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SÃO PAULO – Passados os primeiros cinco meses do ano, as projeções para a economia global passam a incorporar de forma mais concreta os desafios e repercussões da crise fiscal europeia. A pergunta central é: quais os impactos da crise no continente, nos EUA e nos mercados emergentes?
O tema, além de perspectivas e cenários macroeconômicos, foi abordado pela equipe do LCA em sua carta mensal. Diferenciando a trajetória das economias avançadas e emergentes, que se recuperam de forma desbalanceada da recessão, os consultores mostraram otimismo e atribuem 80% de chances a um cenário onde a recuperação global se consolida no decorrer de 2010 e 2011. No mesmo cenário, as principais questões das economias mais desenvolvidas seriam lidar com a consolidação do crescimetno e estabilização financeira, enquanto para as emergentes o principal risco é a aceleração inflacionária.
Economias avançadas com risco de contágio
O grupo é heterogêneo, e também se recupera de forma distinta. Mas um ponto comum é que tanto EUA como países europeus estão lionge de seu crescimento pontecial. A deterioração das contas públicas, sobretudo em alguns países da Europa, é a principal questão.
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Fazendo a diferenciação dentro do bloco, salta aos olhos que os EUA têm superado expectativas este ano, registrando crescimento mais consistente e se mostrando mais agressivos para dosar “remédios fiscais e monetários” para o combate da crise. Um ponto importante é a participação do setor privado na expansão da demanda agregada, que vem se expandindo a cada mês.
Para estes países, o principal risco, assim, viria de um contágio da crise fiscal, seja pelo canal financeiro, com aumento da aversão ao risco (já evidenciada pelo aumento da volatilidade e movimento de correção de ativos, com adoção de postura mais defensiva), seja pelo desaquecimento das atividades e do comércio no mundo.
Embora estes riscos existam, os consultores acreditam que eles são limitados: do lado financeiro, a equipe lembra que as instituições financeiras estão menos alavancadas no momento atual do que na crise de dois anos atrás, bem como o empoçamento de liquidez, que vem ocorrendo em intensidade menor.
Pela via de desaquecimento da atividade, vale o mesmo: apesar de ter afetado fortemente as previsões para países como Grécia, Irlanda e Portugal, a crise não prejudicou expectativas para as grandes economias da região, como Alemanha. Além disso, as autoridades tem “demonstrado prontidão para evitar que a recuperação global seja colocada em risco”, através da preservação dos estímulos fiscais e monetários, vistos como cruciais.
A equipe LCA lembra ainda que apesar dos déficits, as contas públicas não parecem em “rota de deterioração progressiva”. Como exemplo, é citado o déficit da Alemanha, baixo se comparado ao dos EUA e dos demais países europeus, de modo que o governo estaria longe de um quadro de insolvência.
Mas, na Europa…
Por outro lado, as economias europeias mostram convalescência, e com políticas públicas mais rígidas, a recuperação fica mais difícil. Como já foi debatido durante os desdobramentos da crise fiscal, a adoação da moeda comum na região é um fator de rigidez a mais para as economias de menor porte da região, uma vez que elas não podem desvalorizar o câmbio para estimular a economia via aumento de exportações.
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E mesmo com o câmbio desvalorizado, essas economias (cujo caso alegórico é a Grécia) não se beneficiam tanto, uma vez que seu comércio externo se concentra no mercado interno europeu, além de se basear muito no turismo, setor muito prejudicado pela crise. Outro ponto crucial é que são países que já tinham histórico de displicência fiscal, como mostra o gráfico abaixo, e na visão dos consultores, com tudo isso combinado, as economias “parecem condenadas a um período prolongado de desempenho anêmico”
Com tudo isso, o cenário benigno ganha probabilidade de 80%, e o cenário adverso, pelo qual a recuperação perderia fôlego no segundo semestre, responde por apenas 20% da probabilidade. A equipe expõe duas razões pela qual ele aconteceria: retirada prematura dos estímulos oficiais nas grandes economias, e aprofundamento do movimento de correção nos preços dos ativos, levando a uma queda “mais substancial da confiança pessoal e corporativa nas principais economias mundiais”. Para a equipe, esse segundo fator teria probabilidade maior, embora também limitada.
Emergentes: cuidado com inflação
O risco da inflação é o principal para as economias de países emergentes, de modo que as autoridades se preocupam sobretudo em “dosar o ritmo de crescimento”. Mostrando maior dinamismo que as economias avançadas, após terem sofrido menos com a crise, os países vivem situação melhor tanto no âmbio fiscal como na consistência de crescimento.
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Os consultores destacam que muitas já estão em taxas de expansão perto ou até superiores ao crescimento potencial – o que eleva as pressões inflacionárias, levando as autoridades a revertar iniciativas de relaxamento fiscal e monetário da época da crise em alguns países. Ainda assim, a volatilidiade nos mercados e a preocupação com desdobramentos da situação fiscal sugerem que isso deve ser feito com cautela.
No caso brasileiro, a equipe acredita que a desaceleração da atividade vem ocorrendo de maneira tímida, de modo que “tanto a inflação corrente como as expectativas inflacionárias seguem pressionadas”. Embora não vejam chances concretas de desaceleração no ritmo de elevação na Selic na próximo reunião, a equipe sustenta que o BC pode adotar atitude mais moderada na condução da política monetária.
De modo geral, os consultores veem perspectiva de desaceleração da atividade na segunda metade do ano – “seja como efeito das medidas que estão sendo adotadas para dosar o crescimento; seja pelo prolongamento da volatilidade nos mercados financeiros”, finalizam.