Aposta em transição impulsiona bonds da Venezuela, mas risco segue elevado; entenda

O país precisa desfazer um emaranhado de US$ 154 bilhões em títulos em default, empréstimos e decisões judiciais devidas a credores que vão de Wall Street à Rússia

Bloomberg

Mulher segura bandeira da Venezuela em Madri após notícias da captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por forças dos EUA
03/01/2026 REUTERS/Violeta Santos Moura
Mulher segura bandeira da Venezuela em Madri após notícias da captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por forças dos EUA 03/01/2026 REUTERS/Violeta Santos Moura

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Os títulos da Venezuela avançam após os Estados Unidos capturarem o presidente Nicolás Maduro, abrindo caminho para uma possível mudança de regime — cenário no qual investidores com cerca de US$ 60 bilhões em papéis vêm apostando.

Notas em default do soberano e da estatal de petróleo PDVSA mais do que dobraram nos últimos meses, passando para entre 23 e 33 centavos por dólar, à medida que o presidente dos EUA, Donald Trump, intensificou a pressão sobre Maduro. Embora ainda distante, a perspectiva de uma reestruturação da dívida — passo-chave para atrair novos financiamentos — pode impulsionar novos ganhos, levando os chamados preços de recuperação para 50 a 60 centavos, segundo investidores.

“A Venezuela continua enfrentando severas restrições de liquidez, e qualquer processo eventual de reestruturação provavelmente será longo e complexo”, disse Alberto Rojas, estrategista sênior de mercados emergentes do UBS. “Por ora, porém, o mercado parece menos focado nos fundamentos de longo prazo e mais na reprecificação da opcionalidade política — um cenário que, até recentemente, muitos investidores viam como altamente remoto.”

Viva do lucro de grandes empresas

A perspectiva marca uma reviravolta acentuada para os títulos, que há pouco mais de dois anos eram negociados por centavos de dólar. Os bonds em dólar do país subiram entre 7 e 9 centavos por dólar ao longo das diferentes maturidades, em negociações de baixa liquidez em Londres na segunda-feira, segundo traders. As notas da PDVSA também avançaram, disseram eles, sob condição de anonimato por política da empresa.

“O objetivo imediato era a remoção de Maduro. Objetivo alcançado”, afirmou Robert Koenigsberger, fundador e diretor de investimentos da Gramercy Funds Management. “Agora, o caminho à frente depende do tipo de mudança de regime que ocorrerá. Além disso, entender o papel dos EUA na transição será fundamental.”

Os EUA administrarão a Venezuela até que uma transição de liderança possa ser organizada, disse Trump em coletiva no sábado. Isso será feito “com um grupo” composto majoritariamente por altos funcionários americanos, com foco na recuperação da infraestrutura de petróleo.

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Ray Zucaro, diretor de investimentos da RVX Asset Management LLC, em Miami, está entre os investidores que vêm comprando os títulos. À medida que Trump enviou tropas dos EUA ao Caribe para realizar ataques contra barcos supostamente ligados ao tráfico de drogas, cresceram as apostas de queda do regime. Os ganhos haviam perdido força recentemente, diante do receio de que o líder socialista conseguisse se manter no poder, como em 2019 e 2024.

“Se os EUA realmente acabarem comandando o processo, trabalhando com a administração atual e maximizando a produção de petróleo, isso pode, no fim, ser um grande ganho para a Venezuela, inclusive para sua dívida”, disse Zucaro. “Saiu tanto dinheiro do país que existe uma oportunidade real de entrada de capital.”

Um ponto-chave para os investidores é o papel que a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez desempenhará. O secretário de Estado Marco Rubio esteve em contato com Rodríguez, disse Trump no sábado, acrescentando que espera cooperação. Isso elevou as expectativas de uma transição mais ordenada.

Mas, poucas horas depois, Rodríguez pediu o retorno de Maduro, classificando a ação dos EUA como “bárbara”.

A vice-presidente “estará sob enorme pressão para cooperar com os EUA se quiser estabilizar um governo interino e reduzir tensões, mas também precisa manter certa retórica para consumo doméstico”, disse Risa Grais-Targow, analista da Eurasia Group. “Os detentores de títulos buscarão qualquer sinal de estabilidade política e receberão bem uma administração disposta a trabalhar com os EUA.”

Reestruturação complexa

Uma solução para a dívida venezuelana pode se mostrar complicada. O país precisa desfazer um emaranhado de US$ 154 bilhões em títulos em default, empréstimos e decisões judiciais devidas a credores que vão de Wall Street à Rússia. Uma reestruturação, disse Koenigsberger, da Gramercy, provavelmente só ocorreria após a formação de um governo permanente.

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“Uma reestruturação bem-sucedida exige, em última instância, um governo legítimo, capaz de se comprometer de forma crível com reformas, normalmente ancoradas por um programa de apoio do FMI”, afirmou Nicolas Jaquier, gestor de renda fixa da Ninety One UK Limited. “Persistem obstáculos e incertezas muito significativos” e “não há legitimidade clara para que a liderança atual conduza negociações de reestruturação da dívida”.

Trump deu poucos detalhes sobre como os EUA administrarão o país sul-americano ou por quanto tempo. Ele descartou a ideia de trabalhar com a vencedora do Nobel da Paz María Corina Machado, de quem muitos esperavam participação.

“Se o novo regime for aceitável para os EUA, então talvez a Venezuela possa contar com apoio sério para a reconstrução. Nesse cenário, à medida que se discuta a retomada do acesso aos mercados de capitais, as possibilidades de reestruturação da dívida entram em pauta”, disse Hari Hariharan, diretor de investimentos da NWI Management, em Nova York.

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Hariharan afirmou que as conversas sobre valor de recuperação poderiam girar em torno de 50 a 60 centavos por dólar. “O desafio será o prazo”, acrescentou.

Por ora, há otimismo de que uma mudança de regime possa ajudar a reinserir o país na economia global após um colapso econômico de uma década, que desencadeou a pior crise de refugiados da história do hemisfério ocidental.

“A reestruturação se torna mais provável e de curto prazo se os EUA estiverem envolvidos. Com investimento robusto, eles vão reconstruir rapidamente a capacidade de produção de petróleo”, disse Francesco Marani, que negocia dívida venezuelana e da estatal de petróleo para a espanhola Auriga Global Investors SV SA.

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A Venezuela entrou em default a partir de 2017, dois anos antes de os EUA romperem relações com o governo Maduro e imporem uma proibição que impede investidores americanos de comprar a dívida do país. Os volumes de negociação ainda são baixos e dominados por hedge funds e especialistas em ativos estressados. O JPMorgan Chase & Co. recolocou os títulos em seus índices amplamente acompanhados após a reversão das sanções ao trading secundário em 2023.

Desde então, apostar nesses papéis tornou-se uma das operações mais lucrativas do mundo em desenvolvimento, com ganhos acelerando no ano passado em meio a um aumento mais amplo do apetite por risco. Dívida soberana de alto risco de países que promoveram reformas ou saíram do default, como Líbano e Ucrânia, também apresentou retornos expressivos em 2025.

©️2026 Bloomberg L.P.