebemos propostas adequadas ao intervalo de preços”, resume Besse. A demanda também não foi tão grande quanto o esperado, mas a empresa conseguiu fechar o book.

Adiar a oferta por um ou dois meses, o que seria o ideal, não era uma opção. “Como usamos o balanço de setembro, o prazo limite era menor do que o habitual, um pouco depois do carnaval. Se ultrapassássemos, teríamos que refazer o prospecto, tudo, com as informações de dezembro – em padrão IFRS. Não daria tempo”, explica.

Também pesou, na visão do executivo, o desconhecimento do mercado financeiro sobre uma empresa nos modelos da CAB – uma empresa privada prestadora de serviços de saneamento básico ao setor público. “Isso não existe no Brasil. As referências do setor são empresas públicas, totalmente diferentes de nós, ou de infraestrutura, que são privadas, mas com características também diferentes. O mercado teve certa dificuldade em precificar, e nós não soubemos mostrar”.

Sem tempo, insatisfeitos com o valor e pensando na liquidez futura dos papéis, os acionistas decidiram então desistir da operação. Agora, a empresa retornou ao seu plano original: crescer com a ajuda de um parceiro estratégico, seja financeiro ou operacional, até que esteja pronta para ir ao mercado, o que deve acontecer em 2012 ou 2013.

Para garantir o sucesso na próxima tentativa, o diretor da CAB aponta algumas mudanças pela frente. “Precisamos nos reorganizar para ser mais transparentes quanto ao nosso trabalho, para que o mercado financeiro nos entenda. Se o mercado não conseguiu me conhecer, eu preciso fazer com que ele me conheça”.

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