Anvisa aprova 1º genérico de semaglutida do Brasil e eleva disputa: como fica Hypera?

Goldman Sachs vê fortalecimento da EMS após aprovação regulatória inédita e reforça expectativa de queda de preços e forte expansão do mercado de semaglutida nos próximos anos

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A aprovação do primeiro medicamento à base de semaglutida registrado oficialmente como genérico no Brasil deve aumentar a competição no mercado de tratamentos para diabetes e obesidade e acelerar a expansão do segmento de GLP-1 no país, apontou o Goldman Sachs, logo após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar o registro de dois novos produtos da NC Farma, grupo controlador da EMS e da Germed Farmacêutica.

Segundo publicação do Diário Oficial da União de segunda-feira (17), a Anvisa aprovou um genérico do Ozivy, medicamento da EMS à base de semaglutida, além do Semaclique, da Germed, registrado na categoria de similar. O produto da EMS torna-se o primeiro do país enquadrado formalmente na categoria regulatória de genérico para semaglutida.

Na avaliação do Goldman Sachs, a novidade fortalece a posição da EMS na disputa pelo mercado brasileiro de semaglutida, justamente por conta das vantagens associadas ao enquadramento regulatório. Diferentemente dos medicamentos classificados como similares, os genéricos podem ser substituídos pelo farmacêutico no balcão da farmácia sem necessidade de nova prescrição médica, desde que o médico não tenha proibido expressamente a substituição.

Além disso, a legislação brasileira exige que medicamentos genéricos sejam comercializados com desconto mínimo de 35% em relação ao produto de referência. Embora o Goldman ressalte que o impacto prático seja limitado, uma vez que as versões alternativas já são vendidas com descontos significativos frente ao Ozempic, a estrutura regulatória pode favorecer uma maior adoção do produto da EMS.

Os dois produtos aprovados utilizam a concentração de 1,34 mg/ml, equivalente à do Ozempic, da Novo Nordisk, mas inferior à concentração máxima disponível no Wegovy, tratamento para obesidade da farmacêutica dinamarquesa. Até o momento, não foram divulgados cronogramas de lançamento nem preços finais para as novas versões.

Guerra de preços deve acelerar

Para os analistas Gustavo Miele e Danilo Valigura, a aprovação reforça a tese de que o mercado brasileiro está entrando em uma fase de competição mais intensa, marcada por reduções de preços e crescimento acelerado dos volumes comercializados.

O banco reiterou sua expectativa de forte expansão do mercado de semaglutida no país, estimando vendas de cerca de 18 milhões de caixas em 2027, com a maior parte desse volume sendo capturada por alternativas aos produtos da Novo Nordisk.

Segundo o Goldman, um eventual genérico pode demandar menos investimentos em marketing e construção de marca do que produtos similares, o que abre espaço para preços ainda mais competitivos. Isso poderia ampliar o acesso ao tratamento e fortalecer o argumento econômico para uma eventual compra pública dos medicamentos ou inclusão futura em programas governamentais de saúde.

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Hypera segue bem posicionada

A análise também cita a Hypera (HYPE3) como uma das empresas mais bem posicionadas para capturar oportunidades no mercado brasileiro de GLP-1, graças à sua escala operacional e capacidade comercial. Ainda assim, o Goldman trata a tese como opcionalidade e não incorpora contribuições expressivas do segmento em suas projeções principais.

O banco estima que a entrada da companhia nesse mercado poderia elevar em aproximadamente 5% sua receita bruta projetada para 2027 em relação ao cenário-base. Por outro lado, os analistas não esperam impacto material no Ebitda da empresa no curto prazo, já que os primeiros anos devem exigir investimentos relevantes em visitas médicas, marketing e desenvolvimento de marca, pressionando as margens iniciais dos produtos.

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Para o Goldman, as margens do negócio de GLP-1 da Hypera tendem a ficar abaixo da média consolidada da companhia nos primeiros anos de operação, convergindo apenas gradualmente para os níveis observados nos demais segmentos da empresa.

Mercado pode dobrar

Em relatório anterior, o Goldman havia apontado que a chegada dos genéricos da semaglutida ao Brasil pode transformar o mercado local de medicamentos para diabetes e obesidade nos próximos anos.

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O banco estima que as vendas brutas da molécula no país poderão praticamente dobrar até 2029, impulsionadas pela forte expansão de volumes após a queda de preços decorrente da entrada de novos concorrentes.

Segundo o banco, o mercado brasileiro de semaglutida, que inclui Ozempic, Wegovy, Rybelsus e versões similares, deve crescer de R$ 5,7 bilhões em 2025 para R$ 10,7 bilhões em 2029. No período, o volume de unidades comercializadas deve saltar de cerca de 6 milhões para 25,6 milhões, refletindo um aumento significativo da penetração dos tratamentos entre pacientes com diabetes tipo 2 e obesidade.

O Goldman destaca que a perda da exclusividade da semaglutida no Brasil, ocorrida em março deste ano, abriu espaço para uma rápida intensificação da concorrência. Até o momento, seis versões similares já receberam aprovação da Anvisa, incluindo o Ozivy, da EMS, e o Owozy, da Sandoz, aprovado em julho em parceria com a Adalvo.

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Novo deve seguir líder

Apesar da chegada dos genéricos, o Goldman vê a Novo Nordisk mantendo uma posição dominante no mercado brasileiro. A tese é sustentada pela força das marcas Ozempic, Wegovy e Rybelsus, além da estratégia da farmacêutica de competir também no segmento de menor preço por meio dos produtos Extensior e Povitzra.

O banco estima que a Novo preserve entre 70% e 90% de participação do mercado de semaglutida em 2026, percentual que pode recuar para algo entre 40% e 60% até 2029, conforme a concorrência aumenta. Ainda assim, a companhia deve continuar capturando uma parcela relevante das receitas graças à fidelidade à marca, capacidade produtiva e portfólio mais amplo de dosagens.

O Goldman também avalia que a Sandoz pode se beneficiar de forma relevante da abertura desse mercado. A farmacêutica, que recebeu aprovação da Anvisa para comercializar o Owozy no fim de julho, deve iniciar as vendas ainda este ano.

Mesmo entrando em um ambiente competitivo, a instituição financeira acredita que a companhia está bem posicionada para conquistar participação relevante graças à sua estratégia de múltiplos fornecedores e à presença consolidada no mercado brasileiro.

Nas estimativas do banco, a Sandoz poderá alcançar entre 2% e 6% de participação do mercado de semaglutida em 2027 e entre 6% e 10% em 2029. Isso representaria uma oportunidade de vendas entre US$ 50 milhões e US$ 125 milhões por ano entre 2027 e 2029, contribuindo para que a divisão de genéricos da companhia registre crescimento no topo da faixa histórica de expansão.

Potencial adicional com SUS e mercado informal

O Goldman ainda aponta potenciais vetores extras de crescimento para o mercado brasileiro. Um deles seria uma eventual incorporação da semaglutida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), possibilidade que ganha relevância à medida que os preços recuam. Atualmente, os medicamentos da classe GLP-1 não são oferecidos pela rede pública para diabetes ou obesidade.

Outro fator seria a migração de consumidores que hoje recorrem ao mercado informal, incluindo medicamentos manipulados e produtos importados de forma paralela. Segundo o relatório, versões mais baratas e regulamentadas podem reduzir gradualmente o espaço dessas alternativas, ampliando ainda mais o mercado formal de semaglutida no país.

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Lara Rizério
Mercados | Economia | Investimentos

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.